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Infraestrutura

Atrasos em obras públicas afetam o crescimento e a competitividade do ES

Deficiências na estrutura de transportes, como se vê nas BRs 262 e 101, atrapalham o crescimento da participação do Espírito Santo no PIB brasileiro. Em âmbito nacional, obras inacabadas e onerosas reduzem a competitividade

Publicado em 07 de Fevereiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

07 fev 2020 às 04:00
Angelo Passos

Colunista

Angelo Passos

Trecho de duplicação da BR 262 cuja obra foi paralisada Crédito: Divulgação
A China assombra o mundo com sua capacidade realizadora. Transformou em realidade o que parecia um delírio. Construiu em dez dias um hospital com mil leitos em Wuhan. O coronavírus não consegue matar a determinação chinesa. A capacidade de mobilização é muito mais forte. No décimo dia, já estavam hospitalizados os 50 primeiros pacientes no novo hospital, e uma equipe médica de 1.400 pessoas, passou a trabalhar sem cessar.
A construção relâmpago reuniu 100 tratores manobrando simultaneamente no canteiro de obras, enquanto quatro mil trabalhadores se revezaram em três turnos sem interrupção. A obra não dormiu um minuto. O ritmo frenético continua. Um segundo hospital, com 1.600 camas, também já está quase concluído em Wuhan.
E não se tratam dos maiores símbolos da excepcional força de realização da China. A referência mais reluzente continua sendo o hospital Xiaotangshan, em Pequim, erguido em 2003, em apenas uma semana (sim, apenas uma semana!), para receber pacientes com Sars, aquela epidemia que fez 349 vítimas fatais na China continental e quase 300 no território de Hong Kong.
O Brasil impressiona em sentido contrário ao da China. Aqui, historicamente, o cenário é de extrema morosidade no caminhar das obras públicas. Colecionamos grandes símbolos desse atraso. É o caso da usina de Belo Monte , a maior hidrelétrica 100% brasileira.
Foi projetada desde 1975 e teve obras iniciadas 36 anos depois, em junho de 2011, em meio a intenso bombardeio de opositores. Só passou a operar com plena capacidade em 29 de novembro de 2019. Ou seja, 44 anos após definida como projeto estratégico. Imagina se não fosse! O prejuízo à economia pela demora da obra ultrapassou, em muito, o custo da construção.
A transposição das águas do Rio São Francisco é outro impressionante atestado de desperdício de dinheiro público. Iniciada em 2007, conseguiu avançar apenas em algumas etapas. A última foi inaugurada às pressas, no ano passado, no final do governo Temer, exibindo graves sinais de deterioração: paredes de concreto rachadas, estações de bombeamento paralisadas, sistema de drenagem obstruído, assoreamento em alguns trechos. Uma vergonha. Ainda falta muita coisa para a conclusão e o custo saltou de R$ 4,5 bilhões para R$ 12 bilhões. Essa situação certamente interessa a políticos inescrupulosos.
O Espírito Santo conhece o drama do marasmo em obras públicas - federais, estaduais e municipais. São inúmeros os casos. Entre a dragagem da Baía de Vitória, que levou duas décadas para ser concluída. Já a inauguração da remodelação do Aeroporto de Vitória  ocorreu 16 anos após o primeiro anúncio, em 2002.
As obras só foram iniciadas em 2005, e ficaram paralisadas durante quase dez anos. O gasto final atingiu R$ 559 milhões, soma bem diferente dos R$ 200 milhões estimados em 2002. E o que dizer do Cais das Artes, em construção desde 2008? Permanece inacabado e exposto à corrosão da maresia.
Em termos de estradas, as complicações seguem várias direções. Uma rodovia de apenas nove quilômetros, denominada Leste-Oeste, foi inaugurada nos últimos dias de 2008, após 11 anos de obras. Parece incrível. É um pedaço de chão que liga a BR 262, em Campo Grande, Cariacica, à Rodovia Darly Santos, em Vila Velha. Foi entregue sem iluminação pública.
A previsão inicial é de que custaria R$ 70 milhões, mas acabou saindo por R$ 300 milhões. Já a remodelação da Avenida Leitão da Silva, com apenas três quilômetros, começou em janeiro de 2014 e foi inaugurada no final de 2019. O preço avançou de R$ 50 milhões para R$ 115 milhões.
É enfadonha a citação de tantos casos, mas torna-se imperioso mencionar os imbróglios nos dois principais leitos rodoviários federais que passam pelo Espírito. Santo. A União prometeu que em desde 2006 a BR seria remodelada. Hoje, 14 anos depois, continua sem finalização. A esperança agora na concessão, prometida desde ano passado, depois de ter sido cogitada, sem sucesso, no governo Dilma. O modelo proposto sofreu forte contestação.
Mas concessão não necessariamente significa deslanchamento de soluções de todos os problemas. O trecho da BR 101 no Espírito Santo virou palco de embates gerados por atrasos na duplicação. No entanto, o mais curioso é que, no ano passado, decorridos seis anos da concessão, descobriu-se um grave obstáculo ao licenciamento ambiental para o chamado trecho norte - entre os municípios de Serra a Pedro Canário. Foi negado por afetar uma área de reserva biológica. O impasse continua.
"A democracia não pode ser desculpa para retardar o crescimento. É preciso mais compromisso dos governantes com o bem-estar coletivo"
Angelo Passos - Jornalista
A China consegue fazer obras à jato porque o seu regime político é ditatorial. As condições de trabalho beiram a escravidão, e não há contestação. O governo controla mais de cinco mil estatais e faz o que quer, sem ouvir a sociedade, sem prestar contas. Não há confrontação com o Estado. Inexiste liberdade de expressão.
Por esse preço político, não compensa ser exímio construtor de obras. Mas o Brasil precisa aprender a utilizar as liberdades democráticas para ser mais competitivo. A democracia não pode ser desculpa para retardar o crescimento. É preciso mais compromisso dos governantes com o bem-estar coletivo.

Angelo Passos

É jornalista. Escreve às segundas e às sextas-feiras sobre economia, com foco no cenário capixaba, trazendo sempre informações em primeira mão e análises, sem se descuidar dos panoramas nacional e internacional

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