A decisão da Ford em fechar os parques industriais brasileiros gera incontáveis narrativas de que a culpa é da CLT, do alto custo trabalhista, das condenações em processos caros etc. Bem, ainda que problemas estruturais brasileiros, decorrentes de alta burocracia, prolixo sistema tributário e trabalhista, e toda a desorganização político-econômica, façam o Brasil perder, ao menos na margem, para México e Argentina, a questão é muito mais profunda e tem mais a ver com as mudanças no próprio mercado mundial de automóveis. E ainda assim o problema brasileiro é muito maior que perder 5 mil empregos industriais.
O que entristece é saber que o país perdeu oportunidades de ouro nesse mercado, deixando-se levar por lobby de montadoras multinacionais, concessão de subsídios através de políticas equivocadas, pouca valorização da mão de obra e total dependência de tecnologia estrangeira defasada.
A primeira perda de oportunidade, que poderia ter alçado o país ao protagonismo na indústria automobilística, ocorreu nos idos dos anos 70/80, com a crise do petróleo: seis anos depois de sua fundação, em 1969, a Gurgel iniciava o desenvolvimento de seu carro elétrico. A marca 100% nacional lançava em 1980 seu primeiro protótipo movido a bateria, o E150, quando Elon Musk ainda era um garotinho.
Gurgel também inovou na criação do material para seus chassis. O Plasteel, uma mescla de fibra de vidro e aço, algo primitivo ao que se usa atualmente em veículos de alta performance como Ferrari, Porsche e Lamborghini, que substituíram a fibra de vidro por fibra de carbono.
Nos anos 80, o país tinha um potencial concorrente para a grande indústria automobilística, com ideias inovadoras e o mais importante, tecnologia nacional. Sem apoio do governo, que tinha olhos apenas para o Proálcool, o carro elétrico da Gurgel não decolou. E nem se diga, como muitos à época, que o calcanhar de Aquiles do motor elétrico era o custo e a autonomia das baterias, pois, até hoje, o problema persiste e, mesmo assim, a Tesla se tornou a mais valiosa marca de automóveis do mundo.
A Ford, como representante da tradicional indústria, desde seu modelo T (que iniciou a montagem no Brasil em 1921), passando pelo Galaxie, Maverick, Del Rey e Escort, até chegar no novo Mustang, mantém o secular motor a combustão e pós-venda focado apenas na manutenção mecânica.
Em 2018 decidiu, em nível mundial, encerrar com a produção de carros leves de passeio, mantendo tão somente pick-ups e SUVs, cedendo grande parcela do mercado aos concorrentes. A decisão foi calcada na perda de participação e na defasagem de seus produtos.
Quase 40 anos depois do E150, a Tesla lança seu primeiro modelo a bateria, o Roadster, que veio a revolucionar todo modelo de negócios de vender carros. Os novos carros elétricos não diferem dos tradicionais tão somente pelo combustível utilizado. A mudança é mais profunda. A Tesla tem metade dos engenheiros especializados em software, seus mais de meio milhão de veículos nas ruas “funcionam como uma rede neural que arrecada dados continuamente e fornece ao cliente uma nova experiência de direção a cada 14 dias, com propriedades aprimoradas” (Herbert Diess, CEO da VW).
Percebendo essa mudança, a VW, ao invés de ceder mercado, lançou o que chamou de “Mission T”, seu plano para alcançar a companhia do Vale do Silício. A Volks identificou que a nova concorrente tem um modelo de negócios focado no futuro e com mão-de-obra altamente especializada. O pós-venda vai muito além das revisões a cada 10mil km, tendo um acompanhamento com “updates” quase diários. Nesse novo modelo de negócios, as fábricas se tornam mais automatizadas, reduzindo a contratação de base, enquanto a contratação de mão de obra altamente qualificada, com alto conhecimento tecnológico, tende a subir.
O problema não é, portanto, perder 5 mil postos de trabalho de chão de fábrica, mas não acompanhar as inovações. Não apoiar tecnologia nacional e não investir em educação e qualificação profissional, mantém uma oferta infindável de trabalho pouco qualificado e barato e pouca oferta de trabalho de alto conhecimento, fazendo com que empresas de tecnologia busquem trabalhadores lá fora. Aumenta-se o desemprego, a dependência econômica e os altíssimos níveis de desigualdade.