ASSINE

PF faz buscas no Palácio das Laranjeiras, residência oficial de Wilson Witzel

Objetivo é apurar indícios de desvios de recursos públicos destinados ao atendimento do estado de emergência de saúde pública do coronavírus no Rio de Janeiro

Publicado em 26/05/2020 às 07h58
Atualizado em 26/05/2020 às 12h22
Governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel
Wilson Witzel, governador do Rio de Janeiro: residência oficial é alvo de buscas. Crédito: Eliane Carvalho/Governo do RJ

Polícia Federal (PF) faz buscas, na manhã desta terça-feira (26), no Palácio das Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio de JaneiroWilson Witzel (PSC).  A ação faz parte da Operação Placebo, que tem como objetivo apurar indícios de desvios de recursos públicos destinados ao atendimento do estado de emergência de saúde pública do novo coronavírus no Estado fluminense. 

Agentes da PF cumprem 12 mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Rio de Janeiro, autorizados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). O escritório de advocacia da primeira-dama, Helena Witzel, e o Palácio da Guanabara, sede do governo do Rio, também são alvos da operação. 

As investigações tiveram início no Rio de Janeiro pela Polícia Civil, pelo Ministério Público Estadual (MPRJ) e pelo Ministério Público Federal (MPF) apontam para a existência de um esquema de corrupção envolvendo uma organização social contratada para a instalação de hospitais de campanha e servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde do Estado.

"Elementos de prova, obtidos durante investigações iniciadas no Rio de Janeiro pela Polícia Civil, pelo Ministério Público Estadual e pelo Ministério Público Federal no Estado foram compartilhados com a Procuradoria-Geral da República no bojo de investigação em curso no Superior Tribunal de Justiça e apontam para a existência de um esquema de corrupção envolvendo uma organização social contratada para a instalação de hospitais de campanha e servidores da cúpula da gestão do sistema de saúde do Estado do Rio de Janeiro", diz a nota da Polícia Federal.

Wilson Witzel negou irregularidades e apontou interferências do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas investigações. Ele apontou como evidência o fato de a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) ter mencionado, nesta segunda-feira (25), ações iminentes da PF contra governadores.

Eleito com discurso duro de combate à corrupção num Estado que teve cinco ex-governadores presos, Witzel se vê agora sob o foco de investigações criminais sobre sua gestão durante a pandemia do novo coronavírus.

O governador viu o número dois da Secretaria de Saúde e um ex-cliente de seu antigo escritório de advocacia presos sob suspeita de fraudes nas compras emergenciais para enfrentamento da crise de saúde.

Witzel tem também contra ele um inquérito sobre funcionários fantasmas empregados sob indicação de um ex-assessor pessoal. Viu ainda o próprio nome citado em escutas e depoimento na Operação Favorito, desdobramento da Lava Jato no Estado deflagrado na quinta-feira (14). Os dois casos estão sob análise da Procuradoria-Geral da República.

A sequência de suspeitas ocorre no momento em que Witzel se coloca como um contraponto ao presidente Jair Bolsonaro no enfrentamento ao novo coronavírus. O Rio de Janeiro foi um dos primeiros a determinar o isolamento social, enquanto o presidente quer a retomada das atividades econômicas. Nesta terça, Bolsonaro parabenizou a Polícia Federal pela operação

Deputados bolsonaristas afirmam que Witzel e seus aliados usam a pandemia como desculpa para desviar recursos públicos. Embora as medidas sanitárias aplicadas pelo governador tenham respaldo da maior parte das instituições médicas, as compras emergenciais levantaram suspeitas.

Gabriell Neves, ex-subsecretário-executivo de Saúde, foi preso sob suspeita de fraudar o processo de aquisições emergenciais de respiradores. Também foi detido um superintendente da pasta. Ele coordenou compras que somam cerca de R$ 1,8 bilhão sem licitação.

Investigações da Lava Jata fluminense, iniciadas para apurar a gestão Cabral, detectaram que empresários que pagavam propina no passado continuaram a atuar na gestão do ex-juiz.

O alvo principal da Operação Favorito, Mario Peixoto, foi cliente do escritório de Lucas Tristão, secretário de Desenvolvimento Econômico, de quem Witzel diz ter sido sócio. A relação comercial se iniciou durante e terminou logo após a campanha eleitoral de 2018.

Gravações feitas com autorização da Justiça pela Polícia Federal mostram como Peixoto tem influência até sobre nomeações em órgãos como a Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec) e o Detran. Elas confirmam relatos que estendem a área de influência do empresário a outros órgãos do estado.

O ex-presidente da Faetec, Carlos Marinho, afirmou à PF que Peixoto tem "forte influência" sobre o próprio governador.

As interceptações telefônicas também mostram conversas sobre pagamento de propina a agentes públicos da saúde. Um dos funcionários de Peixoto assim descreve a abordagem de funcionários da pasta: "Você vê a volúpia que estes caras estão para arrumar dinheiro".

O comentário, feito pelo diretor do Instituto Data Rio, Luiz Martins, foi feito para descrever como conseguiu a revogação da desqualificação de outra organização social, a Unir Saúde, por irregularidades na gestão de unidades de saúde do estado. A medida, que impedia a entidade de firmar contratos públicos, foi revertida graças a despacho assinado por Witzel.

No dia seguinte à publicação da decisão em Diário Oficial, Martins comentou a decisão com o ex-deputado Nelson Bornier, aliado de Witzel e cujo filho, Felipe Bornier, é secretário de Esportes.

"Eu sei que tem muito pai aqui e eu teria que fazer um DNA para saber quem é o pai. [...] Eu te passei isso aí porque eu sei que você tem uma parte de paternidade também", disse Martins a Bornier.

As menções a Witzel foram enviadas para a Procuradoria-Geral da República para análise.

INVESTIGAÇÃO SOBRE FUNCIONÁRIOS FANTASMAS

As suspeitas na saúde se juntam a uma investigação aberta, com autorização do STJ, para analisar a eventual participação do governador na contratação de sete funcionários fantasmas no Estado. Todos eram parentes de Valter Alencar, ex-assessor do gabinete de Witzel exonerado no ano passado.

Witzel tem reagido mostrando apoio às investigações. Na primeira operação, que prendeu Gabriell Neves, o governador apontou o fato de ter demitido o ex-subsecretário semanas antes, após reportagens levantarem suspeitas sobre as compras emergenciais.

Em relação à investigação sobre as contratações fantasmas vinculadas a seu ex-assessor pessoal, o governador afirma que "está à disposição para contribuir".

A Gazeta integra o

Saiba mais
Wilson Witzel Coronavírus Covid-19 Rio de Janeiro (RJ) Pandemia

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.