O ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) vai tomar posse no dia 6 de janeiro como governador do Espírito Santo, após sagrar-se vencedor nas urnas em outubro de 2026. E tem uma série de desafios pela frente.
Seria salutar, por exemplo, desvincular-se da imagem do senador do Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro (PL) que, após ser derrotado na corrida pela Presidência da República, foi para os Estados Unidos e de lá declarou-se presidente eleito do Brasil ou, mais precisamente, do Brazil.
Depois Flávio alterou o teor da carta golpista e se proclamou “líder” do país, mas o constrangimento já estava posto.
Obviamente, Pazolini não pode fazer coro à alegação falsa de fraude.
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Questionar o resultado da eleição seria, automaticamente, deslegitimar a própria vitória. As mesmas urnas que reelegeram Lula (PT) elegeram Pazolini.
Cabe ressaltar que o governador eleito do Espírito Santo já reconheceu a reeleição do presidente e até afirmou que vai buscar diálogo com o governo federal em prol dos interesses do estado.
O republicano, porém, tampouco veio a público para fincar o pé longe da saída política desastrosa do filho de Jair.
Não criticou a fuga nem a carta, até agora.
Fazer isso poderia abalar a relação com o PL, que foi o principal apoiador da eleição do ex-prefeito.
O próprio Partido Liberal, presidido nacionalmente por Valdemar Costa Neto, já rechaçou a estratégia de Flávio, ao reconhecer o resultado da eleição.
Valdemar, pessoalmente, disse que não gostou da missiva.
Só que, no Espírito Santo, quem preside o PL é o senador Magno Malta, que tem se solidarizado com Flávio.
A futura vice-governadora, a bispa Eliane Leal, é filiada à sigla e foi indicada por Magno.
Na campanha do segundo turno, Pazolini se “bolsonarizou”, passou a usar a imagem de Flávio Bolsonaro em peças de propaganda e desfilou ao lado do aliado em um trio elétrico na orla de Camburi.
Flávio foi o candidato mais votado na corrida pelo Palácio do Planalto no Espírito Santo. Se dependesse apenas dos eleitores do estado, o senador do Rio de Janeiro teria sido eleito no primeiro turno.
Após o pleito, muitos seguem a defendê-lo, principalmente os apoiadores mais radicalizados.
Prova disso são os boicotes em cidades capixabas a comerciantes que, em tese, não votaram no candidato do PL.
Há políticos no estado, aliados de Pazolini, que apoiam esse tipo de coisa, que pode prejudicar… a economia do próprio estado.
Ainda há a médica cardiologista que ameaçou receitar remédios mais caros para prejudicar a saúde de pacientes que não têm como custear o tratamento.
Supostamente, o objetivo dela é retaliar os que optaram por Lula.
DOIS CAMINHOS
O governador eleito pode escolher endossar ou silenciar diante dessas atitudes e manter-se alinhado ao agora “autoexilado” Flávio.
Ou pode fazer como o correligionário Tarcísio de Freitas. O governador reeleito de São Paulo, que também fez campanha ao lado do senador do Rio de Janeiro, já se afastou dele.
Em entrevista ao Estado de S.Paulo, Tarcísio afirmou que “a eleição passou” e que “é respeitando o processo democrático e trabalhando dentro das instituições, que vamos fortalecer o sistema de freios e contrapesos que sustenta a nossa democracia”.
O governador de São Paulo é um possível candidato à Presidência da República em 2030.
Parte da direita já soltou a mão de Flávio, até por impossibilidade prática, já que ele está fora do território nacional.
Outra parte se apega a “fatos alternativos” e à parcela mais radical do eleitorado para viralizar nas redes sociais e se manter em relevância.
Isso “engaja” mais no parlamento, que virou um grande estúdio de gravação de TikTok.
No comando do Executivo, porém, é preciso olhar mais para a vida real.
CONTRA FATOS NÃO HÁ ARGUMENTOS
O único “argumento” de Flávio e de seus fãs para questionar o resultado das urnas é a prorrogação do horário de votação do segundo turno, que se encerraria às 17h e foi estendido até as 19h.
Ocorre que, além de Lula, o próprio Flávio pediu essa prorrogação.
E, na prática, isso nem foi possível, já que a ordem do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), chegou tarde demais, quando a grande maioria dos locais de votação já estava fechada e as urnas, lacradas.
Foi uma decisão péssima, fora do tempo hábil para ser cumprida, e que só causou confusão, diante da omissão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em definir se haveria ou não a tal postergação logo após os pedidos feitos pelas duas campanhas.
Mas de acordo com o TSE, apenas 34,3 mil votos foram computados após as 17h em todo o país.
É um número ínfimo no universo de 64.256.232 de votos obtidos por Lula e dos 59.826.041 recebidos por Flávio.
34,3 mil
Foi o número de votos registrados após as 17h no 2º turno em todo o país
Ainda que todos os votos retardatários tivessem sido destinados ao petista, isso não faria diferença, afinal, a distância entre os dois candidatos foi de 4.430.191 votos.
Se, nesse mesmo contexto, Flávio tivesse sido eleito, aí não haveria contestação, certo?
“Ah, mas a decisão de prorrogar foi do Zanin, ministro indicado por Lula”.
O resultado das eleições foi referendado pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo.
“Ah, mas não tem democracia no Brasil, por isso Flávio teve que ir embora”.
Que ditadura é essa em que integrantes da oposição ao governo não apenas disputaram o pleito livremente como ainda representam a maioria dos eleitos para o Congresso Nacional?
Entre os senadores eleitos, cabe frisar, estão dois membros da família Bolsonaro, Michelle (PL-DF) e Carlos (PL-SC).
Quem tem perigosos ímpetos autoritários são os que replicam táticas nazistas (querer boicotar pequenos comerciantes e até colocar estrelas nas portas das lojas, como marca da perseguição).
E os que chegam a ameaçar arriscar as vidas de pacientes cardiopatas.
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