Após estender o decreto de manutenção da quarentena no Espírito Santo, o governador desabafou: “Não faço isso porque quero, mas para preservar vidas”. É terrível o que estamos passando, a ponto de a autoridade máxima do Estado ter que justificar uma tomada de decisão tão necessária para garantir a vida dos capixabas. Num momento em que os casos de coronavírus, em pleno aumento da transmissão comunitária, avançam com mortes confirmadas e outras ainda a confirmar, tamanho o aumento dos registros a cada dia, as ações do governo estão sendo questionadas por setores da população capixaba.
Se a crise é grave e afeta a todos, por que só o governo do Estado e os prefeitos são responsáveis pelo que pode acontecer com milhões de vida? Acaso não somos uma sociedade, não temos responsabilidade com nós mesmos e com os outros? Sendo assim, é dever nosso, apoiar e auxiliar governos sérios, comprometidos e preocupados com a vida dos cidadãos capixabas! No entanto, o que estamos vendo é parcela da sociedade fazendo pressão e cobrando para que a vida volte a uma normalidade que já não existe mais.
O que estamos fazendo, nós capixabas, para apoiar e auxiliar o governo do Estado e os prefeitos ao enfrentar este vírus tão devastador? Claro que existem aqueles que precisam sair por causa do trabalho. Mas alheios à realidade e como se nada estivesse acontecendo, muitos capixabas seguem a vida perambulando pelas ruas da Grande Vitória. Enquanto isso, no ritmo de uma dança macabra os funerais da morte seguem com mais velocidade no Brasil afora, enterrando cada dia mais vitimas do coronavírus. E em terras capixabas o vírus avança com rapidez. Será que todos precisam sair de casa? O que tem contribuído e feito às pessoas exporem as suas próprias vidas e dos demais amigos e parentes desta forma?
A descrença e o sentimento de imunidade, que diz: “Esta doença seleciona os mais fracos; os mais fortes vão sobreviver; a 'síndrome do passado de atleta', se eu pegar este vírus 'o máximo que pode acontecer comigo é uma gripezinha' e que 'isso não pega em mim'". E também que "não sou grupo de risco", “sou novo, não tenho doenças crônicas, por isso, não tenho medo.” Além dessas afirmações, temos outras: “Todo mundo vai ter que pegar este vírus mesmo um dia, então não tem pra onde correr”. E "você já viu alguém doente com este vírus?" Como um mantra essa e tantas outras teses são usadas como defesa nas ruas da Grande Vitória para justificar a fuga da quarentena.
O governo do Estado e os prefeitos, em sua maioria, estão seguindo as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde) que define a epidemia como muito grave e que merece toda atenção e reforço por parte das autoridades e da sociedade em geral. No entanto, aquilo que seria a princípio de fácil implantação, as medidas adotadas pelos protocolos têm se tornado um grande problema para as autoridades públicas, sua equipe e para aqueles que de fato estão em quarentena.
Entre os capixabas, ações simples que garantem a não proliferação do vírus, como lavar as mãos, evitar lugares fechados, usar máscara caso esteja apresentando tosse, coriza ou febre para evitar a contaminação podem estar sendo ignoradas por boa parcela da população. Como garantir que a atitude comportamental dos capixabas aconteça de fato a ponto de vencermos a batalha contra o coronavírus?
DISCIPLINA REDUZIDA
Sem a utilização de instrumentos de “autoridade” não serão alcançados os resultados desejados para a contenção do vírus. As medidas impositivas, unilaterais e drásticas se apresentam como importante conjunto de normas e regras posto à disposição das autoridades públicas para conter a pandemia. No entanto, o economista Richard Thaler, autor do livro “Nudge: o Empurrão para a escolha certa” defende a teoria segundo a qual os “indivíduos fortemente constrangidos por medidas severas cansariam e relaxariam a sua disciplina no momento em que ela seria mais necessária”, ou seja, quando o pico da epidemia fosse atingido.
Segundo esta mesma teoria é necessário dar uns cutucões nos indivíduos para que eles tomem coragem, sem uso da força, “ajudando-os” na tomada de decisões corretas, ou seja, por meio de influências suaves, indiretas, agradáveis e opcionais, já que os indivíduos devem permanecer livres para fazer as suas escolhas.
O autor chama esta atitude de “paternalismo libertário”, que significa por um lado, rejeitar a coerção ao comportamento individual e, por outro, manter a confiança nos “gestos de contenção”: ficar à distância, lavar as mãos, isolar-se se tossir, se isso for do interesse da própria pessoa. Contudo, a aposta no incentivo suave e voluntário é muito arriscada, não se baseia em dados científicos que comprove sua relevância em uma situação epidêmica.
É preciso sim a ação forte do Estado, das prefeituras e seus governos, para garantir a quarentena. Porém, não podemos ignorar que a persuasão, a indução e o convencimento a serem usados para vencer esta luta tão difícil podem ser fortes aliadas das ações das autoridades. Uma forma de agir não exclui a outra! Um exemplo simples é pedir aos médicos, pastores, padres, empresários comprometidos com a quarentena e lideranças sérias da sociedade para falarem em vídeo sobre a importância da quarentena e das medidas de prevenção.
Além disso, é necessário o apoio com repasse financeiro do governo federal, não só aos usuários de CadÚnico, Bolsa Família, microempreendedores e informais; mas também aos empreendedores, comerciantes e lojistas e todos que produzem e vendem e precisam parar neste momento. Acima de tudo é preciso que haja responsabilidade e compromisso dos grandes empresários, para não demitirem aqueles que até aqui garantiram a sua riqueza. Por fim, só a união de esforços e tomadas de decisão responsáveis e sérias nos darão a garantia de que sairemos vivos desta crise tão terrível. Que Deus nos proteja!