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Cecília Perini, economista
Cecília Perini, economista . Crédito: Acervo pessoal

Mulheres querem espaço na Bolsa e tentam romper rótulo de conservadoras

Com a baixa taxa de juros, a presença feminina quase dobrou desde 2019. Porém, a proporção em relação aos homens segue inalterada desde 2007

Publicado em 30/09/2020 às 10h41
Atualizado em 20/10/2020 às 12h30

Os últimos três anos revelam um aumento da presença feminina na Bolsa de Valores brasileira. Atualmente, há 13.479 capixabas registradas e 742 mil em todo o país, muitas à procura de melhor rentabilidade em um cenário de taxa de juros baixa.

Contudo, a proporção em relação aos homens segue praticamente inalterada desde 2007. A participação delas no mercado de ações tem variado de 22% a 25% e, no Espírito Santo, está em 23% segundo relatório de julho da B3.

Para especialistas, o pouco avanço da participação feminina nesse mercado decorre da falta informação, da dificuldade em encontrar produtos e serviços destinados a elas e a limitações históricas que muitas vezes impedem ou limitam o acesso das mulheres ao controle sobre as próprias finanças.

"Há uma construção cultural histórica. A mulher só pode abrir conta em banco sem autorização do pai ou do marido em 1962. A construção de uma vida financeira é muito recente", avalia a executiva financeira Rebeca Nevares, fundadora do Ella's, agência de investimentos focada em mulheres e no público LGBT e hoje sócia da Monte Bravo Investimentos.

Essa também é a opinião da assessora de investimentos da Valor Daniela Cade. Ela aponta que, enquanto meninos são com frequência incluídos em conversas sobre dinheiro e investimentos, é deixado para as meninas os assuntos sobre filhos e casamento. Isso cria uma barreira na vida adulta que pode ser difícil de romper.

Imagens Economia: Orçamento, finanças pessoais, investimento
Mulheres se preocupam com as finanças e com as economias da família. Crédito: Yeko Photo Studio

"Muitas mulheres têm dificuldade ate hoje. Historicamente o pilar financeiro era o homem. E se acontece alguma coisa e ele falta, muitas não sabem sequer lidar com o banco. Imagina investimento em Bolsa, que é um pouco mais complexo", diz.

A baixa histórica da taxa Selic, atualmente em 2%, provocou uma corrida dos investidores ao mercado de ações. O número de pessoas físicas investindo na Bolsa de Valores brasileira praticamente dobrou desde 2019. Isso fez aumentar o número de homens e de mulheres registrados na B3.

Esse crescimento foi percebido pela consultora financeira e economista Cecilia Perini. Ela aponta que o fato de as mulheres estarem conquistando mais espaço no mercado de trabalho, principalmente em cargos com melhor remuneração, favorece esse aumento. Isso porque o mercado de ações, em geral, é destinado a pessoas que já têm outras reservas financeiras, já que há risco envolvido.

"O crescimento da presença feminina acompanha o movimento do mercado. Mas ainda é muito novo a mulher se consolidar no mercado e ter reservas. Por isso ela quer guardar. Homens já têm remunerações maiores, e estão mais propensos a abraçar esse risco", diz.

É preciso considerar que, mesmo em posições mais altas, a diferença de remuneração entre homens e mulheres ainda é grande. Segundo dados do Caged de 2019, entre as dez carreiras de ensino superior com maior geração de postos de trabalho, as mulheres recebem, em média, salários menores em sete delas.

Considerando todas as profissões, elas ganham 22% a menos. Entre os trabalhadores com ensino superior, a diferença é ainda maior, chegando a 38%.

Além disso, as especialistas apontam que a forma de investir também não é a mesma entre homens e mulheres. A diferença vai além dos perfis conservador, moderado ou arrojado, avaliados pelos bancos e corretoras para definir as aplicações mais adequadas para cada pessoa.

A escolha de como e onde investir, no caso das mulheres, também tem relação com seus objetivos de vida, motivações e até com a maneira as instituições "vendem" os produtos.

"Não tem isso que a mulher é conservadora. Ela é mais estrategista. Ela quer investir para deixar um legado para minha família, pensa mais em médio e longo prazo, no contexto social dela, nos filhos. Por isso ela quer estudar mais, tomar decisão um pouco mais embasada e demora a dar o primeiro passo", explica Rebeca.

Ela conta que, enquanto homens aplicam dinheiro em renda variável poucos dias após abrirem a conta na corretora de valores, as mulheres demoram semanas e até meses para começar a investir.

"Tem ainda o fato de que quando a mulher investe, ela pergunta o que o dinheiro dela esta nutrindo. Ela quer saber o que a empresa fez. Aquele fundo imobiliário desapropriou quantas famílias? Quer saber o impacto social daquele investimento. Homens não costumam pensar nisso, tem o pensamento mais voltado para a rentabilidade", analisa.

Cecília aponta que a maneira como assessores e gerentes apresentam esse tipo de investimento também pode fazer diferença.

"O fato de estar na Bolsa é muito influenciado por quem assessora. Quando a gente assessora, costuma colocar no primeiro momento uma experiência num fundo de ações, para que ela aprenda a lidar com as oscilações do mercado", diz.

As especialistas defendem que haja uma abordagem diferenciada, que considere todas essas particularidades das investidoras.

"O mercado é gigante, é fundo para todo lado. A mulher precisa de ajuda, mas quando vai procurar, o assessor de investimento é um homem perguntando quanto ela quer ganhar. Está faltando falar a língua das mulheres", afirma Rebeca.

"SEJA BEM ASSESSORADA E NÃO SE DESESPERE"

A empresária Monique Carone, de 32 anos, rompeu a barreira e começou a investir no mercado de ações há cerca de seis anos, inicialmente, com apenas 5% do valor que tinha disponível. Desde 2018, ela vem ampliando esse montante a medida que se informa e fica mais confiante.

"Apesar de eu ter feito faculdade de Economia eu não tinha muito conhecimento sobre o mercado de ações. Comecei por influência do meu pai e do meu primo, que trabalham comigo. Hoje me sinto mais segura e, de dois anos pra cá, comecei a investir mais fortemente. Com essa queda de juros esse é o caminho para quem quer um rendimento maior", afirma.

Contudo, Monique afirma que não costuma encontrar outras mulheres para conversar sobre o assunto. Nem mesmo entre o círculo de colegas que se formaram na faculdade de Economia.

"Acho que tem a ver com a gente vir de um país de juros altos, mas também por uma cultura da mulher não ser muito ligada a essa parte de investimentos, às vezes deixa para o marido tomar decisões".

Monique aconselha às mulheres que estão pensando em investir na Bolsa, que procurem uma boa assessoria, estudem o assunto (mas não precisa ser expert!) e que mantenham o sangue-frio.

"É importante não se desesperar quando alguma coisa acontecer, como tivemos agora na pandemia. Eu faço investimentos de longo prazo e, assim, não é tão arriscado. Os ganhos e as perdas vão acumulando ao longo do tempo e tendem a se reequilibrar", diz.

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