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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

As transformações que a pandemia provoca na cidade

É preciso preparar as novas gerações para a nova realidade, seja no modo de viver e usufruir a cidade, em como deslocar-se nela, seja nas áreas centrais ou periféricas

Publicado em 11/03/2021 às 02h00
Atualizado em 11/03/2021 às 02h07
Movimento de veículos na Avenida Beira Mar, Ilha de Monte Belo
E se neste momento muitos estão confinados, saindo o mínimo possível, aliviando radicalmente o trânsito das cidades, o certo é que a mobilidade urbana será afetada de diversas maneiras. Crédito: Carlos Alberto Silva

Semana que vem o verão chega ao fim e, como Tom Jobim já dizia, as águas de março estão aí pra provar que ele tinha razão: “é o carro enguiçado, é a lama, é a lama”. Será um verão que não deixará nenhuma saudade, afinal estamos no pior momento da pandemia. E, quem sabe, se tivéssemos mais empatia com os demais, um governo mais responsável, a coisa poderia não ter chegado a esse ponto.

A história da humanidade é mesmo uma gangorra, na qual ora aprendemos com nossos erros e damos uns passos à frente, ora parece que retrocedemos no tempo, tendo que recomeçar tudo de novo. Mas talvez seja o momento de pensar que tais hipóteses não são excludentes, e que nada como uma crise como esta para recomeçarmos, dando uns passos adiante. Se, como já estamos de acordo, não será possível voltar ao que era, o jeito é olhar pra frente, recriando o mundo.

Nesta altura da pandemia, ninguém no mundo passou incólume por ela, tendo milhares cujo sofrimento não encontra palavras, e muitos outros que mesmo que não tenham se contagiado ou perdido um ente próximo, tiveram que se confinar, mudaram planos planejados com muita antecedência, alguns deles adiados até que surja uma futura oportunidade de pô-los em prática, outros abortados definitivamente, talvez substituídos por algo até então impensado.

A nossa casa é uma das primeiras coisas que começamos a olhar diferente. Se antes apenas passávamos algumas horas nela, de repente, muitos de nós entraram num modelo de vida remoto, que faz pensar em como adaptar o habitat para a nova realidade. Tanta coisa adquirida guardada em armários que já não fazem tanto sentido, ao passo que nada passou a ser tão importante quanto ter uma boa internet em casa.

Pra quem foi pra cozinha, já que comer fora virou um hábito do passado ou, senão, algo menos frequente, muitos utensílios e diversos ingredientes saíram de cena, dando lugar a outros, muitos deles até então desconhecidos ou pouco valorizados.

A estrutura da casa e sua própria localização também passaram a ser questionadas. Muita gente que antes pagava um preço relativamente caro por morar em apartamentos nas áreas urbanas centrais, com grande oferta de serviços, começou a repensar seus conceitos e iniciou um processo de migração para regiões periféricas, tendo como foco, por exemplo, os grandes condomínios residenciais horizontais, cada vez mais comuns no entorno das médias e grandes cidades, tal qual o modelo de vida suburbano norte-americano, tão frequente em filmes hollywoodianos.

Com isso, as cidades sofrerão rápida e intensa mutação. O esvaziamento e possível degradação das áreas centrais, tendo o Centro do Rio de Janeiro como o caso mais emblemático, são apontados como consequências quase inevitáveis de muitas cidades. O papel das administrações municipais será, portanto, determinante para reversão desta tendência, que devem, o quanto antes, pensar em estratégias para impulsionar a dinamização econômica dessas áreas.

A migração para áreas menos adensadas provocará um maior gasto com combustíveis fósseis para aqueles que porventura não possam manter-se trabalhando ou estudando de modo remoto o tempo inteiro, o que pode não ser uma boa notícia para o meio ambiente e o aquecimento global. O espraiamento das cidades também implicará em ampliação do investimento em infraestrutura urbana, tais como redes elétricas, abastecimento de água, coleta de lixo e esgoto, etc.

Se num primeiro momento o custo da moradia pode ser reduzido, saindo dos altos preços de aluguel ou financiamento imobiliário das áreas centrais, num futuro indefinido o valor das tarifas das concessionárias e do gasto em deslocamento pode acabar empatando o jogo. E se neste momento muitos estão confinados, saindo o mínimo possível, aliviando radicalmente o trânsito das cidades, o certo é que a mobilidade urbana será afetada de diversas maneiras.

Houve um tempo em que o sonho de muitos brasileiros era ter o carro próprio, já que viver de transporte público “é osso”. Isso vinha mudando com as novas gerações, mais dispostas a dar sua dose de contribuição ao meio ambiente, fazendo cada vez mais uso da mobilidade ativa (a bicicleta é o caso mais evidente desta transformação cultural) ou mesmo pouco se importando com o aperto e atrasos do “busão”, do trem ou do metrô.

Em tempo de pandemia, porém, aperto no transporte público é tudo que se deve evitar. E aí, muitos já voltam a pensar num transporte individual. Com a chegada ao mercado de patinetes, bicicletas e scooters elétricos, cujos preços estão cada vez mais acessíveis, podemos acreditar que entre perdas e ganhos, o mundo, as cidades, poderão se reequilibrar no que tange a mobilidade das pessoas e a emissão de CO2.

É preciso, contudo, preparar as novas gerações para esta nova realidade, seja no modo de viver e usufruir a cidade, em como deslocar-se nela, seja nas áreas centrais ou periféricas, seja entre uma e outra, assim como devem as municipalidades reunir grupos de técnicos multidisciplinares para já dar início à planos para pensar a cidade que virá.

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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