Publicado em 1 de janeiro de 2023 às 17:54
BRASÍLIA E SÃO PAULO - Em seu primeiro discurso após ser empossado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a democracia venceu as eleições e defendeu o sistema eletrônico de votação. O pleito deste ano foi marcado por ataques de Jair Bolsonaro (PL) contra as urnas a Justiça Eleitoral.>
"Se estamos aqui hoje é graças à consciência política da sociedade brasileira e à frente democrática que formamos ao longo dessa histórica campanha eleitoral. Foi a democracia a grande vitoriosa nesta eleição", declarou o presidente.>
Lula também citou um diagnóstico "estarrecedor" do país deixado por Bolsonaro, disse não ter ânimo para revanche e anunciou revogação de decreto de armas e munições.>
"Estamos revogando os criminosos decretos de ampliação do acesso a armas e munições, que tanta insegurança e tanto mal causaram às famílias brasileiras. O Brasil não quer mais armas; quer paz e segurança para seu povo".>
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Assim como fez após vencer as eleições, em 30 de outubro, Lula disse que enfrentou na campanha "a maior mobilização de recursos públicos e privados que já se viu". Também declarou que enfrentou "a mais objeta campanha de mentiras e ódio tramada para manipular e constranger o eleitorado brasileiro".>
"Nunca os recursos do estado foram tão desvirtuados em proveito de um projeto autoritário de poder", declarou.>
Sobre os ataques de Bolsonaro às urnas, Lula fez um agradecimento ao que chamou de "atitude corajosa do poder Judiciário, especialmente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral)".>
Afirmou ainda que o processo eleitoral de 2022 mostrou o contraste entre distintas visões de mundo. Classificou o projeto bolsonarista como individualista, de negação da política e empenhado na "destruição do estado em nome de supostas liberdades individuais.">
Apesar das críticas, o petista disse que não assume com "ânimo de revanche".>
"Não carregamos nenhum ânimo de revanche contra os que tentaram subjugar a nação a seus desígnios pessoais e ideológicos, mas vamos garantir o primado da lei. Quem errou responderá por seus erros, com direito amplo de defesa, dentro do devido processo legal", afirmou o mandatário.>
Mesmo descartando revanchismo, Lula defendeu em seu discurso a responsabilização por atos de "terror e violência".>
"O mandato que recebemos, frente a adversários inspirados no fascismo, será defendido com os poderes que a Constituição confere à democracia. Ao ódio, responderemos com amor. À mentira, com a verdade. Ao terror e à violência, responderemos com a Lei e suas mais duras consequências", disse.>
O período de transição teve episódios de violência. Horas após a diplomação de Lula em Brasília, um grupo de bolsonaristas tentou invadir o prédio da Polícia Federal — para onde um apoiador do ex-presidente havia sido levado após ordem judicial — e promoveram atos de vandalismo pelas ruas da capital. Na ocasião, eles atearam fogos em carros e ônibus.>
Dias depois, as autoridades encontraram um explosivo em um caminhão nas imediações do aeroporto de Brasília. A bomba foi instalada por um bolsonarista que, em depoimento, disse acreditar que as explosões dariam início ao "caos" que levaria à "decretação do estado de sítio no país" — o que poderia "provocar a intervenção das Forças Armadas".>
Em outro trecho, quando tratou da pandemia, Lula voltou a falar de responsabilizações. "As responsabilidades por este genocídio hão de ser apuradas e não devem ficar impunes".>
Lula também fez questão de ressaltar em sua fala que foi eleito apoiado por uma "frente democrática" para "impedir o retorno do autoritarismo ao país".>
"Sob os ventos da redemocratização, dizíamos: ditadura nunca mais! Hoje, depois do terrível desafio que superamos, devemos dizer: democracia para sempre!", discursou Lula.>
Na economia, o presidente fez um discurso fortemente voltado à participação das instituições de Estado no desenvolvimento do país, inclusive por meio das empresas públicas; e disse que uma nova legislação trabalhista será formulada.>
"Vamos dialogar, de forma tripartite — governo, centrais sindicais e empresariais — sobre uma nova legislação trabalhista. Garantir a liberdade de empreender, ao lado da proteção social, é um grande desafio nos tempos de hoje", disse.>
Lula afirmou que vai retomar obras paralisadas no país, mais de 14 mil, além de restabelecer o programa habitacional Minha Casa Minha Vida e estruturar um novo PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) para gerar empregos.>
Além disso, o presidente disse que serão impulsionadas as pequenas e médias empresas, o empreendedorismo, o cooperativismo e a economia criativa. "A roda da economia vai voltar a girar e o consumo popular terá papel central neste processo", disse.>
Lula chamou o teto de gastos de "estupidez", lembrando que ele será revogado (como já previsto pela proposta articulada pelo governo e aprovada pelo Congresso que expandiu o Orçamento em 2023. O projeto prevê a elaboração de uma nova regra para as contas públicas).>
Defendeu ainda a recomposição de verbas para áreas como saúde e educação, pregando investimentos em mais universidades, ensino técnico, universalização do acesso à internet, ampliação das creches e ensino público em tempo integral.>
Lula disse também que a política de valorização do salário mínimo será retomada e prometeu acabar com a fila do INSS. Ele defendeu o realismo orçamentário, fiscal e monetário, além do controle da inflação, do respeito a contratos e da cooperação público-privada.>
Outro tema que mereceu destaque no pronunciamento de Lula foi o meio ambiente. O governo Bolsonaro foi fortemente criticado no Brasil e no exterior pelo aumento do desmatamento na Amazônia e por uma política descrita por especialistas como desmonte de regras de preservação.>
"Nenhum outro país tem as condições do Brasil para se tornar uma grande potência ambiental, a partir da criatividade da bioeconomia e dos empreendimentos da sociobiodiversidade", disse Lula.>
"Nos anos recentes, perdemos o protagonismo nas relações internacionais envolvendo a questão do clima e o comércio de alimentos, devido ao estímulo irresponsável que se deu aos agressores do equilíbrio ecológico, dos povos indígenas e dos pequenos agricultores".>
Antes de iniciar seu discurso, no momento da assinatura do termo de posse, Lula quebrou o protocolo e fez uma rápida homenagem à população do Piauí.>
Disse que assinou o documento com uma caneta que ganhou de um apoiador em um comício em 1989 no estado. Segundo ele, o apoiador disse na ocasião que lhe estava presenteando a caneta para que ele assinasse o termo de posse caso ganhasse aquele pleito.>
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