Como hospedeiro, já sabemos, a Covid-19 não escolha onde ficar. Ele entra, usa e abusa de qualquer um. Ele não faz acepção de pessoas. Não importa a sua classe social, renda, se você mora em uma casa bonita ou feia. Ele pode te infectar. Aliás, ele começou nas casas da elite endinheirada. Por mais que continue a infectar a região “nobre”, depois de alguns meses se tornou um vírus da periferia. Ele encontrou “a cerca arrombada” e entrou de vez para tomar conta das casas e barracos dos moradores da Região Metropolitana de Vitória. A diferença é que na periferia o vírus é letal. Ele mata os pobres.
Esta constatação se torna presente a cada dia, após o quarto mês de pandemia e contágio da Covid-19 no ES. O vírus avança com muita rapidez e toda semana o luto toma conta das redes sociais. São amigos, amigos de amigos e a rede de choro, tristeza e lágrimas viraliza e toma conta do cotidiano. Ele mata e deixa a saudade para muitos familiares e amigos. O que fazer diante desta situação difícil? Os movimentos sociais e as redes de ajuda mútua, com sua atuação, mostram que não podemos nos acostumar com tudo isso. Mesmo de luto é preciso reagir a esta triste realidade!
E como não se vence uma guerra sozinho, a união de esforços é a única saída. O medo, o sofrimento, a falta de condições financeiras, materiais e até emocionais, para enfrentar a crise têm unido moradores de diversos bairros e localidades por meio das redes sociais. Eles se manifestam com apoio, doações de alimentos, mensagens de otimismo e ajuda direta em dinheiro por meio de vaquinhas virtuais, aos que mais precisam. Formam verdadeiras redes de solidariedade pois quem doa se sente bem ao fazê-lo, e isso dá forças para continuar nesta corrente em favor da vida.
Para além da solidariedade, a indignação tem tomado as discussões e debates nas redes sociais. Estamos em uma sociedade em rede e, com a pandemia, ela se tornou a forma de comunicação por excelência. A troca constante de informações sobre o que está acontecendo no mundo e a nossa volta cria solidariedade, empatia, e comoção; mas também raiva e indignação, com todos os que podem fazer e não o fazem.
Para o sociólogo Emanuel Castells, as emoções como raiva, entusiasmo e medo, relacionadas respectivamente a busca por justiça, engajamento e superação são o que dão sustentação aos novos movimentos sociais na era da internet.
As ruas, palco de manifestações, volta a ser ocupado mesmo em tempos de distanciamento. O estopim é a constatação de que o avanço da infestação da Covid-19 na Região Metropolitana de Vitória, as mortes de negros, moradores das favelas e bairros de periferia, aumenta a cada dia que passa. Sem encontrar respostas a suas reivindicações, a indignação tomou conta das ruas, semana passada, em gritos de vidas negras importam.
Os movimentos sociais que defendem a pauta dos direitos dos negros no ES fincaram cruzes pretas e derramaram tinta vermelha, em frente ao Palácio Anchieta. O grito de "para e basta" se materializou em um documento com reivindicações apresentadas ao governo do Estado, que prometeu dar respostas.
O mesmo acontece em várias cidades pelo país, moradores, lideranças, indignados se encontram para denunciar a política atual do presidente da República. Com mentiras, fake news, ataques e ameaças a adversários, escondendo os números de vítimas fatais, sua forma de atuar deixa um rastro de morte que toma conta do país. Entre nós não poderia ser diferente. Um grito ensurdecedor de dor e indignação está na garganta de todos os que se esforçam dia a dia com risco, indo trabalhar amontoados nos ônibus e de todos que têm que se expor para manter suas famílias.
Mas como para tudo tem um limite, não dá para saber o que vai acontecer amanhã. O que está claro é que com a guerra declarada do governo federal em relação as ações dos prefeitos e governadores, este embate político e a falta de ações unificadas por parte dos governos estão despertando na sociedade os movimentos dos indignados. A constatação é que em pouco tempo veremos multidões nas ruas, o que pode descambar em quebra quebra e mortes. A vida no cotidiano está insustentável! E quando se chega a este limite, “só povo salva o povo!”.