Se Bolsonaro não mudar postura, relação com EUA deve ser conflituosa

O presidente Joe Biden tem uma agenda política oposta aos interesses de Jair Bolsonaro, principalmente em relação à questão ambiental. Relação diplomática muda e deixa de ser baseada em proximidade ideológica

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 20/01/2021 às 21h52
Evento da Aeronáutica
Jair Bolsonaro (sem partido) fez um post nas redes sociais cumprimentando Joe Biden pela posse como presidente dos Estados Unidos. Crédito: Alan Santos

A posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, nesta quarta-feira (20), marca o início de uma nova era no governo americano, mas também das relações multilaterais entre países. E, no que se diz respeito ao Brasil, essa relação já mudou.

Com a saída de Donald Trump, o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) perde seu principal aliado internacional e inicia um relacionamento conflituoso com Biden, cuja agenda política se opõe aos interesses do capitão, sobretudo em relação à questão ambiental.

Na opinião de especialistas, a diplomacia entre os dois países, que nos últimos  anos foi baseada em interesses pessoais e ideológicos, não será mais a mesma. A forma como ela vai ser conduzida, no entanto, depende da postura de Bolsonaro. Ele pode se ajustar a este novo panorama político, comandado por Biden, ou se recusar a fazer isso e manter o Brasil ainda mais isolado no cenário mundial.

Bolsonaro foi um dos últimos presidentes a reconhecer a vitória de Biden nas urnas. Por diversas vezes afirmou, sem provas, que as eleições americanas haviam sido fraudadas, encampando o discurso do agora ex-presidente Donald Trump, que não aceitou a derrota e incitou apoiadores a ir ao Congresso americano, o que resultou em invasão e num rastro de cinco mortes.

Ainda durante a campanha eleitoral de Biden, respondendo a uma crítica do democrata sobre a devastação ambiental na Amazônia, Bolsonaro chegou a dizer que "quando acabar a saliva, tem que ter pólvora", uma insinuação de conflito militar com a maior potência militar do mundo.

"O Brasil inicia essa relação com o novo governo americano de forma bem negativa, com um presidente que deslegitimou a vitória de outro, que faz um discurso negacionista e vai de encontro à política americana. Nesse primeiro momento, pelo menos nos próximos seis meses, as relações entre Brasil e Estados Unidos vão passar por um profundo estresse”, analisa o professor e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Oxford Vinícius Rodrigues Vieira.

Na tarde desta quarta-feira, Bolsonaro fez um aceno a Joe Biden. Bolsonaro cumprimentou, pelas redes sociais, o presidente americano recém-empossado e desejou êxito ao novo governo. Ele também disse que vê um futuro de parceria "excelente" entre os dois países.

Para o professor de Relações Internacionais na UERJ Maurício Santoro,  é improvável que seja estabelecida uma "parceria excelente" entre os países. Isso porque, nos últimos anos, a relações diplomáticas com os Estados Unidos foram baseadas em relações pessoais e ideológicas com Trump.

"A política externa do Brasil, com Bolsonaro à frente, procurou uma relação com Trump, não com os Estados Unidos. A relação entre países ficou em segundo plano. O Trump foi um modelo político para Bolsonaro, uma referência para ele, quase um mentor na forma de fazer política", comenta. 

Agora, contudo, isso mudou. Além de não existir uma identificação ideológica entre Bolsonaro e Biden, o presidente dos Estados Unidos defende pautas que vão forçar uma nova postura do Brasil e pretende ser firme nisso. 

Na campanha eleitoral, o democrata já havia deixado claro que o Brasil enfrentaria consequências econômicas caso não agisse contra o desmatamento na Amazônia. Ele também anunciou o retorno dos EUA a organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), criticada e descredibilizada tanto por Trump quanto por Bolsonaro. 

"A questão ambiental tende a ser mais espinhosa para o Brasil. Podemos esperar pressões do governo americano com relação à Amazônia e isso pode implicar na questão comercial, onde a gente tem potencial de melhorias com os Estados Unidos no governo Biden, pelo fato de ele não incorporar um nacionalismo econômico que se via no Trump", analisa o coordenador do curso de Relações Internacionais da UVV, Daniel Duarte Carvalho.

"Essas duas questões estão ligadas. Se o Brasil não se ajustar em um campo, pode acabar se prejudicando no outro. O governo brasileiro vai ter que se adequar à politica externa se não quiser enfrentar retaliações comerciais. Por questões de sobrevivência, Bolsonaro vai ter que pensar em como reconstruir pontes e o relacionamento com os Estados Unidos", destaca. 

Reconstruir esse relacionamento vai ser um desafio e levará tempo, segundo Carvalho. E requer, principalmente, a troca daqueles que hoje estão à frente dessas relações diplomáticas.

"É momento de fazer uma correção de rumos na política externa e olhar com mais atenção aos interesses de longo prazo entre os países. Para isso, vejo como imperativa a troca do ministro das Relações Exteriores, para trazer uma ala mais pragmática no governo, que se volte ao multilateralismo. Porque é esse o caminho que os Estados Unidos vão tomar. É preciso estabelecer uma diplomacia internacional, que sabe negociar", avisa.

Essa mudança de postura do Brasil já foi defendida por políticos alinhados a Bolsonaro ainda nesta quarta-feira. O deputado Pastor Marco Feliciano (Republicanos-SP), por exemplo, disse que o chanceler Ernesto Araújo tem que mudar a estratégia da política externa brasileira.

Além dele, o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Nestor Forster, fez um aceno aos Estados Unidos. Em uma publicação nas redes sociais, disse estar animado para trabalhar com Joe Biden e a vice-presidente Kamala Harris. 

Apesar de ainda ser uma incógnita a postura adota por Bolsonaro na condução do relacionamento com os Estados, os especialistas são unânimes em dizer que a relação, por parte de Biden, já mudou.

"É pouco provável que haja troca de visitas entre Bolsonaro e Biden. E essas visitas não são apenas políticas, mas são importantes para estabelecer contatos comerciais. O próprio Trump não veio ao Brasil, apesar do Bolsonaro ter visitado os Estados Unidos. E isso é consequência dessa relação conturbada que o próprio presidente construiu", finaliza Santoro. 

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.