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Câncer de colo do útero: os sinais da doença que mata 20 mulheres ao dia

A prevenção se apoia em dois pilares principais: vacinação e rastreamento. A vacina contra o HPV, disponível gratuitamente no SUS para meninas e meninos, protege contra os principais tipos virais associados ao câncer

Publicado em 05 de Março de 2026 às 09:01

Guilherme Sillva

Publicado em 

05 mar 2026 às 09:01
Mulher com dor na região da pelve
O câncer de colo do útero é o tipo de câncer que mais mata mulheres até os 35 anos no Brasil Crédito: Shutterstock/ S K TU MAI
O câncer de colo do útero, também chamado de câncer cervical, é um tumor maligno que se desenvolve na parte inferior do útero, aquela que se conecta com a vagina. Na maioria dos casos, ele é causado por uma infecção persistente por alguns tipos do Papilomavírus Humano (HPV). Esse tipo de câncer se desenvolve na região inferior do útero, conhecida como colo do útero, que conecta o corpo do útero à vagina.
Ele é o tipo de câncer que mais mata mulheres até os 35 anos no Brasil e o segundo mais letal entre aquelas com até 60 anos, sendo que cerca de 20 mulheres morrem todos os dias em decorrência da doença. Março é o mês dedicado a conscientização da doença e neste ano, a atriz Juliana Paes é a embaixadora da campanha “Por um Futuro Sem Câncer de Colo do Útero”, que tem como foco a prevenção contra o HPV e o câncer de colo do útero, e que foi lançada em São Paulo na última semana de fevereiro. 
O INCA projeta mais de 19 mil novos casos no país anualmente, sendo o terceiro tipo de câncer mais incidente entre as mulheres de maneira geral. Esses números são a previsão do instituto para o triênio de 2026 a 2028. "A gente precisa da prevenção primária, que é através da vacina e também melhorar a prevenção secundária, através dos exames de rastreamento. Eles precisam ser implementados de forma que a mulher tenha uma continuidade do atendimento", diz a oncologista Rachel Cossetti.

ENTENDA OS SINAIS 

Sangramento vaginal anormal, dor durante o ato sexual, sangramento após o ato sexual, corrimento, dor, surgimento de ferida, ou qualquer novo sintoma que perdure por duas semanas ou mais deve investigado. "O ideal é realizar o exame de rastreamento independente de qualquer sinal ou sintoma", reforça a oncologista Rachel Cossetti. 
Rachel Cossetti, oncologista
A oncologista Rachel Cossetti explica os principais sinais da doença Crédito: Reprodução @Rachelcossetti
A mulher com 25 anos ou mais e que já teve relação sexual, tem que realizar o exame preventivo ginecológico. O vírus pode estar totalmente assintomático
Rachel Cossetti - Oncologista

Os sintomas da doença

Sangramento durante ou após a relação sexual;

Sangramento entre as menstruações;

Sangramento depois da menopausa;

Dor durante a relação sexual;

Corrimento vaginal com sangue ou com mau cheiro.

Nos casos mais avançados, podem aparecer outros sintomas, como: dor na região da pelve ou na parte baixa das costas; Cansaço intenso; Problemas nos rins; Inchaço e dor nas pernas.

