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Sete mulheres conta a história como empreendedora e sobre como têm vencido os desafios dos negócios em meio à pandemia
Sete mulheres conta a história como empreendedora e sobre como têm vencido os desafios dos negócios em meio à pandemia. Crédito: Carlos Alberto/Arte Geraldo Neto

Periferia business: as mulheres que moram e empreendem nas comunidades

São patroas e empresárias que geram emprego, fazem circular o dinheiro dentro dos bairros e sustentam famílias inteiras em regiões de baixa renda da Grande Vitória

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 07/07/2021 às 02h01

O número de mulheres que trabalha por conta própria na Grande Vitória é maior que a população de 68 municípios do Estado. Segundo o IBGE, são 107 mil patroas e empresárias, muitas delas morando e empreendendo nos bairros periféricos, que correspondem a 40% dos domicílios.

A maior parte dessas mulheres (72%) ainda está na informalidade, ou seja, não tem CNPJ. Ainda assim, esses negócios fomentam a economia local, geram empregos e renda, além de sustentar famílias inteiras. Segundo dados do Datafavela, as periferias brasileiras movimentam R$ 119,8 bilhões por ano.

Quando se fala em empreendedorismo nas periferias, é a necessidade que faz a CEO. Em 2019, 56% dos empreendedores abriram negócios porque precisavam, como no caso de uma demissão ou para complementar a renda.

É o caso da educadora física Karen Rodrigues, de 24 anos, que teve o salário reduzido em 70% na rede de academias onde trabalhava por conta da pandemia do novo coronavírus.

Sem poder trabalhar, decidiu comprar equipamentos de ginástica para fazer exercícios na garagem da casa dos pais, em um dos muitos becos do bairro Santo André, em Vitória. Ela passou a postar sua rotina de treinos nas redes sociais e sucesso foi imediato.

“Surgiu uma demanda muito grande de visualizações nos Stories, no Facebook, de as pessoas me procurando perguntando como fazer orçamento pra praticar atividade física aqui comigo. Hoje minha agenda está cheia e eu tenho lista de espera”, conta.

Karen transformou a garagem em um “home box” de exercício funcional e comprou mais material para atender os clientes que não paravam de chegar. O beco agora também é pista de corrida e a jovem não quer parar por aí.

“Essa área era onde eu ia construir a minha casa. Agora, quero montar minha sala de ginástica, abrir aula de dança e de localizada. É outro produto que eu consigo vender por ter trabalhado com essas modalidades no passado, em academias”, planeja.

Para atender a clientela de baixa renda, a personal trainer criou pacotes de aula que são vendidas em conjunto e podem ser utilizadas na medida da disponibilidade de dinheiro e de tempo dos clientes.

Para Karen, a nova carreira de empresária individual e personal trainer trouxe mais do que socorro em um momento de incerteza.

Karen Rodrigues

Personal trainer

"Ter meu home box fez com que eu pudesse abrir mão do meu antigo trabalho e minha renda acabou dobrando, por conta do valor de personal"
Karen dos Santos Rodrigues, 24 anos, personal treiner em Santo André, Vitória
Karen é personal trainer em Santo André, em Vitória . Crédito: Carlos Alberto Silva

IMPÉRIO DA BELEZA

Perto dali, em Santo Antônio, na Capital, Clarissa Rody, 38 anos, também largou o emprego com carteira assinada para investir em um negócio próprio. Há dez anos, ela abandonou o cargo de vendedora de sapatos em uma loja no shopping para abrir um salão com as duas irmãs, Andressa e Lorena.

107 mil

patroas e empresárias no ES

“A gente juntou as economias que tinha, rescisão de contrato de trabalho, o cartão de crédito você arrebenta e depois negocia e paga. Conseguimos abrir uma portinha. A recepção era junto com o penteado, com o corte, e ficava todo mundo ali bem juntinho”, lembra.

Era o início do salão Spa dos Cachos, um espaço dedicado não só aos cabelos cacheados, mas à autoestima da mulher negra. Com o tempo elas foram ampliando a clientela: uma vizinha chamou a outra, que levou a mãe, que trouxe a colega de trabalho e as primas… E o salão ficou pequeno.

