No domingo último (21), um fato chamou a atenção de todos os capixabas: o episódio da mulher que arrancou as faixas na orla da Praia de Camburi e insultou os manifestantes. Posturas assim exigem uma reflexão acerca de como as pessoas podem se comportar em tempos de pandemia.
Contudo, o que ela fez não pode ser aceito como algo normal. Não há nada de normal em agredir e insultar os que pensam diferente! Afinal, a atitude da “agressora” foi negacionista, carregada de ódio, intolerância, discriminação e racismo.
Ela provoca e convida a pensar como está a relação com o outro que julgamos ser diferente de nós. E a rever a capacidade de enxergar e respeitar o pensamento e o modo de agir dos que discordam das nossas ideias e atitudes. Mas o que aconteceu é mais sério. O que dá o direito a alguém de se intitular dono da praia (“a praia é minha”)? Seria o imposto pago aos poderes públicos? Mas, afinal, se alguns podem, todos não poderiam frequentar o mesmo local, já que o imposto é cobrado de todos?!
Mas é a sustentação fundamentalista ideológica que está na base do ataque de manifestações pacíficas e democráticas como a que marcava as 1.300 mortes por coronavírus. A frase citada por ela: “o presidente foi eleito, deixa ele terminar o mandato”, explica, em partes, o que fez.
Esta atitude é própria de alguém tomado de uma autoridade “messiânica”, a enviada do “Messias”. Com esta autoridade especial, a “agressora” se coloca acima das leis, das relações sociais e uma cidadã sem qualquer suspeita. Esta crença fundamentalista garante o seu lugar ao sol no calçadão da orla, nem que para isso seja preciso arrancar e retirar do caminho qualquer coisa que possa ofuscar o seu lindo sonho delirante.
Por que ao arrancar a faixa a mulher usou a frase “eu pago impostos”, numa alusão a quem tem o legítimo direito de passear na praia. Até aí sem problemas, desde que o direito dos outros de se manifestar seja também respeitado. Mas não é isso o que vimos! Em sua fala, está claro que os outros não teriam o mesmo direito, visto que, segundo a senhora, não pagam impostos. Para isso ela usou a frase: “Você paga imposto, se paga coloca a faixa na varanda da sua casa”, “a praia é pública não!”.
Isso faz dela alguém diferenciado, uma verdadeira “cidadã de bem” e, como tal, se considera beneficiária por excelência ao direito de frequentar espaços públicos em locais nobres da cidade, como a Praia de Camburi. O “cidadão de bem” se sente livre para circular e para desfrutar deste tipo de local, que deve ser reservado somente para eles. Quer passear no calçadão, mas não aceita que perturbem a sua paz tão cara, afinal, pagam impostos para tanto.
Mas quem é o cidadão de bem? Qual a origem desse termo? É um significante vazio, pois nele cabe qualquer coisa. Mas a partir do fato ocorrido na orla, fica claro que o “cidadão de bem” é alguém que se sente investido de um poder extraordinário. A ponto de agir como um negacionista, defensor do bolsonarismo, agressor, que discrimina e desrespeita os outros (“presidiários”), e incita o ódio (petista filha da p****). Enfim, é um grupo celestial de seres encantados.
Quanto à origem, "cidadão de bem" era o nome do jornal fundado em 1913, que apoiava o terrorismo da Ku Klux Klan, organização racista e fascista dos EUA. Da história podemos citar outro termo, pois há poucas diferenças entre a utilização do termo “raça ariana”, que justificava a matança dos diferentes, em nome de uma supremacia branca, e a expressão “cidadão de bem”. Ambas são sinônimas, pois objetivam separar as pessoas e conceder determinadas benesses aquele grupo que se autointitula superior.
As ameaças aos considerados diferentes, de esquerda, homossexuais e negros deveriam ser uma exceção; mas passa a ser uma norma quando o Estado não apresenta soluções, com investimentos em políticas públicas e medidas mais enérgicas como apregoa a legislação. Há nisso tudo um discurso político, de forte cunho ideológico, sustentado por grupos de extrema direita.
Essas ações de ameaça interpelam o locutor a escolher, por força de coação, um lado arrogante e perverso que chamam de “bem”, com um slogan: “junte-se aos bons, nós pagamos impostos e podemos tudo!” Essa é a “sociedade perfeita”, apregoada e defendida por essa ideologia, por meio da ameaça e coação. Mas ela é tão perfeita que nela só cabe o cidadão de bem.