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Pandemia

O carro do coronavírus segue veloz e sem rumo no ES e atropela a todos

O carro do coronavírus, com grande capacidade letal, segue embalado por um mito negacionista e um discurso fundamentalista de um líder fanático que trata a pandemia como invenção da esquerda “comunista” e dos governadores

Públicado em 

16 jun 2020 às 05:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Data: 12/03/2020 - Profissional que atua em laboratório com placa do coronavírus. Freepik
Profissional que atua em laboratório com placa do coronavírus Crédito: Freepik
É possível fazer um paralelo entre o atual cenário de contagio do coronavírus no Espírito Santo e uma carruagem desgovernada da mitologia hindu. Trata-se de “Jagrená”, originário do Indú Jagannath, o “Senhor dos Mundos”. Este é um título de Krishna, e de acordo com a mitologia indiana, Jagrená e o seu grande carro celeste desfilavam pelas ruas sem rumo e sem propósito. Por onde passavam atropelavam a todos que estavam em seu caminho. Isso inclui os seus fanáticos seguidores, que vez por outra se atiravam sob suas rodas.
Foi o sociólogo Anthony Giddens, em seu livro “As consequências da modernidade”, que utilizou a carruagem de Jagrená, ou carro, como uma metáfora sobre a forma como as pessoas vivem o que ficou conhecido como “modernidade”. Ao não usar a razão, as pessoas ficam sujeitas às forças do destino e do acaso. Perdem o controle sobre as circunstâncias e passam a viver como vítimas de suas próprias criações. Para ele, o “Carro de Jagrená” é uma máquina de enorme potência, em movimento. Ela se tornou um risco e, por isso, uma ameaça contínua e constante de que a qualquer momento a sua direção escape ao nosso controle e atropele a nós todos.
Como a modernidade, o carro do coronavírus, com grande capacidade letal, segue embalado por um mito negacionista e um discurso fundamentalista de um líder fanático que trata a pandemia como invenção da esquerda “comunista” e dos governadores. Junto a isso tem a falta de uma política unificada no país, um ministério sem ministro e a perseguição política aos governadores.
Neste embalo errático e movido por discursos alienantes, o carro do coronavírus segue com velocidade assustadora. Ele atropela e mata milhares no país. Na Grande Vitória, mesmo diante do alarmante número de mortes, muitos capixabas vivem como fanáticos religiosos, negam o que acontece a sua volta e se lançam sobre as rodas do carro, quando insistem em ir a praia, shoppings e passear em locais turísticos nas regiões serranas.
Sem manual de instrução ou um guia capaz de pilotar, puxar os freios e controlar a velocidade, o carro do coronavírus segue apoiado por atitudes bizarras de fundamentalistas negacionistas capixabas que, em adoração ao mito, fazem passeatas, invadem hospitais e atacam os únicos que podem conter a velocidade do carro e curar as feridas dos que são atropelados. Na contramão, os fiéis lunáticos, em seu culto doentio ao mito, alimentam o carro com corpos e luto e o conduzem para direções das mais imprevistas possíveis.
Estes alucinados acreditam que ao se comportarem desta forma poderão vencer os inimigos criados por eles mesmos. Eles avaliam que a viagem nesse carro não é de todo desagradável ou sem recompensas. Estimulados a uma disputa insana, ao expor e dificultar o trabalho para conter a velocidade do avanço do carro do coronavírus, colocam o povo contra o governo do Estado e os profissionais de saúde. Estes tentam de toda forma conter o avanço do carro, sem muito sucesso, pois nem sempre podem contar com o apoio de parte da população alienada pelos fundamentalistas.
Contudo, enquanto persistir esta polarização desastrosa, os capixabas vivem num ambiente de puxa-empurra tenso, contraditório e de diferentes influências. Se nada for feito, cairão sobre todos - e ainda mais sobre os pobres, que não têm recursos financeiros e materiais -, os muitos riscos e as consequências do avanço do carro do coronavírus, que só aumenta a cada dia.
O que fazer, então, se está claro que as medidas tomadas até agora parecem não trazer resultado satisfatório? É preciso que os poderes falem a mesma língua e juntos com setores da sociedade, apoiem as medidas necessárias para conter o avanço deste carro do coronavírus. E a solução é o lockdown, pois sem corpos para serem atropelados o carro vai seguir até acabar seu combustível. Esta pode ser a única saída neste momento. Mas é necessário, nem que seja por força de lei, conter o ímpeto dos negacionistas e alucinados fiéis ao mito.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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