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Pandemia

Abraçar a dor do outro: é possível a empatia como política pública?

É possível medir o seu sofrimento de luto pelas perdas nesta pandemia? Olhe a sua rede de amigos, família, trabalho, faculdade a sua vizinhança. Como você, estamos juntos nesta triste e dolorosa travessia

Públicado em 

02 jun 2020 às 05:00
Paulo Brandão

Colunista

Paulo Brandão

Velas e luto
Velas e luto Crédito: Freepik/Divulgação
Qual o tamanho do seu luto? Quem está preparado para perder, em poucas semanas, tantos amigos, parentes, amores e afetos?, pergunta o professor doutor em Antropologia, Renzo Taddei, ao escrever sobre “O luto e os sentidos da morte”. É uma constatação delicada e difícil, mas é possível medir o seu sofrimento de luto pelas perdas nesta pandemia? Olhe a sua rede de amigos, família, trabalho, faculdade a sua vizinhança. Como você, estamos juntos nesta triste e dolorosa travessia. Ombro a ombro, com uma mesma dor, como sofredores seguimos com coragem.
Até por que a realidade a nossa volta está difícil. Com mais mortes pelo coronavírus do que 14 países da América Latina, o Espírito Santo entra numa fase que, no mínimo, exige mais rigor no controle de circulação de pessoas nesta pandemia. Ao mesmo tempo, é necessário ver como atender às famílias enlutadas. A vida de quem fica precisa ser vista com mais apoio e orientação. São tantos os que sofrem a perda de seus entes queridos que o luto virou uma constante na vida do capixaba.
"Neste momento, estamos em um luto intimo e pessoal; mas também social e coletivo. Não é só algo meu quando se perde alguém; mas é de todos nós que também podemos perder"
Paulo Brandão - Articulista
Afinal, que luto é este que marca as nossas vidas num tempo tão dramático? E o que pode ser feito para que o capixaba possa viver este drama da forma que melhor lhe dê consolo e alívio? Para o filósofo André Comte Sponville, “estar de luto é estar sofrendo”. Isto parece muito óbvio para quem perdeu uma pessoa querida. Porém, ele chama a atenção para o que significa estar sofrendo em francês (être en souffrance). É algo como estar em suspenso, à “espera de solução”. Mas que solução pode existir para curar os corações com a perda de entes tão queridos?
Não existe uma resposta pronta, como receita de bolo que possa ser usado de maneira igual para todos. O luto é antes de tudo um processo longo e doloroso de aceitação e de renúncia, mas que nós não estamos preparados. O luto seria então um sofrimento que espera ser concluído, que precisa ver o seu fim. Uma transição que deve ser percorrida até o final. Sponville explica que é por isso que o luto dá muito trabalho. Como não queremos aceitar a perda de quem amamos, a separação se torna uma luta árdua dentro de cada um. E isso exige muita entrega, dá trabalho para o coração, para a alma e para a mente de cada pessoa que sofre.
Mas este luto é diferente sim, disse o maior especialista em luto do mundo, David Kessler. Segundo ele, estamos no luto antecipado. É esse sentimento de incerteza a nosso respeito em relação ao futuro, quando a morte está em evidência. Sentimos isso quando alguém próximo ou da nossa família tem um diagnóstico ruim. Com um vírus, este tipo de luto é muito confuso para as pessoas, pois não podemos ver o que está acontecendo. Isso nos deixa sem segurança e certeza das coisas da vida.
Neste momento, estamos em um luto intimo e pessoal; mas também social e coletivo. Não é só algo meu quando se perde alguém; mas é de todos nós que também podemos perder. A toda hora, nas redes sociais e na vizinhança, há notícias de pessoas que se foram.
É possível então pensar em desenvolver ações de políticas públicas para atender àqueles que precisam desabafar e falar nesta pandemia? Depoimentos mostram a necessidade de que o outro sinta também a mesma dor e isso se chama empatia. E “eles choraram a minha dor”; “que alívio me sentir compreendida”; “a minha dor já não era só minha, agora sabia que podia contar com outros também”. “Nesta troca, vinha o alívio, a tristeza se transformava em alegria, o choro em sorriso.”
"Com a ruptura de projetos de vida, desestruturação emocional e psicológica, o luto da pandemia se tornou uma questão não só de saúde pública, mas também um problema social e econômico. Ele extrapola a vida da casa, familiar, ele está em todo canto e se torna o novo normal"
Paulo Brandão - Articulista
Vivemos grandes catástrofes no mundo, mas nunca como agora. Estar em luto é enfrentar a perda, e isso leva tempo para ser processado, por isso a necessidade de apoio e auxílio neste tempo de pandemia. Pois o sentimento de dor é amplo e atinge a todos. Com a ruptura de projetos de vida, desestruturação emocional e psicológica, o luto da pandemia se tornou uma questão não só de saúde pública, mas também um problema social e econômico. Ele extrapola a vida da casa, familiar, ele está em todo canto e se torna o novo normal: estar de luto. Por isso, a necessidade de se pensar em ações urgentes de políticas públicas de empatia para atender a população enlutada.

Paulo Brandão

É bacharel em Filosofia. Com um olhar sempre atento para as ruas, reflete sobre as perspectivas de cidadania diante dos problemas mais visíveis da Grande Vitória

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