Logo que comecei a apaixonar-me pela tarefa divina de interpretar o outro e ouvir o que não foi dito, deparei-me com a obra de Donald Winnicott, um pediatra e psicanalista inglês que descrevia a magia do olhar encantado materno. Trata-se da própria introdução à vida. Aos poucos fui experimentando isso. Tal dom dá acesso à legitimidade de ser um ser único, de criar o que chamamos de verdadeiro Self.
Através dessa capacitação, a mãe diz, ou não diz, sobre o gozo de viver. Conduz também quem nasce a aprender à sua própria maneira as coisas que já estavam no mundo. Mas não no seu mundo ainda.
Senão vejamos. Um bebê que olhasse para um espelho como primeiro objeto, o que veria no reflexo? Isso mesmo, gente boa, nada. Ainda não impregnado pela magia decodificadora do olhar mágico materno, não teria colecionado suficientes representações de objeto para identificar qualquer coisa. Nem ele mesmo. Só a mãe ou quem exerça essa função.
O encantador sambeiro Paulinho da Viola compôs a melodia “Coisas do Mundo”, na qual canta em um dos versos: “As coisas estão no mundo eu que preciso aprender”. Isso me faz sentir saudade do Julio de Mello Filho, que me ensinou, orientou e deu muita dura na luta para persegui-lo em sua linha melódica da Psicanálise, no processo de ser e viver. Aliás, o título de um de seus livros, o ser e o viver, considero que é fruto de seu próprio olhar encantado. E o meu também.
Sem o olhar não há transmissão de afeto, mesmo que seja um olhar criado, como é a linguagem manual. Pode-se ser cego sem ter qualquer problema para enxergar. Não sei se me entendem. O olhar não é uma função oftalmológica, é afetiva e torna-se o principal elemento da linguagem. Olhou assim, olhou assado, e por aí vai. No amor, no desejo, na paixão, no sexo, o olhar é suficiente para o sim, para o não e até para o talvez.
Quando ainda acadêmico de Medicina, tive um grande amor, sustentado inteirinho com meu olhar diário, a atriz italiana Sophia Loren. Estava pregada carinhosamente no meu quarto de república estudantil “A Moribunda”. Era um pôster, tá certo, mas todos a respeitavam e a viam com a reverência que se deve a uma cunhada. Por onde eu andasse em casa, o olhar puxadinho para cima e as fartas sobrancelhas me acompanhavam. Nem só de sexo presencial vive a paixão.
O olhar de Mariucha tinha de tudo. Ela antevia. Através do meu olhar, é claro.
- Mãe, a senhora...
- Não.
Com o olhar especializado, convicto e convincente, não admitia nada em segunda instância e proibia, com um jogo de olhar e pálpebras, que qualquer coisa transitasse em julgado, afirmo, mesmo que eu não tenha a menor ideia do que seja isso.
- Mãe, tirei dez em Latim.
Olhar brilhante, um certo sorriso, e o diagnóstico:
- Não fez mais que sua obrigação.
Quando fugia pra nadar no igarapé e ela chegava antes de mim, era assim:
Sentada na varanda com sua cadeira de embalo de palha, lançava o olhar que julgava adequado. E não falava nada, só mostrava os olhos castanhos, as pálpebras ligeiramente trêmulas.
Mariucha, isso é de matar, murmurava eu em silêncio.
De olhar em olhar de Mariucha, fui ganhando o mundo.
Há quinze anos olhei pra ela, mas ela já não podia olhar pra mim.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, gane de dor e saudade.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta