> >
PIB verde redesenha a economia capixaba

PIB verde redesenha a economia capixaba

Com linhas de financiamento verde e parcerias público-privadas, Estado transforma momento de crescimento econômico em motor para atingir meta de neutralizar as emissões de poluentes até 2050

Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 08:10

Até 2034, serão investidos
R$ 20 bilhões para a
expansão da rede
de gás natural
Até 2034, serão investidos R$ 20 bilhões para a expansão da rede de gás natural Crédito: Pixabay

No Espírito Santo, o debate sobre desenvolvimento econômico e preservação ambiental chegou à agenda de infraestrutura. Desse encontro, nasceu a oportunidade de transformar obras e redes de energia em motores de crescimento de baixo carbono. Assim, iniciativas públicas e privadas, de linhas de financiamento para energia solar a programas estaduais para ampliar o uso do gás natural e do biometano, começam a mostrar como a realização de investimentos “verdes” podem ter impacto direto no PIB estadual e na competitividade regional.

Segundo o Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), o PIB capixaba no segundo trimestre de 2025 foi estimado em R$ 59,5 bilhões, totalizando, no acumulado de quatro trimestres, R$ 215,1 bilhões com crescimento de 2,3% no período, num desempenho superior à média nacional. “Até 2029, estão previstos quase R$ 138 bilhões em investimentos públicos e privados, e a boa notícia é que a maior parte desses projetos é sustentável, o que beneficia todos os setores da economia”, afirma Pablo Lira, diretor-presidente do IJSN.

Lira destaca que já é possível identificar avanços a partir dos aportes, como o crescimento na recuperação do bioma Mata Atlântica, a redução na emissão de poluentes e a conquista do quarto lugar no Ranking de Competitividade dos Estados do Centro de Liderança Pública (CLP), na categoria Sustentabilidade Ambiental. 

“No momento, o Espírito Santo é um dos poucos Estados brasileiros que têm um comitê de monitoramento do Plano de Descarbonização, muito focado na troca da matriz energética. Agora, também está sendo elaborado um plano de adaptação climática, que visa a adaptar obras de infraestrutura e engenharia como um todo para eventos climáticos extremos”, pontua.

Vale ressaltar que o Plano de Descarbonização e Neutralização das Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do Espírito Santo é o que define quais serão as diretrizes globais, estratégias e caminhos tecnológicos a serem empregados para alcançar a neutralidade completa do carbono até 2050.

Para sua garantia, uma série de investimentos e parcerias público-privadas tem sido firmada. Um exemplo disso são as linhas do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes), o qual lançou opções de crédito voltadas à transição energética, como o Bandes Solar e a Finame Baixo Carbono, que financiam desde painéis fotovoltaicos até a compra de máquinas e equipamentos com maiores índices de eficiência energética para empresas.

Outro destaque é o Fundo de Descarbonização do Espírito Santo, que promove inovações que buscam neutralidade de carbono nas cadeias produtivas. “O Fundo de Descarbonização utiliza recursos do petróleo e do gás para financiar uma economia de baixo carbono, gerando investimentos sustentáveis e de impacto real. Assim, o banco contribui para diversificar a economia capixaba, tornando-a mais competitiva e menos dependente de combustíveis fósseis”, explica Marcelo Saintive, diretor-presidente da instituição.

Marcelo Saintive, diretor-presidente do Bandes, esteve presente no Atitude Sustentável desta quinta (06)
Marcelo Saintive, diretor-presidente do Bandes, destaca fundo de descarbonização Crédito: Arthur Louzada

Pesquisa e inovação Enquanto o Bandes impulsiona o crédito, a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) atua na base do incentivo ao conhecimento. A fundação tem ampliado o apoio a startups, universidades e empresas que desenvolvem soluções voltadas à economia sustentável, além de abrir editais direcionados à energia renovável, biotecnologia e gestão de resíduos.

“Nossas iniciativas unem geração de conhecimento, preservação ambiental e desenvolvimento econômico, com ações descentralizadas que alcançam diferentes regiões do Espírito Santo e contam também com parcerias internacionais”, afirma o diretor-presidente da Fapes, Rodrigo Varejão. Em 2025, a Fapes tem investimentos comprometidos que ultrapassam R$ 60 milhões, com parte significativa voltada a projetos que abordam sustentabilidade e descarbonização.

Rodrigo Varejão, diretor-presidente da Fapes
Rodrigo Varejão, diretor-presidente da Fapes Crédito: Divulgação

Entre os destaques, estão o Edital 02/2025, dedicado à recuperação da Mata Atlântica, o primeiro do tipo lançado por uma fundação de amparo à pesquisa no Brasil, e os programas sobre economia verde e azul, que abrangem tanto o meio terrestre quanto o oceânico. Para essas iniciativas, contempladas pelo Edital 07/2025, está previsto o investimento de R$ 4 milhões.