Um dos maiores desafios é que a doença costuma evoluir sem sinais evidentes nas fases iniciais. É um tumor que pode permanecer assintomático por muito tempo. "O câncer de colo do útero pode levar décadas para se manifestar após a infecção por HPV e a vacinação é uma das formas mais eficazes de prevenção ao vírus. É essencial combinar vacinação com exames de rotina e tratamento adequado de lesões pré‑cancerígenas para a erradicação da doença", afirma Márcia Datz Abadi, diretora médica da MSD no Brasil.
A oncologista Michelle Samora, do Hcor, também diz que esse é um tumor que pode permanecer assintomático por muito tempo. "Quando surgem sintomas, como sangramento fora do período menstrual, sangramento após a relação sexual ou corrimento persistente, muitas vezes a doença já está em estágio mais avançado”.
Para a médica, o cenário brasileiro revela uma contradição preocupante. “Estamos falando de um câncer que tem vacina e métodos eficazes de detecção precoce. Ainda assim, ele continua afetando mulheres em idade produtiva. Isso mostra que o desafio hoje não é falta de tecnologia, mas garantir acesso consistente à prevenção e ao diagnóstico”, afirma.
Tradicionalmente, o rastreamento era feito por meio do exame citopatológico, conhecido como Papanicolau. No entanto, evidências científicas recentes apontam que o teste molecular para detecção do HPV é mais sensível para identificar mulheres em risco, permitindo intervalos maiores entre os exames quando o resultado é negativo. Países que migraram para o teste de HPV como método primário de rastreamento já observam redução mais acelerada na incidência da doença.
O teste de DNA HPV é a tecnologia mais moderna para prevenir o câncer de colo do útero. Ele representa uma mudança histórica no Brasil: desde 2025, o Ministério da Saúde iniciou a substituição gradual do Papanicolau por este novo exame no SUS. Enquanto o Papanicolau busca lesões nas células, o teste de DNA busca a presença do vírus.

Vacinação é estratégia para eliminar o câncer

Estima-se que 8 a cada 10 pessoas sexualmente ativas terão contato com um ou mais tipos do vírus durante a vida. O preservativo não previne 100% o contágio, pois o vírus é transmitido pelo contato direto entre pele e mucosas, inclusive em áreas não cobertas pela camisinha, por isso a vacinação é importante estratégia de prevenção. A vacinação está disponível nas redes pública e privada. 

Quem pode tomar a vacina

No Sistema Único de Saúde (SUS) a vacina quadrivalente está disponível para:

- meninas e meninos de 9 a 14 anos, com um catch-up temporário dos 15 aos 19 anos; 

- pessoas vivendo com HIV/Aids até 45 anos; 

- pacientes transplantados de órgãos sólidos e de medula óssea até 45 anos; 

- usuários de PrEP de 15 a 45 anos; 

- vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos; 

- pacientes oncológicos até 45 anos.

Na rede privada, há ainda a disponibilidade da vacina nonavalente, para homens e mulheres entre 9 e 45 anos.

A prevenção se apoia em dois pilares principais: vacinação e rastreamento. A ginecologista Susana Aidê, presidente da Comissão Nacional Especializada em Vacinas (CNE) da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), ressalta que a vacina está disponível no Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2014 e protege contra os principais tipos virais associados ao câncer. "Os dados mostram um pequeno aumento da cobertura vacinal, que ainda não é o ideal, que é acima de 90%. É uma realidade que precisamos mudar", diz. 
A médica alerta que não é apenas a vacinação que pode acabar com câncer de colo de útero. "Temos que ter a vacinação com alta cobertura vacinal, mulheres na idade adequada fazendo o rastreio de lesões, além de diagnóstico e tratamentos adequados", diz Susana Aidê.  

Tratamento

No campo do tratamento, os avanços também são relevantes e têm permitido abordagens cada vez mais individualizadas. Além da cirurgia, da radioterapia e quimioterapia, que continuam sendo pilares no tratamento do câncer do colo do útero, contamos com terapias mais modernas como a imunoterapia, que estimula o próprio sistema imunológico da paciente a reconhecer e combater as células tumorais e medicamentos que funcionam como uma espécie de “entrega direcionada” de quimioterapia, buscando maior precisão e menor impacto em tecidos saudáveis.
“Temos ferramentas eficazes para reduzir drasticamente a incidência e a mortalidade por esse câncer nas próximas décadas. O que precisamos é ampliar a cobertura vacinal, fortalecer o rastreamento e garantir que o tratamento seja iniciado no tempo adequado. A eliminação do câncer de colo do útero como problema de saúde pública é possível, mas depende de compromisso contínuo”, diz Michelle Samora. 
*O repórter viajou a convite da MSD Brasil

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