A invasão ao Congresso dos EUA, na semana passada, foi a última, e talvez mais aviltante, demonstração de uma fragilidade do sistema democrático ocidental: o extremismo ideológico. Nações não democráticas ironizaram a situação, alimentando suas narrativas contrárias à participação popular.
O caos no cenário político da democracia ocidental não vem sozinho e denota não seu fim, mas um ponto de inflexão, cuja mudança de trajetória se mostra necessária. Ele é precedido por uma crise econômica do capitalismo ocidental, cujo aumento da concentração de riqueza e a consequente redução de renda das famílias tem levado, desde antes da pandemia do coronavírus, a uma situação de desindustrialização, desemprego e desamparo social.
Este desalento, sem perspectivas de caminhos consistentes de crescimento e desenvolvimento, inclusive em países ricos, coloca a população no desespero e apta a acreditar em qualquer história, narrativa e fake news que possa parecer esperançosa, o que abre espaço ao surgimento do populismo. Sobre o tema, Martha Nussbaum ("The Monarchy of Fear") fala que a política, ao contrário da economia e da ciência, “é sempre emocional”.
O “não acreditar na ciência” vem do desespero e, mais importante que entrar em debates ignóbeis como a importância da vacinação ou a esfericidade do planeta Terra, esse senso comum equivocado talvez decorra da falta de um amparo científico-econômico sério sobre o futuro do capitalismo e da própria economia mundial, pois, sem um sistema eficiente de produção e, especialmente, distribuição de riqueza, de nada adianta acreditar em qualquer outra coisa, seja no Papai Noel, seja na democracia.
E sobre o tema, desprezando conflitos históricos atualmente inúteis, não existe outra opção ao capitalismo. Na pós-modernidade não se tem espaço para modelos socialista, comunista ou feudal. Branko Milanovic (Capitalism, Alone) divide o mundo moderno entre o “capitalismo meritocrático liberal” (do Ocidente, que estamos habituados, EUA, Reino Unido, Brasil etc.) e o “capitalismo político” (da China), concluindo, ainda, que ambos os sistemas estão se aproximando.
De um lado, no nosso meritocrático liberal, dada a globalização, tem-se percebido novas formas de corrupção, manipulação do mercado e da informação, lavagem de dinheiro e tráfico de influências, que corroem o mérito (o “fazer por merecer”) e, consequentemente, a liberdade do cidadão, a democracia.
Como consequência, a concentração de riqueza aumenta, deteriora-se a classe média e a pobreza se torna ainda mais extrema. Enquanto isso, do outro lado do globo, no capitalismo político chinês, cada vez menos o Estado participa do capital das empresas, a classe média cresce em níveis galopantes (e consequentemente os níveis de escolaridade), e a qualquer momento de seu desenvolvimento deve ocorrer a abertura democrática.
Portanto, enquanto a população ocidental se encontra polarizada entre esquerda e direita de ideologias rasas e ideias fragmentadas, o mundo real se divide em níveis e termos totalmente diversos, mostrando o quanto o senso comum se encontra deslocado da realidade político-econômica.
A construção de um sistema pós-capitalista ou um novo capitalismo (como sugere Davos/2020) deve ser a forma equilibrada de alcançar a democracia um novo patamar, mais sustentável e com oportunidades de renda para todos. Para tanto, é preciso evitar extremismos ideológicos de qualquer lado, e alçar lideranças equilibradas, com o fim de retomar a importância das instituições e o retorno ao debate científico sério.