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É juiz do Trabalho, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e estudante de Economia. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

Em breve entraremos em 2021, mas 2020 está longe de acabar

No futuro pós-Covid, algumas forças que já estavam em cena, mas que se intensificaram neste ano, vão se consolidar no dia a dia de pessoas, empresas e governos

Publicado em 29/12/2020 às 05h00
Ainda viveremos o “efeito 2020” por muitos e muitos anos
Ainda viveremos o “efeito 2020” por muitos e muitos anos. Crédito: sarajulhaq786/ Pixabay

Chegamos à última semana deste fatídico ano, mas 2020 está longe do fim. Calma, é claro que após a contagem regressiva e o cuco sair da casinha à meia-noite de 31 de dezembro, ao menos no calendário, adentraremos em 2021. Todavia, historicamente o ano se eternizou e seus efeitos mudarão de tal forma a humanidade, que viveremos o “efeito 2020” por muitos e muitos anos.

Martin Wolf (Financial Times, 16.12.2020) aponta pelo menos cinco forças do futuro pós-covid-19, fenômenos que já estavam em ação muito antes da pandemia, mas a intensificação gerada a partir de março de 2020 foi tamanha que a consolidação desses movimentos se deu enquanto buscávamos nos manter vivos em nossas casas, adaptando-nos a uma nova realidade.

A primeira foi a tecnologia de comunicações: banda larga residencial, audiências, aulas e reuniões telepresenciais remodelaram nossas vidas de forma abrupta. Ainda que revertamos boa parte de nossa rotina aos saudosos encontros com colegas, clientes e parceiros comerciais num mesmo ambiente físico, inevitavelmente grande parte do trabalho será desempenhado fora do escritório. Mais que isso, fora da cidade e até mesmo do país-sede do seu empregador.

Já evidenciamos diversas contratações de empregados além-fronteiras, em funções intelectuais que prescindem do comparecimento presencial no escritório. É uma oportunidade para empresas admitirem mão de obra de qualificação rara em suas sedes ou mais baratas em outras regiões (e aí, claro, juslaboralistas já iniciam debates por competência e territorialidade legal). Este fenômeno é o que se chama de “imigração virtual”.

Outros reflexos da tecnologia são a mudança na concentração de pessoas que, podendo trabalhar de suas casas, perdem a necessidade de migrar para os grandes centros, possibilitando uma melhor distribuição populacional. As residências passam a sofrer alterações com o trabalho invadindo o lar, prato cheio aos arquitetos.

A segunda força intensificada em 2020 é a desigualdade. Se o “shareholder capitalism” já se via sufocado com a absurda acumulação de capital, reduzindo a renda das famílias no mundo todo, a pandemia permitiu que os mais bem remunerados continuassem seus trabalhos (e rendas), enquanto a maioria, que pela fragilidade da contratação ou impossibilidade de teletrabalho, fossem mais afetados com a crise.

O endividamento entra como terceira força. Descobriu-se que em situações de crise, modelos keynesianos são necessários para alavancar o setor privado, o que ocorreu ostensivamente em 2008 e, agora, com mais preparo e com mais altas doses. O lado bom, por enquanto e a nível mundial, é que as dívidas dos governos estão baratas pela baixa global das taxas de juros.

Como quarta força, tem-se a “desglobalização”. Desde 2008, com a crise financeira, o crescimento do comércio exterior manteve-se praticamente igual ao da produção mundial, o que é um freio brusco à liberalização extenuante das duas décadas anteriores. Com a crise do coronavírus, os países verificaram problemas na dependência fabril da China, o que deve aumentar o regionalismo dos meios produtivos. Uma fagulha de esperança à indústria nacional.

Por fim, Wolf cita as tensões políticas. Populismo, polarização e declínio da credibilidade da democracia liberal, com ascensão do autoritarismo demagógico em muitos países, se é algo que vem crescendo desde a última década, na pandemia serviu para demonstrar o despreparo que este tumulto pode gerar em situações críticas (vide nosso governo populista com nítido despreparo no combate à pandemia e no tardio plano de imunização). De toda sorte, viu-se tanto nas eleições brasileiras municipais, quanto estadunidenses presidenciais, alguma rejeição ao extremo, um reconhecimento de propostas moderadas para um reequilíbrio político.

Fato é que terminamos o ano numa zona de instabilidade e incertezas. Começaremos 2021 com muito mais dificuldades que 2020, com uma crise econômica que deve se prolongar por muito tempo, uma crise política sem qualquer caminho definido, e uma crise sanitária com alguma esperança de solução, mas talvez mais demorada que a expectativa. Se a sociedade está desgastada, ao menos tem alguma noção do que esperar, ao contrário de janeiro último. Se 2020 foi o ano da disrupção, que possamos fazer de 2021 o ano da reconstrução.

Obrigado a todos que acompanharam esta coluna em 2020, e desejo muita força e coragem para vencer os obstáculos de 2021.

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