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"Nervosas" e interrompidas, senadoras enfrentam machismo na CPI da Covid

Mulheres não foram indicadas pelos partidos para compor comissão, mas conseguiram, por meio de acordo, fazer perguntas a depoentes. Senadores têm reagido à presença delas na CPI com interrupções e ironias

Vitória
Publicado em 09/06/2021 às 02h01
Discussão na CPI da Covid. Na foto, as senadoras Eliziane Gama (Cidadania), Soraya  Thronicke (PSL) e Eliziane Gama (Cidadania)
Discussão na CPI da Covid. Na foto, as senadoras Eliziane Gama (Cidadania), Soraya Thronicke (PSL) e Simone Tebet (MDB) com o senador Ciro Nogueira (PP). Crédito: Jefferson Rudy

Desde a instalação da CPI da Covid no Senado, no dia 27 de abril, a bancada feminina enfrenta uma série de episódios de machismo. Sem cadeira cativa na comissão de inquérito, já que elas não foram indicadas pelos partidos para ocupar nenhuma das 18 vagas (entre titulares e suplentes), as senadoras têm se revezado para participar das sessões.

Mas mesmo com o direito de fala garantido após um acordo na comissão, as integrantes da bancada feminina têm sido constantemente interrompidas. Durante a sessão do dia 19 de maio, a senadora Simone Tebet (MDB-MS) chegou a pedir que o ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello parasse de interrompê-la e só falasse quando fosse questionado. 

Uma semana antes, a senadora Leila Barros (PSB-DF) havia sido interrompida pelo senador Marcos Rogério (DEM-RO) enquanto fazia perguntas ao ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten. Ao tentar retomar a palavra, ela ouviu do colega de parlamento que estava muito "nervosa".

Situação semelhante aconteceu com a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), na sessão do dia 18 de maio. O presidente da CPI, Omaz Aziz (PSD-AM), pediu que a parlamentar fosse menos agressiva ao fazer os questionamentos a Pazuello.

O tratamento, contudo, foi diferente quando Flávio Bolsonaro (Republicanos) protagonizou um bate-boca com o senador Renan Calheiros (MDB-AL), a quem ele chamou de vagabundo durante a CPI. Ao filho do presidente da República, coube apenas um pedido de "por favor, não faça isso" do presidente da comissão.

"O que é visto como assertividade e ousadia nos homens, nas mulheres é visto como violência, agressividade, histeria. São estigmas de gênero que, reforçados dentro do ambiente político, visam a desmerecer a presença das mulheres", apontou a cientista política Marlise Matos.

Marlise Matos

Cientista política

"Quando um parlamentar diz para uma senadora que ela está muito nervosa, a ideia que ele quer passar é que ela é desequilibrada e que não tem capacidade para ocupar aquele espaço"

A pesquisadora, que coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) na Universidade Federal de Minas Gerais, destaca que os episódios vistos na CPI são emblemáticos porque evidenciam o machismo na sociedade. 

"Faz parte da cultura machista considerar que a mulher é alguém frágil, que não pode aumentar a voz, que tem que estar sempre submissa e não pode ser protagonista. Na política, isso fica muito exacerbado, porque é um espaço predominantemente masculino, em que os homens não querem perder o domínio. Por isso, eles agem da forma como temos visto na CPI. É uma estratégia política", pondera.

A Gazeta selecionou alguns momentos da CPI da Covid, ao longo do último mês, em que as senadoras foram vítimas de machismo no Senado. Confira:

"[MULHERES] NÃO FAZEM NEM QUESTÃO DE ESTAR NA CPI"

Antes mesmo de a rodada de depoimentos da CPI começar, na sessão do dia 27 de abril, a bancada feminina foi alvo de comentários machistas. O senador Flávio Bolsonaro ironizou a ausência de mulheres na comissão e disse que elas não faziam questão de estar ali.

"Acho que as mulheres já foram mais respeitadas e indignadas. Estão fora da CPI e não fazem nem questão de estar nela", afirmou. 

Senadora Eliziane Gama durante a comissão no Senado
Senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) durante a CPI da Covid no Senado. Crédito: Leopoldo Silva

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), que estava presente no plenário, rebateu.