Atualmente, o empreendimento ocupa duas lojas na avenida principal do bairro, em um espaço recém reformado e decorado com a cara delas.

O Spa fez tanto sucesso que as três irmãs abriram uma filial em Anchieta, no Sul do Estado. O objetivo é atender as clientes da cidade que chegavam a alugar microônibus e viajavam para Vitória para colocar os cabelos aos cuidados das irmãs Rody.

Como muitos empreendedores nas comunidade, Clarissa e as irmãs só regularizaram a empresa anos depois da abertura. Ela conta que foi um esforço conseguir todas as licenças e alvarás necessários. Hoje, ela comemora o sucesso e planeja uma nova ampliação.

“Eu tenho duas filhas, Andressa tem três filhos e um neto, Lorena tem mais três filhos. Só daí são 15 pessoas. Tem ainda as meninas que trabalham com a gente, que todas são casadas e tem filhos. Todas elas dependem do salão diretamente. E a gente aprendeu que não pode parar. Tá difícil, mas a gente busca alternativas, estamos sempre buscando aperfeiçoamento, a gente estuda muito, para oferecer ao cliente algo diferenciado”, afirma.

A Angélica veio de Iúna quando era criança e se instalou com a família em Barramares. Mais velha, trabalhou com o pai construindo muros e lajes na comunidade. Conseguiu com 25 anos entrar na faculdade de engenharia. Hoje ela ajuda os moradores a construírem de forma mais segura, e seguindo as regulações da prefeitura
Mulheres que moram e empreendem nas comunidades. Angélica, engenheira civil, ajuda os moradores a construírem de forma mais segura, e seguindo as regulações da prefeitura. Crédito: Carlos Alberto Silva

ENGENHEIRA, EMPRESÁRIA E ORGULHO DOS PAIS

A quase 30 km dali, em Morada da Barra, na região da Grande Terra Vermelha, em Vila Velha, a engenheira civil Angélica Zanete também honra um legado de família.

Em um bairro onde poucas ruas são asfaltadas e a maioria das casas exibe tijolos sem reboco, ela abriu uma empresa de arquitetura. O objetivo é auxiliar a população de baixa renda a construir de forma mais segura, obedecendo às normas do município e ainda economizando no material.

“Aqui, infelizmente, as pessoas que não tem tanto conhecimento constroem de forma irregular”, conta.

O caminho até a abertura da Zanete&Lenk Construções Inteligentes, no ano passado, foi árduo. Para conseguir um diploma, Angélica colocou a mão na massa, literalmente. Ainda na adolescência, ajudou o pai a construir muros e lajes pelo bairro.

“Meus pais sempre foram produtores rurais, em Iúna. Quando eu tinha 6 anos, mudamos para a quinta região (conhecida como Grande Terra Vermelha, em Vila Velha). No início moramos em Barramares, mas a única coisa que sabíamos fazer era plantar. Encontramos uma grande dificuldade, que foi o emprego”, lembra.

Enquanto a mãe de Angélica conseguia o sustento da família como catadora em um lixão na região, o pai se aventurou nos trabalhos braçais da construção civil, acompanhado da filha.

A engenheira trabalhou para pagar a faculdade e, quando se formou, viu um nicho de mercado na região onde cresceu.

“O meu maior incentivo foi quando eu e meu pai estávamos fazendo um muro e não sabíamos a quantidade dos materiais e nem conhecíamos um profissional que pudesse nos ajudar. Hoje, quando a gente caminha na rua ou pelas redes sociais, as pessoas perguntam, ‘como eu deveria fazer isso?”

Agora, um ano e meio depois da abertura da empresa, Angélica e o marido agora querem alçar voos maiores. Eles pretendem abrir uma construtora focada em empreendimento imobiliários dentro da quinta região, em Vila Velha.

Engenheira e empresária, Angélica, além de gerar renda na comunidade, é o orgulho da família.

