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Arquiteto, professor da Ufes e diretor do IAB/ES. Cidades, inovação e mobilidade urbana têm destaque neste espaco

O mercado imobiliário segue em plena atividade em tempos pandêmicos

Muitos dos novos lançamentos são condomínios residenciais, agora já tendo como foco o desejo de muitos em mudar o padrão e estilo de moradia a partir das reflexões impostas pelo longo confinamento

Publicado em 18/03/2021 às 02h00
Atualizado em 18/03/2021 às 02h03
Compra de imóvel
Após o início da pandemia, aos poucos, não só as obras foram retomadas, como muitos novos lançamentos foram anunciados. Crédito: Jcomp/ Freepik

“Era uma casa / Muito engraçada / Não tinha teto / Não tinha nada / Ninguém podia / Entrar nela, não / Porque na casa / Não tinha chão” (“A Casa”, Sergio Bardotti / Vinicius de Moraes).

Enquanto a pandemia vem provocando estragos em diversos setores da economia, com consequências nefastas para quase todo mundo, mas principalmente para a população mais pobre, o mercado imobiliário encontra-se em plena atividade. E, claro, numa crise sanitária como a atual, agravada por um governo sem rumo, investir num imóvel é um tremendo privilégio, considerando os milhões que passam fome neste país enquanto aguardam a politicagem de Brasília definir quando começa, qual o valor e quantas parcelas do auxílio emergencial serão pagas.

Mas o fato é que os juros continuam baixos, facilitando o financiamento bancário direcionado para a construção civil, que pelo menos é um setor que gera muitos postos de trabalho, tanto de modo direto, quanto indiretamente. Enquanto as construtoras conseguem recursos para tocar suas obras, os interessados em adquirir um novo imóvel podem solicitar financiamento para a compra da casa própria.

Há um ano, quando a pandemia chegou ao país, quase tudo parou, inclusive muitas obras iniciadas antes que a Covid-19 começasse a se espalhar de modo indiscriminado pra todos os lados. Aos poucos, porém, não só as obras foram retomadas, como muitos novos lançamentos foram anunciados. Quase todos são condomínios residenciais, agora já tendo como foco o desejo de muitos em mudar o padrão e estilo de moradia a partir das reflexões impostas pelo longo confinamento, no qual muitos já adotaram o trabalho ou o estudo remoto, seja momentaneamente ou, até quem sabe, permanentemente.

Assim, muitos destes novos lançamentos já incorporam aspectos para o novo modelo de vida urbano. Um exemplo são ambientes dentro do condomínio, porém fora da casa ou do apartamento, para que moradores possam trabalhar em home office, e até possam, eventualmente, realizar algum tipo de reunião presencial com apenas mais uma ou duas pessoas (algo bem mais seguro do que se deslocar até o local de trabalho e lá permanecer por várias horas num mesmo espaço com uma grande quantidade de outros funcionários da empresa).

Outro item que deve tornar-se cada vez mais comum é uma sala para atividade física ou espaço fitness, para usar o termo da moda. Ao contrário das academias de ginástica espalhadas pelas cidades, com grande quantidade de usuários frequentando-as simultaneamente, os ambientes localizados em condomínios residenciais podem ser utilizados até de modo individual a partir de um pré-agendamento dos moradores.

Por outro lado, se os incorporadores imobiliários há muito vêm seduzindo os consumidores oferecendo em seus lançamentos tais ambientes como atrativos para aqueles que estão procurando novos imóveis para moradia, o espaço interno privativo de cada unidade residencial vem sofrendo um processo de encolhimento.

Trata-se de... Hum, digamos, uma esperteza dos empresários do setor. Não dá, ou não deveria, ter como reduzir as dimensões de um quarto, por exemplo, afinal as pessoas não diminuíram de tamanho. E, justamente por isso, a cama, o colchão, continuam a ter as mesmas medidas de sempre. Um colchão de solteiro mede 1,88 m de comprimento, de modo que a cama normalmente tenha 2,00 m. Qualquer quarto de apartamentos construídos décadas atrás não tinha nenhuma dimensão com menos de 2,80 m; hoje, porém, muitos empreendimentos, alguns até que se apresentam como de “alto luxo”, oferecem plantas com quartos com dimensão de 2,50 m ou menos.

Mas nada que se compare às chamadas áreas molhadas: cozinha e banheiros. Tais ambientes, por demandarem instalações hidrossanitárias, como tubulações, louças e metais (torneiras, chuveiros, etc.), além de revestimentos resistentes à umidade, tais como as cerâmicas, porcelanatos, mármores e granitos, são os espaços mais caros de todas as unidades residenciais. Deste modo, os banheiros são cada vez menores, mal cabendo alguém lá dentro tomando banho, escovando os dentes ou usando o vaso sanitário.

As cozinhas também ficaram mais estreitas, apesar do tamanho médio das geladeiras atuais ter aumentado. E o que dizer da área de serviço, onde mal dá pra instalar uma lavadora de roupas!

Bom, pelo menos as televisões de tubo são coisa do passado, estando todos os modelos atuais bem fininhos.

Não obstante, as varandas têm ganhado atenção das construtoras, oferecendo soluções que fazem destes lugares ambientes mais agradáveis de usar. É a moda das varandas gourmet, com instalações para que os moradores possam cozinhar e bebericar no final do dia ou no fim de semana, sozinhos ou até com algum amigo, desfrutando da paisagem exterior. Trata-se de algo que ganha importância, principalmente nestes tempos de confinamento que estamos vivendo, afinal a varanda tem esse caráter ambíguo, nos coloca pro lado de fora, estando, porém, dentro de casa.

E pelo jeito, a paisagem vista da varanda é a única que poderemos usufruir com segurança durante algum tempo...

*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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