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Insumos

Brasil tem histórica dependência da tecnologia estrangeira

Enquanto isso acontecer, jamais teremos, na prática, o status de país “em desenvolvimento” e, muito menos, de “desenvolvido”

Publicado em 26 de Janeiro de 2021 às 02:00

Públicado em 

26 jan 2021 às 02:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Vacina da Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca será produzida na Fiocruz
Vacina da Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca será produzida na Fiocruz, mas depende de insumos chineses Crédito: @oficialfiocruz Verificado/Instagram
Os problemas na vacinação da população contra a Covid-19 vão muito além da descrença do chefe do executivo na vacina ou no tardio e capenga plano nacional de imunização. A falta de insumos e incapacidade logística deixam ostensiva a carência de investimentos e preocupação com o que há em mais rudimentar na proteção da indústria, do emprego e da renda do brasileiro.
Giulia Fontes (Gazeta do Povo, 23.01.2021) bem lembrou que o país investiu massivamente nos anos 80 na imunização da população, após a multinacional Sintex, fabricante de soros e vacinas (DTP), deixar o país, tirando-o de uma dependente zona de conforto. Para acabar com a importação dos antígenos, em 1985 o governo federal criou o “Programa de Auto-Suficiência Nacional em Imunobiológicos (PASNI)”.
Nos anos 90 o então presidente da Fiocruz, Eloi Garcia (Folha, 17.06.1997), concluiu que o programa avançou, adquirindo alta capacidade de produção, qualificando razoável número de profissionais dedicados à pesquisa e desenvolvimento de vacinas, mas ressaltou que, em razão do avanço tecnológico ocorrido no cenário internacional, mormente naquela época de profundas transformações globalizantes, o país começava a se tornar obsoleto nesta área.
Mesmo com a advertência de Garcia, os investimentos foram reduzindo e, conforme Fontes, a autossuficiência se foi e os insumos, especialmente o IFA (ingrediente farmacêutico ativo), passaram a ser importados, voltando o país à dependência estrangeira. O PASNI foi mais um programa que, mesmo com bom início, não aguentou as turbulências políticas brasileiras.
O reflexo máximo desse descaso vemos agora. Mesmo com todos os esforços do Butantan e da Fiocruz no desenvolvimento da vacina para a Covid-19, dependemos dos insumos chineses. Acresça a isso as ameaças decorrentes do fracasso diplomático brasileiro (“China pede demissão de Ernesto Araújo para liberar insumos...”, Isto É, 21.01.2021), e a vulnerabilidade abre espaço à morte de milhares de brasileiros.
Em artigo anterior (A Gazeta, 19.01.2020) já mencionávamos a perda de oportunidade governamental ao não apoiar o desenvolvimento do carrinho elétrico da Gurgel, com tecnologia nacional, 40 anos antes do lançamento do “game changer” da indústria automobilística, desde o motor a combustão, o Roadster, da Tesla. Fruto dessa omissão, até hoje dependentes de tecnologia de combustível fóssil de multinacionais, choramos com a debandada da Ford e a perda de 5 mil empregos de base, enquanto, se tivéssemos feito a lição de casa, poderíamos ter uma das maiores indústrias automobilísticas e de tecnologia do mundo.
Todos estes equívocos comprovam, ao final, os ensaios cepalinos de Celso Furtado. Enquanto estivermos dependentes de tecnologia estrangeira, jamais teremos, na prática, o status de país “em desenvolvimento” e, muito menos, de “desenvolvido”. A dependência gringa aumenta a defasagem tecnológica e a fraqueza da mão de obra disponível, pouco qualificada. Consequentemente, só aumenta o abismo social entre a pequena parcela dos mais instruídos e a grande massa de manobra mal alfabetizada.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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