"Nós, mulheres desta Casa, além de participar das demais ações, vamos participar desta comissão parlamentar de inquérito. Eu, Eliziane Gama, e nenhuma das senadoras vai admitir ironia machista em relação a mulheres. Não admito o senhor questionar a nossa indignação", respondeu.  

Eliziane Gama

Senadora pelo Maranhão

"Enquanto houver mulheres presentes, nenhum homem, nem aqui, nem em lugar nenhum, vai tentar calar a voz de uma mulher"

A falta de mulheres na composição da Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado se deve ao fato de elas não terem sido indicadas pelos partidos. Eram 18 cadeiras, 11 para membros titulares e sete para suplentes, mas nenhuma delas foi ocupada pelas senadoras. As vagas foram divididas proporcionalmente por blocos partidários.

No Senado, a bancada feminina é composta por 11 de um total de 81 parlamentares, o que representa apenas 13,5%.

Sem representatividade na CPI, a bancada feminina articulou-se e conseguiu fazer um acordo com a comissão para que elas indicassem duas mulheres – uma na lista de membro titular e outra na lista de suplentes – para fazer perguntas durante a investigação. 

Apesar de ter sido dado às senadoras o direito de falar, elas não podem votar, nem fazer requerimentos, o que é prerrogativa dos membros da comissão.

Para a cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Luciana Santana, a exclusão de mulheres do grupo que toma decisões na CPI da Covid reflete o controle masculino nesse espaço de poder. 

"A matemática é uma só: para ocupar um espaço político, para que uma mulher entre, um homem tem que sair, e eles sabem disso. Se nós temos 18 vagas na comissão e estamos em busca de paridade, vamos ter que ver homens deixando de ocupar aquelas cadeiras. E eles não querem isso, porque acreditam que aquele espaço pertence a eles", destacou.

"SE A BANCADA FEMININA QUER ASSENTO NA COMISSÃO, PEGUE O BLOCO E FORME UM PARTIDO"

A confusão começou depois que o presidente da CPI, Omar Aziz, permitiu à senadora Eliziane Gama fazer questionamentos ao ex-ministro da Saúde Nelson Teich, antes dos membros titulares da comissão.

Discussão durante a CPI da Covid entre bancada feminina e senadores governistas
Discussão durante a CPI da Covid entre bancada feminina e senadores governistas. Crédito: Jefferson Rudy

A concessão para que a representante da bancada feminina perguntasse primeiro havia sido acordada um dia antes com Aziz,  o que gerou questionamentos dos senadores da ala governista. Eles acusaram as mulheres de estarem se beneficiando da situação e tentando exercer a função de membros titulares.

"Se a bancada feminina quer assento nesta comissão, para agir como titular, pegue o bloco e forme um partido político e terão assento nesta comissão como membros titulares", disse o senador Marcos Rogério.

A líder da bancada feminina, senadora Simone Tebet (MDB-MS), rebateu. "Há uma grande diferença entre privilégio e prerrogativa. Privilégio é inadmissível em um Estado de Direito e as mulheres desta Casa nunca vão pleitear. Nós pedimos ao plenário desta Comissão que pudéssemos ter direito a uma fala na lista dos titulares, na lista dos suplentes", afirmou.

A senadora tentou explicar que as mulheres não estavam pleiteando titularidade na comissão e que elas não tinham os mesmos direitos que os outros membros. Em vários momentos, ela foi interrompida pelos senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Jorginho Mello (PL-SC), que alegaram que o regimento estava sendo rasgado.

De acordo com o regimento da Casa, a liderança da bancada feminina, criada neste ano, tem direito de participar das reuniões semanais que decidem as prioridades da pauta, de orientar a bancada na hora das votações e tem preferência para o uso da palavra.

"CALMA, NÃO PRECISA FICAR NERVOSA"

No dia 12 de maio, a senadora Leila Barros (PSB-DF) fazia perguntas ao ex-secretário de Comunicação Fábio Wajngarten, quando  foi interrompida pelo senador Marcos Rogério. Ao tentar retomar a fala, ouviu do colega: "Calma, não precisa ficar nervosa". 