No campo da inovação, a fundação também lançou editais focados no desenvolvimento de negócios de impacto socioambiental, apoiando startups capixabas como a Endelevo, que atua com eficiência energética em edificações sustentáveis; e a Zero Esgoto, especializada em reaproveitamento de resíduos orgânicos. “Nossa expectativa é que os novos projetos de maior impacto contribuam não apenas para aumentar o PIB, mas também para mudar o perfil da economia, tornando-a mais competitiva e com maior valor agregado”, pontua. Esses investimentos em pesquisa e inovação acabam por fortalecer o ecossistema de tecnologia do Estado, aproximando ciência e mercado.

A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) também participa dessa frente, apoiando projetos de sustentabilidade e inovação industrial em parceria com o governo e instituições de ensino. De acordo com o gerente-executivo de Infraestrutura e Serviços da Findes, Ricardo Curty, a instituição conduz em 2025 um portfólio com mais de 57 projetos, incorporando práticas de reaproveitamento de recursos naturais e eficiência energética.

“Planejamos investir R$ 500 milhões até 2030 em obras sustentáveis para ampliação e melhoria das unidades Sesi e Senai, sendo R$ 115 milhões apenas em 2025, com os mais rigorosos critérios de sustentabilidade”, afirma. O presidente da Findes, Paulo Baraona, destaca que a federação atua como facilitadora da transição sustentável da indústria capixaba, conectando educação, inovação e representação empresarial.

“Contribuímos ativamente para o debate nacional e local sobre o tema, criando condições reais para que a indústria invista em práticas sustentáveis e em fontes de baixo carbono. Por meio do Senai, também formamos profissionais capacitados e aptos a lidarem com as tecnologias habilitadoras da indústria, com foco em eficiência energética”, detalha.

Bandes tem linhas de financiamento para estimular a energia solar
Bandes tem linhas de financiamento para estimular a energia solar Crédito: PIXABAY

Entre as ações recentes, o Observatório da Indústria, que faz parte do ecossistema de inovação da Findes, desenvolveu o programa Indústria 2035, que traça rotas estratégicas para o futuro da indústria capixaba em áreas como construção, energia, petróleo e biotecnologia. Em parceria com o Bandes, a entidade também realizou a Pesquisa Descarbonização e Eficiência Energética 2025, que revelou que sete em cada dez empresas do Estado planejam investir em ações de descarbonização.

Gás Natural

Entre as apostas do Espírito Santo para acelerar a infraestrutura sustentável, está o programa ES+Gás, coordenado pela ES Gás em parceria com o governo estadual. O projeto prevê R$ 7 bilhões em investimentos até 2026 e R$ 20 bilhões até 2034, com foco na expansão da rede de gás natural, no incentivo ao uso de biometano e na descarbonização da matriz energética. 

“O gás natural é o combustível que viabiliza o futuro desde já. Ele pavimenta a chegada de outros combustíveis limpos, como o biometano, que tem emissão bruta neutra, e o hidrogênio, que quando queimado gera apenas água”, explica Fábio Bertollo, diretor-presidente da ES Gás. Essa infraestrutura, segundo Bertollo, é um vetor real de descarbonização da economia capixaba. Um exemplo é o programa de incentivo à descarbonização, desenvolvido em conjunto com o governo do Estado, que em agosto de 2025 evitou a emissão de mais de 20 mil toneladas de CO₂, o equivalente à retirada de todos os veículos de Vitória das ruas por 30 dias.

Fábio Bertollo assume a presidência da ES Gás
Fábio Bertollo, presidente da ES Gás: "O gás natural é o combustível que viabiliza o futuro desde já." Crédito: Divulgação/ ES Gás

Bertollo acrescenta que a empresa já investiu R$ 70 milhões em 156 projetos de eficiência energética e quase R$ 100 milhões em biometano. No Espírito Santo, cerca de R$ 250 milhões dos próximos investimentos serão destinados à operação mais segura e moderna da rede. Um dos projetos mais transformadores é a injeção de biometano na rede de Cariacica, em parceria com a Marca Ambiental, o primeiro do tipo no Estado.

Serão R$ 75 milhões investidos e potencial para incluir 50 mil m³ por dia de gás renovável, a partir do fim de 2025. Além dos benefícios ambientais, o gás natural também traz ganhos econômicos. Bertollo ressalta que o combustível é mais seguro, mais barato e mais previsível. “Ele é pós-pago, tem preço regulado por uma agência independente e é mais competitivo que outras fontes.

