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É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades. Escreve quinzenalmente às segundas

Há um ano vivemos um horror sob o efeito da pandemia

Vivemos tempos terríveis, vitimados por uma peste que assola grande parte da humanidade, já tendo matado mais de 270 mil brasileiros e, após um ano, continua matando mais de 1.500 pessoas, diariamente

Publicado em 15/03/2021 às 02h00
Atualizado em 15/03/2021 às 02h02
Pessoas usando máscara durante a pademia
O atual governo tem responsabilidade por esse número de mortes, pois nega a doença e sua prevenção. Crédito: prostooleh/Freepik

Há um ano começamos a viver esse ano de horror sob o efeito da pandemia da Covid-19, que afetou o mundo todo. Pela primeira vez em minha carreira de professor, que já se faz longa, com 48 anos na sala de aula, pois comecei a lecionar em 1973 no Colégio Estadual de Guaçuí, não pude estar em contato direto com meus alunos, em todos os níveis de ensino. Comecei minha missão de ensinar antes até, pois, em 1967, aos 12 anos, fiz um cursinho de Método de Alfabetização Salesiano Dom Bosco, e ensinava os adultos a ler, no turno noturno, enquanto fazia o ginásio, durante o dia.

Desde cedo, sabia que minha missão na vida era ensinar, pois adorava ler, e queria ensinar esse gosto e promover o prazer de leitura em todos que o almejassem. Naquela época, o analfabetismo era bem maior do que hoje, e a ditadura militar criou o Movimento Brasileiro pela Alfabetização, o Mobral, que tentou, sem muito sucesso, recuperar em pouco tempo décadas perdidas na elitista educação do povo brasileiro.

Paulo Freire (1921-1997), Patrono da Educação Brasileira, propunha, desde os anos 1960, um novo modelo para a educação brasileira, baseado na liberdade para aprender a leitura da palavra por meio da leitura do mundo. Seu Plano Nacional de Educação, planejado para formar professores no governo João Goulart, foi abortado pelo Golpe Militar de 1964 e Paulo Freire ficou exilado, só tendo retornado ao Brasil em 1980.

No entanto, seus livros “Educação como Prática de Liberdade” (1967) e “Pedagogia do Oprimido” (1974) estão entre os mais lidos em muitos cursos de Pedagogia pelo mundo, e o “Método Paulo Freire de Alfabetização” é utilizado em muitos países, sobretudo os mais pobres. Apesar do massacre que Paulo Freire recebe hoje dos que pensam criar uma escola sem partido, isso não existe.

educação é e será sempre ideológica, nunca será neutra, pois ensina a aceitar o sistema em que vivemos com todas as suas injustiças sociais ou atua como leitura crítica da realidade, convidando o educando a participar da transformação da realidade. Creio que o maior legado deixado por Paulo Freire é o do ensino baseado no dialogismo, em que educador e educando constroem juntos sua caminhada, sem a imposição tecnicista e autoritária, tão comuns nos tempos atuais de escolas cívico-militares.

Vivemos tempos terríveis, vitimados por uma peste que assola grande parte da humanidade, já tendo matado mais de 270 mil brasileiros e, após um ano, continua matando mais de 1.500 pessoas, diariamente. O atual governo tem responsabilidade por esse número de mortes, pois nega a doença e sua prevenção, incentiva a população a tomar medicamentos inócuos, não estimula o uso de máscara e propicia a aglomeração.

Prefeitos e governadores tentam se unir, diante da ausência de uma liderança nacional, buscando solução para o colapso da rede nacional de saúde e para a compra de vacinas, o que deveria ter sido feito, há muito tempo, pelo governo federal. Diferente de D. Pedro II que, no surto da febre amarela que matou milhares de brasileiros entre 1849 e 1850, visitava hospitais de isolamento, levando consolo aos enfermos, o atual presidente debocha da doença, dizendo ser “mimimi”.

Em sua fala do trono, em 1850, D. Pedro afirmou: “Os estragos da enfermidade afligem profundamente meu coração. O meu governo tem empregado todos os meios aos seu alcance para acudir os enfermos necessitados. Graças a Deus, vai diminuindo o mal. Espero de sua divina misericórdia que, ouvindo nossas preces, arrede para sempre do Brasil semelhante flagelo”. Que as palavras de D. Pedro tragam um pouco de conforto aos brasileiros, nestes momentos de dor.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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