“Meu pai e minha mãe não sabem o tamanho da minha responsabilidade sobre um projeto, uma obra, uma execução. Mas eles sempre dizem ‘minha filha é engenheira civil, ela se formou!’”, diz, segurando as lágrimas.

Ariele de Jesus, 32 anos, e Marina Degen, 34. Sócias do bar Petisco das Meninas, na Serra.
Ariele de Jesus, 32 anos, e Marina Degen, 34. Sócias do bar Petisco das Meninas, na Serra. Crédito: Carlos Alberto Silva

AS MENINAS DO CARRINHO DE CACHORRO-QUENTE

Empreender em áreas periféricas não costuma ser algo estruturado e acontece, muitas vezes, de maneira empírica. Por necessidade, as pessoas colocam a mão na massa sem muito tempo de teste, dinheiro curto e margem restrita para erros.

Contudo, como em muitas carreiras, ter talento e ousadia pode render bons frutos. A Ariele de Jesus, por exemplo, arriscou tudo que tinha - na época, só uma moto - para abrir o próprio negócio.

Sem dinheiro, sem apoio da família e sem ver muitas perspectivas no emprego de motogirl em uma firma de contabilidade, ela se juntou com a amiga Marina Degen e foi vender cachorro-quente nas ruas da Serra. Hoje, elas são sócias do bar Petisco das Meninas, que emprega quase 100 pessoas em duas unidades, uma em Colina de Laranjeiras e outra em Jacaraípe, além de colecionar prêmios no festival Roda de Boteco.

“Eu precisava de um trabalho onde eu pudesse me movimentar mais, que dependesse do meu esforço, de quanto eu trabalhasse. Eu precisava construir uma casa. Então eu falei ‘Mari, vou vender a moto, vou compra rum carro e nós vamos vender cachorro-quente’”, lembra.

No começo, como muitos ambulantes, elas foram para a porta de grandes festa e shows. Porém, Ariele e Marina concluíram que o serviço de madrugada, cercado de pessoas embriagadas era problemático, e decidiram se instalar em um ponto fixo no bairro Colina de Laranjeiras.

“Primeiro teve uma rejeição. As pessoas questionavam que não tinham pago R$ 500 mil numa casa em condomínio de luxo pra ter ambulante na porta. Mas também não tinha opção no local então aceitaram a gente”, conta.

Os clientes, que só aumentavam, passaram a pedir uma cerveja para tomar enquanto esperavam na fila do cachorro-quente. Depois, pediram o churrasquinho, que se transformava também em pão com carne. No inverno, as meninas investiam em caldos. Tudo no meio da rua.

“A gente decidiu por fim ter um espaço físico. E aí começou essa questão de legalização de funcionário, de empresa, nesse momento foi quando a gente teve que se informar, correr atrás, ir em cursos para entender dessa parte burocrática que a gente não entedia”, afirma Marina.

O primeiro ponto fixo do Petisco das Meninas tinha fila na porta todo dia e chamou a atenção dos organizadores do Roda de Boteco. Na primeira edição que participaram, elas ficaram em segundo lugar com o melhor atendimento.

“Foi o momento mais emocionante, mais que abrir a empresa. Eu nunca tinha ido ao festival porque não tinha dinheiro. Até passar a mente de ambulante, que ainda não passou, e entender que a empresa tomou outro formato, demora”, diz Ariele.

Ariele e Marina abriram outro bar em Jacaraípe e estão aproveitando a pandemia para reformar o antigo, em Colina de Laranjeiras. Elas trabalham também com delivery.

“As pessoas gostam de dizer que eram clientes do carrinho. Os anos foram passando, as crianças foram crescendo - porque já tem dez anos - e até hoje elas vem aqui e falam que acompanham a gente desde o carrinho, eles batem no peito. A gente se apaixonou pelo Petisco. Empreendemos pra construir nossa casa, construímos, mas quando acabamos a marca já tinha vida própria, já tinha corpo, e agente que estava correndo atrás”, pontua Ariele.