É um insumo que dá conforto e segurança ao consumidor e previsibilidade de custo para empresas.” Nos próximos cinco anos, a ES Gás pretende investir até R$ 1 bilhão em três frentes principais: interiorização e corredores sustentáveis, com 22 pontos de abastecimento que substituirão até 10% do diesel e gasolina por gás natural e biometano; democratização energética, com R$ 470 milhões destinados à expansão de 500 km de rede; e operação digital e segura, com R$ 230 milhões voltados à automação e resiliência climática.

A meta é evitar 900 mil toneladas de CO₂ até 2030. Também entre as ações conjuntas com o governo estadual com a ES Gás, está a compra de 24 ônibus movidos a biometano em um projeto desenvolvido com a Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi). De acordo com o secretário Fábio Damasceno, a frota começará a circular no sistema Transcol em 2026. 

Fábio Damasceno, secretário de Mobilidade e infraestrutura  do ES, visitando a obra da ciclovia na Terceira Ponte, em Vila Velha
Fábio Damasceno, secretário de Mobilidade e infraestrutura do ES Crédito: Ricardo Medeiros

Temos cidades como Madri, Paris, Lisboa e Bogotá que já adotam sistemas de ônibus com gás natural e biometano. No Estado, pelo potencial no gás, entendemos que teríamos um custo menor do que com os ônibus elétricos e também menos poluentes.

Fábio Damasceno

Sscretário de Estado de Mobilidade e Infraestrutura

Além disso, o avanço da infraestrutura de baixo carbono no Espírito Santo passa pela regulação. A Agência de Regulação de Serviços Públicos (Arsp) conduz o Programa Gás para Mover, uma das iniciativas estratégicas do Programa Capixaba de Mudanças Climáticas, que tem como objetivo estruturar corredores sustentáveis no Estado e desenvolver instrumentos regulatórios que viabilizem a expansão do uso de gás natural e biometano.

“Esses avanços demonstram um compromisso sólido para viabilizar uma infraestrutura sustentável de gás natural e biometano, dando suporte à transição energética e ao desenvolvimento socioeconômico do Espírito Santo”, defende Alexandre Ventorim, diretor-geral da Arsp. O impacto ambiental e econômico é expressivo.

De acordo com Ventorim, o biometano emite apenas 8,4 kg de CO₂ por GJ, contra a 70 kg/GJ do diesel e 75 kg/GJ da gasolina, o que representa uma redução superior a 85% nas emissões do setor de transporte, além de ganhos de competitividade pela diminuição do custo operacional de frotas e transportadoras.

O Gás para Mover deve consolidar corredores sustentáveis ao longo da BR 101 e da BR 262, levando o gás natural a cinco novos municípios e conectando quatro novas plantas de biometano à rede estadual até 2030. O plano prevê a instalação de 250 postos de gás natural veicular (GNV) em 26 cidades até 2034, com potencial para atender a 380 mil veículos por ano, o equivalente a 22% da frota leve e a 16% da pesada do Estado. mitigação No setor privado, companhias de grande porte também estão alinhando metas econômicas e ambientais.

A Petrobras, em nota, informou que mantém programas socioambientais voltados à conservação de ecossistemas, redução de emissões e recuperação de áreas degradadas, em parceria com instituições locais e comunidades. Entre os principais projetos em andamento no Espírito Santo está o FPSO Maria Quitéria, a primeira plataforma da empresa equipada com tecnologia de ciclo combinado, que permite gerar toda a energia elétrica utilizada a bordo e reduzir em cerca de 24% as emissões de gases de efeito estufa durante a operação.

Navio-plataforma Maria Quitéria chega ao Brasil
Navio-plataforma Maria Quitéria Crédito: Divulgação/Yinson

Outro destaque é o protocolo de intenções assinado com o governo do Estado e a Findes para o desenvolvimento de estudos de Captura, Utilização e Armazenamento de Carbono (CCUS) e de hidrogênio de baixo carbono, que visam a implantar no Espírito Santo um hub de descarbonização industrial. Os investimentos sustentáveis da Petrobras também têm impacto direto na economia capixaba. De acordo com a nota, o plano de negócios 2025–2029 prevê R$ 35 bilhões em aportes no Espírito Santo, abrangendo as áreas de exploração e produção, gás e energia, e refino e comercialização.

Já a ArcelorMittal desenvolve o Programa Revsol, que transforma resíduos siderúrgicos em insumos para pavimentação de rodovias e obras públicas, substituindo materiais convencionais e reduzindo o descarte. De acordo com a empresa, o Revsol já pavimentou mais de 2.500 quilômetros de estradas de Norte a Sul do Espírito Santo.

O material, originado da escória de aciaria, passa por um processo de beneficiamento que o torna apto para uso em bases e sub-bases de pavimentos, calçamentos e obras de infraestrutura. Além de contribuir para a redução do volume de resíduos destinados a aterros industriais, diminui a necessidade de extração de brita e outros agregados naturais, preservando recursos minerais e baixando emissões associadas ao transporte e à mineração. 

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais