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Adeus, mesões! Como serão os escritórios após a pandemia de Covid-19

Arquitetos preveem a volta das divisórias entre as mesas. Esqueça a cafeteira compartilhada. Veja o que as empresas  deverão adotar para oferecer um local de trabalho à prova de vírus, e agradável

Publicado em 27/05/2020 às 16h04
A imobiliária Cushman & Wakefield criou o conceito Six Feet Office em seu escritório em Amsterdã, com mais espaço e novas linguagens gráficas para marcar o distanciamento
A imobiliária Cushman & Wakefield criou o conceito Six Feet Office em seu escritório em Amsterdã, com mais espaço e novas linguagens gráficas para marcar o distanciamento. Crédito: Cushman & Wakefield/Divulgação

Para muita gente, o home office veio para ficar. Mas quem tiver que voltar para o escritório quando a pandemia acabar vai encontrar um ambiente bem diferente do de antes. As empresas já estão reformulando seus espaços para torná-los seguros do ponto de vista sanitário, ou seja, “à prova de coronavírus”.

Prepare-se para muitas mudanças. Em princípio, pode parecer estranho ver os colegas todos de máscara, separados por divisórias e evitando contato físico - esqueça abraços, apertos de mão, festinhas. Como num filme de ficção científica, aparelhos vão medir a temperatura corporal de quem entrar no prédio e sensores e aplicativos vão alertar sobre a aproximação de outras pessoas. Portas vão se abrir automaticamente ou por comando de voz.

O “novo normal” do mundo corporativo pede esses cuidados. Mas não ficará só nisso.

Alguns locais sofrerão adequações de layout para permitir a acomodação de uma capacidade menor de funcionários (já que talvez uma maioria continue trabalhando de casa), mais ventilação, criação de áreas de convivência ao ar livre. Só para citar alguns exemplos.

Futuras construções já virão com uma nova concepção arquitetônica. A empresa imobiliária internacional Cushman & Wakefield, com sede na Holanda, criou um protótipo de escritório com um conceito de design chamado de “Six Feet Office”. Assim, as mesas receberiam demarcações no piso, obedecendo à “regra dos seis pés” do distanciamento social, recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Desinfecção

A companhia elaborou um guia de instruções para reabertura do local de trabalho, que prevê, entre centenas de outros protocolos, a adoção de mobiliário com material de fácil desinfecção e que não se degradem com os produtos de limpeza. “Remova as cadeiras estofadas em tecido ou considere cobrir o estofamento de tecido com filme plástico para facilitar a limpeza”, sugere o documento.

Um documento de 30 páginas da multinacional americana Steelcase recomenda, entre outras coisas, que as companhias deverão instalar sensores para reduzir o toque e para medir diferentes aspectos do bem-estar, possivelmente incluindo comportamentos ou ações que indicam doenças.

Priscilla Loureiro, arquiteta e urbanista doutoranda da USP, professora da Universidade Vila Velha, destaca que a pandemia não decretou o fim dos escritórios.

“A primeira coisa que as pessoas imaginam é que os escritórios vão praticamente perder o sentido, diminuir em termos de área, até que daqui a pouco não valha a pena construir sala comercial, ter espaços corporativos. Na minha visão isso não vai acontecer. Esses espaços permitem interação, colaboração, processo imersivo na discussão dos problemas, conversas informais. Quando você não tem isso você perde muito em eficiência, na tomada de decisões, por exemplo”, analisa.

Distância: 2 metros

Para a professora, há, no entanto, a necessidade de um novo layout. “Dos anos 1990 para cá, a gente viu uma maior integração dos ambientes de trabalho, com salões abertos, não tão compartimentados. Isso aconteceu em vários países, no Brasil também. Surgiram estações lineares, em que as pessoas ficavam separadas por um metro de distância, um computador ao lado do outro. Uma mesona única de trabalho. Isso não vai ser mais possível. A distância vai ter que ser de dois metros, mais significativa para manter a segurança. E talvez, para isso, a solução seja voltar com as estações celulares, com barreiras pequenas delineando o espaço de cada um. Não são cubículos fechados de forma alguma!”.

Isso já está acontecendo no retorno ao trabalho em países europeus e na China, segundo ela. “Lá se trabalhava, originalmente, com uma configuração de uma pessoa a cada cinco metros quadrados. E agora, está se cogitando uma pessoa a cada 10 metros quadrados corporativos. É um salto enorme! O dobro de distância.A demanda especial será maior. Mas isso não significa crescer os espaços dos escritórios, porque o home office passará a ser uma realidade. As pessoas podem trabalhar por escalas, em horários diferentes”.

Isso exigirá, diz Priscilla, uma mudança de comportamento também. “Aí entra uma questão de higiene importante, porque as pessoas vão compartilhar estações de trabalho. Na mesma mesa se sentarão pessoas diferentes em horários diferentes. Cada funcionário pode ter seu kit de limpeza, por exemplo”.