Clarissa Rody (D), 38 anos, empresária e sócia das irmãs Andressa e Lorena Rodydo no salão Spa dos Cachos, em Santo Antônio, Vitória.
As irmãs Clarissa, Andressa e Lorena Rody têm um salão no bairro Santo Antônio, em Vitória. Crédito: Carlos Alberto Silva

CONHECIMENTO E PLANEJAMENTO

Karen, Clarissa, Angélica e Ariele tiveram sucesso com seus negócios com pouco ou nenhum conhecimento prévio de gestão, sem estudo de mercado, público-alvo, algumas sem nem um cartão de crédito pessoal.

Contudo, especialistas do setor ressaltam que quem se informa, se prepara e aprende alguns conceitos básicos de administração tem mais chance de manter as portas abertas por mais tempo e até de crescer mais rápido.

“Investir em algo que sei fazer - seja na área de beleza, culinária, ou outra - não garante que terei um negócio próprio. Se por ventura eu tenho boa relação com a minha comunidade, sou mais articulada, com um perfil mais comercial, tenho chances para que meu negócio caminhe bem. Mas isso não é o normal. A regra é a pessoa que tem alguma habilidade, mas não é vendedora”, diz a gerente do Sebrae, Adriana Rocha.

Mas nem tudo está perdido para quem não tem esse “talento” natural para os negócios. A especialista garante que com planejamento e conhecimento, é possível prosperar.

O planejamento ajuda a avaliar, por exemplo, qual investimento fazer com o recurso disponível para começar o negócio. Mesmo o dinheiro seja curto no começo, como uma rescisão de contrato, ou um seguro desemprego, é possível encontrar a melhor forma de esticá-lo.

“Muita gente não deixa dinheiro para o fluxo de caixa, por exemplo. As empreendedoras pegam o recurso para abrir um negócio na área de alimentação e compram geladeira nova e fogão novo. Quando elas vêm conversar, a gente fala que ela precisa se adequar com o que já tem e guardar dinheiro para comprar matéria-prima, vender, divulgar. Quando começar a retornar, é que é hora de fazer os investimentos necessários”, explica.

Já o conhecimento em gestão do negócio vai permitir separar o que é pessoal do que é a empresa, administrar os fluxos de caixa, fornecedores, comras, técnicas de fidelização do cliente, divulgação, etc.

Adriana Rocha

Gerente do Sebrae

"Se eu começo a ter dinheiro, mas não separo as contas pessoais com a da empresa. Eu misturo e não vejo lucro, acho que o negócio não está indo bem"

PANDEMIA PROVOCOU BOOM DE INFORMAIS

A crise do coronavírus não afetou homens e mulheres de forma igualitária. Entre os postos de trabalho fechados no Estado neste ano, 9 em cada 10 vagas eram de mulheres. Agora, quando a economia começa a dar sinais de melhora, elas estão sendo excluídas do processo. Entre as vagas reabertas no terceiro trimestre, 85% ficaram com os homens.

R$ 119,8 bilhões

Segundo o Datafavela, é quanto as periferias brasileiras movimentam em suas economias por ano

Esse movimento, segundo especialistas, fez crescer ainda mais o número de empreendedoras por necessidade.

“As mulheres são as primeiras que se jogam. Qualquer dificuldade que surge, dentro de casa, no trabalho, se reinventa rapidamente. Se um filho fica desempregado, o marido, ou ela mesma, ela já pensa em fazer um bolo pra vender, pega uma revista da Avon, buscar alternativas. Os números indicam isso. Ela se adapta”, aponta a diretora administrativa e financeira da Agência de Desenvolvimento das Micro e Pequenas Empresas e do Empreendedorismo (Aderes), Sandra Aragão.

Segundo dados da agência, entre março e agosto deste ano foram criados mais de 7 mil novos registros de Microempreendedor Individual (MEI) no Espírito Santo. Quase metade são mulheres. Elas são maioria entre as tomadoras de crédito emergencial (58%).

“As mulheres têm coragem, elas têm habilidades, dons, pegaram dinheiro emprestado, mas quando vão para a gestão, para o planejamento, as finanças, na posição de comando, acaba se perdendo. Acaba sendo um tabu”, diz.

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