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Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte nas ruas de Vitória em meio a pandemia. Coronavírus trouxe novos hábitos que devem permanecer na nossa sociedade
Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte nas ruas de Vitória em meio a pandemia. Coronavírus trouxe novos hábitos que devem permanecer na nossa sociedade. Crédito: Vitor Jubini

Coronavírus trouxe mudanças profundas na sociedade. E elas vieram para ficar

Um inimigo invisível, mas poderoso  levou a transformações imprevisíveis na economia, no trabalho, na política e nas relações sociais. Estamos vendo a história ser reescrita e os especialistas alertam: o mundo pós-pandemia não será mais o mesmo

Publicado em 02/05/2020 às 08h27
Atualizado em 03/05/2020 às 14h37

Do comércio da esquina às grandes corporações. Do trânsito para ir ao trabalho às viagens a negócios. Do encontro com amigos às lives de artistas famosos. De fato, o coronavírus chegou para alterar a forma como conhecemos a sociedade. De acordo com especialistas, essas mudanças deverão acontecer no campo dos negócios, dos empregos, dos relacionamentos interpessoais, na forma como enxergamos o papel do Estado.

Representantes de vários países e pesquisadores da área da saúde ainda debatem quando estaremos livres dos riscos da Covid-19. Porém, é quase um consenso de que a realidade pós-coronavírus deverá ser bastante diferente. Há até quem defenda que o coronavírus pode dar início a uma nova ordem mundial – alterando os modelos econômicos e políticos, as formas de trabalho, a interação entre as pessoas e a forma como vemos o planeta.

Segundo o economista e professor da Universidade de Brasília José Luís Oreiro, é como se a história estivesse sendo escrita neste momento e as mudanças sendo observadas por todos. “Mesmo depois que a pandemia passar o mundo não terá o mesmo aspecto. Uma série de fatores que conhecemos atualmente vão se alterar. Vai ser uma mudança de paradigma”, acredita Oreiro.

É o que pensa também o professor universitário Rafael Simões, doutorando no Programa de História Social das Relações Políticas, pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ele afirma que o novo contexto provocou uma reconfiguração nos planos dos governos, com a maior presença do poder público. Isso deve permanecer não só no Brasil, mas também em outros países de economia de mercado.

Muros e máscaras - Cópia

Vitória - ES - Ensaio: Muros e máscaras. Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte na cidade em meio a pandemia de coronavírus.
Vitória - ES - Ensaio: Muros e máscaras. Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte na cidade em meio a pandemia de coronavírus. Vitor Jubini
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Vitória - ES - Ensaio: Muros e máscaras. Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte na cidade em meio a pandemia de coronavírus. Vitor Jubini
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Vitória - ES - Ensaio: Muros e máscaras. Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte na cidade em meio a pandemia de coronavírus.
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Vitória - ES - Ensaio: Muros e máscaras. Registros mostram a interação entre entre rostos cobertos com máscaras e arte na cidade em meio a pandemia de coronavírus.

A tendência, segundo ele, é o enfraquecimento do neoliberalismo (Estado mínimo), o que vai exigir mais investimentos públicos, não só em infraestrutura, mas também em áreas da saúde, educação e no combate às desigualdades.

Um exemplo disso é o debate no país sobre a retomada de obras públicas, por meio do programa Pró-Brasil. O projeto divide opiniões e levanta a possibilidade uma trajetória econômica diferente da planejada por este governo: de uma linha liberal para uma desenvolvimentista. Mas os novos rumos vão além das ações discutidas em Brasília para o pós-pandemia.

Algumas dessas mudanças de padrão ganharam vida com a quarentena e devem se perpetuar nos negócios e no dia a dia das famílias. No Espírito Santo, por exemplo, o comércio já não funciona de forma regular desde o dia 20 de março, as pessoas estão mais preocupadas com higiene e o distanciamento social já é uma realidade.