Para a arquiteta e professora universitária Angela Gomes, a pandemia do novo coronavírus leva à reinvenção dos ambientes corporativos. Segundo ela, não necessariamente o futuro será de planos fechados, mas a densidade nos escritórios será alterada. “Para se adequarem aos novos protocolos para compartilhamento dos espaços, algumas empresas terão de fazer pequenos ajustes em busca de postos de trabalho seguros, enquanto outras precisarão de uma repaginada geral, que resulte em mais eficiência, criatividade, inovação e, por que não?, mais felicidade”, afirma.

Angela também acredita que a questão sanitária irá impor, já a curto prazo, o esvaziamento dos escritórios. “A densidade de ocupação vai ser reduzida, num primeiro momento por questão sanitária, a dois metros entre funcionários. Claro que há variações em função de cada tipo de empresa. Mas isso dá um presencial médio de 50% na empresa para manter esses 2 metros de distância. Vai ser preciso manter equipes remotamente e algumas no modelo presencial”.

Bem-estar

As empresas, observa Angela, vão ter que seguir regras sanitárias, mas também terão que se preocupar com o bem-estar dos empregados.

“As mudanças na estrutura física não precisam deixar o local com cara de hospital. Tem que ter humanização, mesmo com todas as novas normas. Haverá um maior cuidado com a higiene, mas isso tem que ser feito sem um peso enorme, incorporado como uma questão de educação. É difícil, mas não precisa ser um sofrimento. É importante pensar na saúde mental, reduzir o estresse, para que as pessoas possam produzir no trabalho de forma qualitativa. Elas não podem trabalhar tensas, preocupadas, paranoicas”, comenta.

Veja algumas das mudanças

  1. 01

    Regras sanitárias rígidas

    O uso de máscara pode ser obrigatório. Aparelhos que medem temperatura corporal na entrada dos prédios. Novas rotinas de higienização geral nos ambientes, como limpeza de ar-condicionado, banheiros, copas. Móveis com materiais de acabamento impermeável devem possibilitar a desinfecção sem que se estraguem. Totens e dispositivos com álcool em gel na recepção, acessos a salas, elevadores, copas e outros ambientes

  2. 02

    Menos gente, mais espaço

    Há protocolos já que estabelecem que haja pelo menos 2 metros de distância entre as pessoas no local de trabalho, o que significa, em média, redução de 50% na densidade de pessoas nos ambientes, que se tornam “corona safe”, ou seja, “à prova de vírus”. Recomenda-se a adoção do trabalho remoto para funcionários não essenciais, a fim de reduzir a densidade de pessoal.

  3. 03

    Distanciamento monitorado

    Uso de sensores e aplicativos para monitorar as distâncias entre as pessoas, com alertas em caso de aproximação inadequada. Contadores/painéis de contagem em tempo real nas entradas indicando o número de pessoas presentes na empresa. Reuniões de equipe numerosas passam a ser por videoconferência em vez de presenciais

  4. 04

    Novo mobiliário

    Será necessário rever o layout dos postos de trabalho, seja intercalando as pessoas seja reposicionando o mobiliário, complementado com o uso de programação visual: sinalizando pisos e paredes para marcar o distanciamento físico. Também deverão ser adotados biombos ou paineis móveis que funcionem tanto para separar um posto de trabalho quanto para elemento de suporte para escrita, como painéis digitais

  5. 05

    Cuidados pessoais

    Funcionários terão seu próprio kit de higiene, já que sua mesa de trabalho poderá ser compartilhada com outra pessoas em outro horário de expediente. A recomendação também é para uso de lockers para guarda de objetos pessoais, evitando que fiquem sobre a mesa de trabalho e sirvam de foco de contaminação

  6. 06

    Interação sim

    Os espaços de uso comum, como áreas de espera, podem ser reduzidas ou vão se transformar. Sofás podem dar lugar a poltronas individuais. salas de jogos, espaços de relaxamento, cantinas, não devem desaparecer. Eles são importantes para que as pessoas possam interagir, conversar à toa ou fazer reuniões informais, além de trazerem bem-estar psicológico. Mas as regras de utilização devem ser alteradas, possibilitando uma presença menor por vez. As pessoas serão incentivadas a levar sua refeição ou seu lanche de casa, para comer individualmente. Cafeteira de uso compartilhado pode cair em desuso. Já há uma valorização de áreas externas, como varandas, mais vegetação, para tornar o ambiente mais agradável, humanizado

  7. 07

    "Escritórios inteligentes"

    Entra em ação o “escritório inteligente”. Tudo automatizado, principalmente pontos de contato frequentes, como portas e elevadores. O acesso a salas será por meio de QR Code, leitura facial, de íris ou por comando de voz, de modo a evitar o toque nas superfícies. Nos banheiros, lixeiras menores para permitir a troca do lixo com frequência maior, além de válvulas, saboneteiras e torneiras automatizadas. Mais equipamentos para videoconferências

  8. 08

    Qualidade do ar

    Edifícios com corredores mais amplos e iluminados. Ambientes bem ventilados, com janelões, que possibilitem troca de ar e com ventilação cruzada. Menos uso de ar-condicionado.

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