Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 18:09
Com centenas de milhões de visualizações, o youtuber Ghanem al-Masarir estava no auge.>
Do seu apartamento na cidade inglesa de Wembley, o comediante falastrão e que às fazia tiradas ofensivas causava impacto como crítico da família real da Arábia Saudita. Mas, além de atrair fãs, ele fez alguns inimigos poderosos.>
A primeira coisa que al-Masarir notou foi que seus celulares estavam se comportando de forma estranha. Eles se tornaram muito lentos, com as baterias acabando rapidamente.>
Então ele percebeu ver os mesmos rostos ao circular em diferentes partes de Londres. Pessoas que pareciam ser apoiadores do regime saudita começaram a pará-lo na rua, assediando-o e filmando-o. Mas como eles sabiam onde ele estava o tempo todo?>
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Al-Masarir temia que seu telefone estivesse sendo usado para espioná-lo. >
Especialistas cibernéticos confirmariam mais tarde que ele se tornara uma nova vítima da ferramenta de invasão Pegasus.>
"Era algo que eu não conseguia compreender. Eles podem ver sua localização. Eles podem ligar a câmera. Podem ligar o microfone, ouvir você", diz Al-Masarir à BBC. "Eles têm seus dados, todas as fotos, tudo. Você sente que foi violado.">
Na segunda-feira (26/1), após seis anos de batalhas judiciais, a Alta Corte de Justiça de Londres decidiu que a Arábia Saudita era responsável pela invasão e ordenou que o reino pagasse a Al-Masarir mais de 3 milhões de libras (R$ 21,5 milhões) em indenização.>
Os iPhones de Al-Masarir foram hackeados em 2018 depois que ele clicou em links em três mensagens de texto aparentemente enviadas por veículos de notícias como ofertas especiais de assinatura.>
Isso o levou a ser perseguido, assediado e, em agosto daquele ano, espancado no centro de Londres.>
O tribunal ouviu que duas pessoas que Al-Masarir não conhecia se aproximaram dele e gritaram, dizendo "quem ele era para falar da família real saudita?", antes de acertá-lo no rosto com um soco e continuarem com a agressão.>
Pessoas que passavam intervieram, e os dois homens recuaram, chamando o YouTuber de "escravo do Catar" e dizendo que iriam "lhe dar uma lição".>
O juiz da Alta Corte disse que o ataque foi premeditado e observou que um dos agressores usava um fone de ouvido.>
"Há indícios convincentes" de que o ataque e a invasão hacker "foram dirigidos ou autorizados pelo Reino da Arábia Saudita ou agentes agindo em seu nome", disse o juiz Pushpinder Saini.>
"O Reino da Arábia Saudita tinha um claro interesse e motivação para calar as críticas públicas ao governo saudita", decidiu o juiz.>
Após a agressão, Al-Masarir continuou sendo perseguido. Em 2019, uma criança se aproximou dele em um café no bairro de Kensington e cantou uma música elogiando o rei Salman, o monarca saudita.>
Este incidente foi filmado e postado nas redes sociais, viralizou com hashtag própria e foi até transmitido na televisão estatal da Arábia Saudita.>
No mesmo dia, um homem caminhou até Al-Masarir quando ele estava saindo de um restaurante na capital britânica e lhe disse: "Seus dias estão contados", antes de ir embora.>
Al-Masarir nasceu na Arábia Saudita, mas vive no Reino Unido há mais de 20 anos.>
Ele agora é um cidadão britânico e vive em Wembley, mas não se aventura mais longe de casa — ir ao centro de Londres ainda é um trauma.>
O comediante, de 45 anos, alcançou a fama no mundo de língua árabe por seus vídeos satíricos no YouTube criticando os governantes sauditas, em particular o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman, que governa de fato a Arábia Saudita.>
As tiradas humorísticas de Al-Masarir — e às vezes ataques pessoais e ofensivos ao governo saudita — frequentemente viralizavam, gerando mais de 345 milhões de visualizações.>
Em seu clipe mais assistido — que tem 16 milhões de visualizações — ele criticou as autoridades por estarem irritadas com um vídeo que viralizou de garotas dançando na Arábia Saudita. >
Misteriosamente, o som foi removido no YouTube e Al-Masarir não tem ideia de como ou quando o vídeo foi editado.>
Desde que ele foi hackeado e atacado, ele perdeu a confiança e ficou deprimido. >
Antes bem-humorado e aberto, ele concordou em falar com a BBC — mas estava reservado e não quis mostrar totalmente o rosto.>
Ele não posta um vídeo há três anos e diz que, apesar de sua vitória legal, o governo saudita conseguiu silenciá-lo.>
"Nenhuma quantia em dinheiro pode compensar o dano que isso me causou", diz ele. "Realmente me transformou. Não sou o mesmo Ghanem de antes.">
Especialistas em spyware do Citizen Lab da Universidade de Toronto, Canadá, confirmaram que Al-Masarir havia sido hackeado com o spyware Pegasus. >
Eles enviaram um analista a Londres e consideraram altamente provável que a invasão tenha sido orquestrada pela Arábia Saudita.>
O Pegasus é uma ferramenta fabricada pela empresa israelense NSO Group, que disse só vender seu software a governos para ajudar a rastrear terroristas e criminosos.>
Mas o Citizen Lab encontrou o programa em telefones pertencentes a políticos, jornalistas e dissidentes.>
Quando Al-Masarir tentou pela primeira vez entrar como uma ação contra a Arábia Saudita, o reino argumentou que estava protegido de processos judiciais sob a Lei de Imunidade do Estado de 1978.>
Mas em 2022 o tribunal decidiu que a Arábia Saudita não tinha imunidade. Desde então, o país não foi representado em mais nenhum processo.>
"O Reino da Arábia Saudita deixou de apresentar uma defesa ou responder a esta ação e violou múltiplas ordens adicionais. Parece improvável que participe do processo", concluiu o juiz.>
Ainda não está claro se a Arábia Saudita pagará a indenização estipulada.>
A BBC contatou a embaixada saudita em Londres, mas não obteve resposta.>
Al-Masarir diz que está determinado a fazer cumprir a sentença e está disposto a usar tribunais internacionais, se necessário. Mas nenhuma quantia em dinheiro compensará como a invasão virou sua vida de cabeça para baixo, diz ele.>
"Me sinto deprimido por eles terem conseguir fazer algo assim em Londres, no Reino Unido.">
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