O coronavírus fez acelerar transformações que iam se concretizar no futuro, criando um “novo normal”. “O home office é um exemplo, as aulas e conferências pela internet são outros, a utilização do comércio virtual por negócios que até então não estavam na internet… Então, são atividades que nós já conhecíamos, mas que tiveram sua implementação adiantada por conta do isolamento social”, avalia o economista e pesquisador do FGV/Ibre Rodolpho Tobler.

Muitas dessas alterações, por já estarem evoluindo ao longo do tempo, não deverão ficar para trás depois que a pandemia passar. “A questão é saber o quanto a gente está preparado para seguir caminhando nesta direção. Por conta da pandemia todas as mudanças foram, de certa forma, impostas para a sociedade”, acrescenta Tobler ao falar que uma delas foi a implementação do ensino on-line nas escolas públicas e particulares.

Rodolpho Tobler

Economista e pesquisador do FGV/Ibre

"Educação a distância, por exemplo, já existia e ganhou força com o isolamento social. Mas será que estamos preparados para só ter aula virtual? Nesse primeiro momento é possível que ela seja para poucos, mas o assunto já começa a entrar na cabeça das pessoas"
Ilustração para matéria: Pós-coronavírus será de mudanças profundas nos empregos, nas relações sociais e na política
Pós-coronavírus será de mudanças profundas nos empregos, nas relações sociais e na política. Crédito: Amarildo

FORMAS DE TRABALHO

O pesquisador do Laboratório do Futuro da Coppe/UFRJ Yuri Lima estuda a evolução do trabalho e a relação com a tecnologia há seis anos. Ele concorda que o coronavírus mudou o ritmo de inovações no ambiente profissional. Segundo ele, uma das maiores transformações podem ser vistas com o teletrabalho.

De acordo com Lima, o trabalho em casa tem dois lados – como quase tudo na vida. Entre os pontos positivos estão o fim do tempo de deslocamento casa-trabalho/trabalho-casa e a possibilidade de aumento da produtividade. Já como pontos negativos estão a possível demora para a adaptação do empregado ao novo ambiente e a diferença de organização, que também pode ser um fator importante.

“O home office mais amplo, como estamos vendo hoje, ainda demoraria algum tempo para se estabelecer, mas isso veio para ficar. Em questão de semanas avançamos o que era esperado para evoluirmos em anos. Infelizmente ele precisou ser implantado de forma atropelada, porque não é uma mudança muito simples de ser feita”, avalia o pesquisador.

Com essa nova organização imposta pela pandemia, muitos profissionais que acabaram indo para o teletrabalho nem devem voltar aos escritórios. Algumas empresas já perceberam as vantagens como a redução de custos e até aumento da produtividade dos empregados.

As startups do ramo de alimentação Shipp e Zaitt, que fazem parte do grupo Sapore, são exemplos de empresas que devem continuar com o teletrabalho mesmo após o coronavírus, segundo o presidente das companhias, Rodrigo Miranda. “Isso que estamos vivendo ainda é a ponta do iceberg. Muita coisa ainda vai mudar. Muito possivelmente as empresas vão adotar um modelo de trabalho que conte mais a produção dos colaboradores do que as horas que eles passam na empresa. Nós deveremos ter um modelo híbrido, no qual a pessoa trabalha de casa uma ou duas vezes por semana”, antecipa.

Outra que tem aderido ao home office e acredita que deve manter é a Soma Urbanismo, segundo o diretor de Inovação e Tecnologia da empresa, que sempre foi tradicional e acreditava que o teletrabalho era uma opção para empresas mais voltadas para a tecnologia.

“Como precisamos implantar o home office, vivemos uma ruptura. Com exceção de quem trabalha nas obras, todos os demais colaboradores estão em casa e tem sido uma surpresa sensacional”, conta Flávio Aguilar. “A gente constatou que a produtividade se manteve e o nível de satisfação dos colaboradores está lá em cima”, acrescenta o diretor, destacando que a empresa estuda manter, de alguma maneira, essa forma de trabalho.