Leila então rebateu: "Nervosa? Todo mundo aqui é afetado, né? Só vocês que não". No mesmo dia, a senadora fez uma publicação nas redes sociais comentando o episódio e denunciou a tentativa de silenciamento da bancada feminina na CPI. 

"Os que tentam nos calar não perceberam ainda que não conseguirão. A minha voz e das demais mulheres jamais será silenciada", escreveu.

INTERRUPÇÕES

As senadoras Kátia Abreu (PP-TO) e Simone Tebet (MDB-MS) também foram vítimas de interrupções na Casa. Na sessão do dia 18 de junho, Kátia Abreu foi interrompida por Eduardo Girão (Podemos-CE) após ultrapassar o limite de tempo para as perguntas ao ex-chanceler Ernesto Araújo. Na ocasião, a senadora ironizou: "O senhor está gostando da minha fala?".

Senadora Kátia Abreu representando a bancada feminina na CPI da Covid no Senado
Senadora Kátia Abreu representando a bancada feminina na CPI da Covid no Senado. Crédito: Jefferson Rudy

Dois dias depois, quando o ex-ministro da Saúde Pazuello prestava depoimento na CPI,  ele interrompeu a senadora Simone Tebet. Foram tantas as vezes que a parlamentar teve que pedir ao general para deixá-la falar. "Quanto eu tiver que perguntar, eu me dirijo à Vossa Excelência."

Simone Tebet

Senadora pelo Mato Grosso do Sul

"Eu gostaria que o senhor não me interrompesse, porque é uma linha de raciocínio"

A situação vivida pelas senadoras exemplifica o fenômeno chamado de "manterrupting", que no português é traduzido para "homem interrompendo". Isso acontece quando homens cortam as falas das mulheres, impedindo que elas concluam uma frase ou raciocínio. Segundo Luciana Santana, é um fenômeno que reflete as relações de poder estabelecidas na sociedade.

"Isso está inserido em uma cultura machista, de que apenas os homens detêm conhecimento sobre determinados assuntos. Essas interrupções tentam impedir o protagonismo da mulheres e tentam colocá-las em situação inferior. No caso da política, isso limita o exercício parlamentar delas", destacou a cientista.

"AGRESSIVAS"

Uma das formas de reação das mulheres ao "manterrupting" é elevar o tom de voz, ou tentar falar de forma mais assertiva, o que acaba sendo visto como agressividade.

Um exemplo disso aconteceu com a senadora Eliziane Gama durante sessão da CPI no dia 19 de maio. Após dizer que o ex-ministro Eduardo Pazuello mentia na comissão, o presidente Omar Aziz pediu que a parlamentar não fosse agressiva.

Omar Aziz

Senador e presidente da CPI

"Eu queria que vossa excelência pontuasse, mas sem agressão"

A senadora respondeu: "Presidente, eu não sou agressiva. Vossa Excelência sabe que eu não sou agressiva, eu estou sendo enfática apenas", disse Eliziane.

Vários outros parlamentares, incluindo o próprio Aziz, já afirmaram que depoentes estavam mentindo e chegaram até a ameaçá-los de prisão. Ao contrário do que aconteceu com Eliziane Gama, não foi pedido a eles que fossem menos agressivos. 

A VIOLÊNCIA POLÍTICA DE GÊNERO

Os episódios relatados fazem parte de um fenômeno nominado violência política de gênero. O termo ainda é pouco usado, mas refere-se a atitudes e comportamentos violentos que visam a impedir ou dificultar a presença de grupos minoritários em espaços políticos, como é o caso das mulheres.

"A violência sempre foi um elemento presente na vida das mulheres na política. Agora é que a gente nomeia como violência política de gênero para que saia da invisibilidade e a gente possa traçar estratégias para enfrentá-la", afirmou a cientista política Marlise Matos.

Matos pontua que a violência política de gênero é uma reação aos avanços femininos na sociedade e que aumentam à medida que a representatividade das mulheres cresce em espaços de poder.

"Vimos uma escalada desses ataques a partir do momento que mais mulheres ocuparam esses locais, porque a estratégia é impedir que isso aconteça. A violência política de gênero é um mecanismo social de expulsão e contenção ao avanço feminino na política", finalizou.

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