No fim de março do ano passado, o Departamento de Estado dos EUA divulgou um preocupante relatório sobre a situação dos direitos humanos em 2020, alertando que o governo brasileiro, reiteradamente, desrespeitou a liberdade de expressão. Nesse sentido, não há como não relembrar que, desde sua posse, o presidente Jair Bolsonaro realizou mais de uma centena de ataques diretos a jornalistas e à imprensa, ao realizar publicamente afirmações como “a imprensa é nossa inimiga” ou “se valesse, jornalista já estaria tudo preso”.
Cabe aqui enfatizar que a atuação de nenhum profissional está imune a críticas ou a opiniões distintas. Entretanto, de igual modo, deve-se sublinhar que ataques, fake news e discurso de ódio não se confundem com críticas ou divergência de opinião. A pluralidade de ideias é respaldada pelo ordenamento jurídico democrático, enquanto os ataques, lado outro, representam tentativa leviana de censura, intimidação e incentivo à violência, contrariando os direitos fundamentais às liberdades de informação, de imprensa, de opinião e de expressão, assegurados na Constituição da República.
Insuflados pelo presidente que já se despede do Palácio do Planalto, seus correligionários mais convictos pressionaram pela demissão ou restrições a jornalistas que assinaram matérias que desagradaram ao governo. Isso sem contar os casos mais graves de violência, como a tentativa de incendiar prédio em que funcionava a sede de um jornal em Olímpia/SP tão somente porque o veículo de comunicação defenderia as medidas de segurança sanitária contra o coronavírus, contrariando o que pensam os adeptos do negacionismo.
Mas, encerrado o governo Bolsonaro, o que muda para o jornalismo brasileiro? Muito embora haja a perspectiva de que seja mitigado o cenário hostil contra a imprensa, o fato é que o jornalismo profissional continuará mantendo seu papel de levar informações confiáveis aos brasileiros, independentemente dos interesses políticos envolvidos.
Mesmo porque, como assinalado por Cariê Lindenberg: “No jornalismo não cabe favor. Nem favor a favor e nem favor contra. O jornalismo tem que ser isento, tem que ser a transparência do que ocorre com a sociedade a que ele serve”. A fala de Cariê é tão atual que parece que foi escrita hoje.
No governo do presidente eleito, os veículos de imprensa profissional certamente continuarão, de modo altivo, de perscrutar os fatos e entregar informações confiáveis para contribuir com o processo de firmamento de opiniões e escolhas pelo cidadão.