Flávio Aguilar, diretor de Inovação e Tecnologia da Soma Urbanismo
Flávio Aguilar, diretor de Inovação e Tecnologia da Soma Urbanismo, fazendo home office. Crédito: Divulgação

“Estamos desenhando um formato em que os trabalhadores tenham flexibilidade. Se a pessoa preferir, ela pode ir para o escritório, ou trabalhar de casa. E acreditamos que passada a pandemia, o home office pode ficar ainda melhor, já que a rotina das pessoas deve voltar ao normal”, diz o diretor da Soma Urbanismo.

“Um marco para vermos que essa forma de trabalho realmente funciona foi quando conseguimos reunir toda a diretoria da empresa, depois fazer uma reunião geral da empresa e o resultado foi tão bom quanto o de um encontro presencial”, conclui.

Se o home office evoluiu consideravelmente nas últimas semanas, um desenvolvimento ainda maior deverá ser observado no ramo da automação nos próximos anos, garante Yuri Lima.

“A gente considerava a evolução da automação num período de 10, 20, até 30 anos. Mas com o coronavírus forçando uma maior distância entre os empregados nas indústrias, essa evolução deverá ser bem mais rápida. Acredito que possamos ter um avanço que seria esperado em 10 anos em menos de 3 anos”, opina.

Segundo ele, nos próximos meses deverão ser registrados grandes avanços nas áreas de robótica, inteligência artificial, automação empresarial, entre outras.

Yuri Lima

Pesquisador do Laboratório do Futuro da Coppe/UFRJ

" Se a gente observar as áreas de saúde, varejo, educação, por exemplo, tudo isso terá automação em maior ou menor grau. E essa automação poderá ser tanto substitutiva – para fazer o mesmo trabalho de um empregado – quanto auxiliar, que é quando a máquina faz o trabalho repetitivo enquanto a pessoa fica livre para outra atividade mais complexa"

É possível até que as mudanças provocadas pelo coronavírus antecipem a 4ª Revolução Industrial, com a maior utilização de máquinas nas indústrias e serviços. Já existem registros, por exemplo, do desenvolvimento de robôs enfermeiros – algo muito propício num período em que profissionais da saúde são infectados pela Covid-19.

PERDAS E GANHOS

O isolamento social provocado pelo coronavírus atingiu de forma impactante diversos setores. Um dos mais afetados foi o turismo – tanto o voltado para negócios quanto o voltado para o lazer. Mas depois que a pandemia passar a expectativa é que o comércio de lazer, aos poucos, retome suas atividades normais.

Já para o turismo de negócios, a perspectiva pode não ser tão boa, segundo o especialista em inovação no trabalho, Yuri Lima. “Há algum tempo já se discute a redução das viagens para reuniões e até conferências acadêmicas. O debate era em torno da sustentabilidade ambiental, mas estamos vendo também os impactos financeiros. É possível que se reduzam as viagens de negócios e grandes empresas já estão aceitando”, avalia Lima.

Exemplo disso é o advogado Alexandre Dalla Bernardina. Ele destaca que tem feito reuniões com juízes de outros Estados pela internet. “Utilizando a internet a gente tem conseguido conversar com os juízes de forma muito mais rápida. Recentemente fiz uma videochamada com um desembargador de São Paulo e, em meia hora, estava tudo resolvido. Se fosse presencial, eu teria perdido um dia de trabalho para ter este encontro presencialmente”, conta o advogado.

Se por um lado há perda com a redução de viagens, por outro há ganho com o desenvolvimento de ferramentas tecnológicas. Tal desenvolvimento, segundo o pesquisador do Laboratório do Futuro, será maior nas áreas de robótica, automação para indústrias e serviços e internet das coisas.

“As tendências que estão sendo colocadas não vão ficar só para esse período. Ao longo do tempo devemos passar por vários períodos de quarentena. É de se imaginar que as empresas percebam a relevância dessas mudanças e passem a investir mais nelas”, conclui Yuri Lima.

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