Ala militar se vê traída e discute se segue com Bolsonaro

Fardados não foram avisados da mudança na Polícia Federal contestada por Sergio Moro e que levou à demissão do então ministro

Publicado em 24/04/2020 às 15h10
De pé, Fernando Azevedo, Ministro de Estado da Defesa, ao lado de Jair Bolsonaro
De pé, Fernando Azevedo, Ministro de Estado da Defesa, ao lado de Jair Bolsonaro, em fevereiro deste ano. Crédito: Marcos Correa/PR

A ala militar do governo Jair Bolsonaro entrou em crise com a bombástica saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública. A retirada do apoio ao presidente é uma das hipóteses na mesa que, se concretizada, pode levar a uma renúncia.

Dois fatos contrariaram os militares e fizeram elevar a pressão de setores importantes da cúpula da ativa sobre seus enviados ao governo.

Primeiro, a publicação no Diário Oficial da exoneração do diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, sem consulta aos fardados. Os generais palacianos passaram a quinta (23) tentando costurar uma forma de Moro permanecer no governo, e se viram traídos pelo modus operandi do presidente.

Segundo, o pronunciamento explosivo de Moro em sua saída. Um interlocutor direto da ala militar afirmou que os generais ficaram chocados com a acusação explícita de interferência na Polícia Federal.

Como diz esse oficial-general, não se trata de achar que Bolsonaro não desejaria fazer isso, dado seu histórico de proteção aos interesses de sua família. Mesmo a mudança de Valeixo estava no preço. Mas o pedido explícito e, claro, a exposição pública da situação, foram vistos como injustificáveis.

Na avaliação os militares, o presidente isolou-se de vez com os fatos desta sexta. Nas conversas sobre tentativas de manter a governabilidade, os militares defenderam que o próximo ministro da Justiça fosse um jurista de reputação ilibada, sem conexões políticas. Inicialmente, Bolsonaro rejeita a hipótese.

O presidente quer o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira, no lugar de Moro. O ministro, contudo, não aceitou inicialmente a proposta. Outro nome é o de André Mendonça (Advocacia-Geral da União).

CORONAVÍRUS

Além da pressão interna, os militares do governo estão vendo subir a insatisfação do serviço ativo com a condução da crise do coronavírus. Segundo relatos, o comandante do Exército, general Edson Pujol, está cada vez falando menos a mesma língua que a do ministro da Defesa, general Fernando Azevedo.

Como em questão estão princípios hierárquicos, e Azevedo é o chefe de Pujol, não se espera nenhum sinal público dessas divergências. Mas elas elevam a pressão sobre os fardados no governo para se posicionar caso Bolsonaro não dê uma explicação minimamente palatável para a acusação de Moro.

Como parece impossível isso acontecer, o nó aperta. Moro, ao contrário de outro antigo pivô do governo, Paulo Guedes (Economia), é muito bem visto entre os militares.

MOURÃO NO AQUECIMENTO

Tanto é assim que generais da ativa compartilhavam, no começo desta tarde, não memes chamado Moro de traidor ou comunista, mas sim um no qual um jogador de futebol em aquecimento ganha a cabeça do vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB).

O vice, que nunca foi uma unanimidade entre seus pares de Alto Comando do Exército, é hoje a alternativa constitucional sempre falada pelos militares.

Teve voto, segundo a regra, e é indemissível. Não se espera nenhum movimento dele, dada a lembrança recente do balé entre Michel Temer e Dilma Rousseff, no qual o então vice ganhou a pecha de conspirador do processo de impeachment da petista em 2016.

Os militares, tanto da ativa quanto do governo, já haviam ficado contrariados com a presença de Bolsonaro em um ato pedindo um golpe na frente do quartel-general do Exército no domingo (19), dia da Força.

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