Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 16:09
Uma substância estudada há quase três décadas no Brasil surge como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula — embora ainda esteja nas fases iniciais dos testes clínicos.>
Trata-se da polilaminina, versão derivada da laminina — uma proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo — e que foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).>
No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos. >
Essa é a primeira etapa necessária para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no país. Ainda será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança e a eficácia da molécula, algo que pode levar alguns anos.>
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A autorização para o início dos testes é considerada um marco para pesquisadores que investigam a molécula há muitos anos e têm obtido resultados promissores em modelos experimentais para tratar lesões medulares.>
"Neste momento, não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível", destaca a professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera as pesquisas na UFRJ.>
Apesar de ainda estar longe de ter uma autorização para ser comercializada e usada em tratamentos, pessoas com diferentes tipos de lesão na medula têm obtido acesso ao tratamento por meio de liminares expedidas pela Justiça e têm relatado bons resultados.>
Um caso recente foi o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após sofrer um acidente ao mergulhar no mar nos primeiros dias do ano. Após a aplicação da proteína, em 23 de janeiro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ela está internada, a nutricionista voltou a mexer o braço direito, segundo sua família.>
Para Sampaio, do ponto de vista científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é "errado", embora a pesquisadora ressalte que há aspectos humanos que devem serem considerados para um juiz tome uma decisão sobre determinado caso, como a gravidade da lesão e a qualidade de vida do paciente.>
Lesões medulares geralmente acontecem após acidentes, como quedas ou batidas de carro e moto, ou episódios de violência com armas brancas ou armas de fogo. >
Existem ainda outras condições que podem danificar a medula, como doenças infecciosas e autoimunes.>
A depender do lugar da medula e da gravidade da lesão, as consequências são bem graves e podem levar à paraplegia (paralisia dos membros inferiores) ou tetraplegia (paralisia de braços e pernas). >
Nos casos mais sérios, quando acontece a lesão completa da medula, cirurgia e programas de reabilitação até podem ajudar, mas não existe nenhum tratamento disponível para recuperar plenamente os movimentos.>
É nesse contexto que a expectativa em torno da polilaminina vem crescendo. >
No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão por pares, ou especialistas independentes — com oito pacientes. >
Nos testes, conduzidos pela UFRJ em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância foi aplicada diretamente na medula espinhal durante uma cirurgia e apresentou resultados variados. >
Alguns pacientes tiveram alguma evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos — um efeito considerado "sem precedentes" pelos autores.>
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida pelo nosso corpo, principalmente na placenta.>
Ela é muito presente durante a formação e o desenvolvimento do embrião, onde exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.>
Segundo Sampaio, a laminina é uma proteína muito "potente" e desempenha diversas funções importantes no sistema nervoso, "dentre elas fazer o crescimento dos axônios, a parte do neurônio que é rompida em uma lesão medular".>
Como um complexo de moléculas de laminina, a polilaminina funcionaria como uma espécie de andaime, ao oferecer suporte para que células nervosas da medula lesionada reconstruam os axônios — um mecanismo que foi observado em modelos experimentais.>
"Você tem uma proteína que já é muito poderosa, e temos ela agora em uma forma, vamos dizer assim, melhorada em laboratório", descreve Sampaio.>
Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento da farmacêutica Cristália — que trabalha junto com a UFRJ na produção do medicamento —, explica que a polilaminina não é uma proteína recombinante, ou seja, feita 100% em laboratório. >
Para obter a proteína em sua forma mais próxima da estrutura humana, ela é extraída da placenta, um material naturalmente rico em laminina.>
Segundo Almeida, esse processo é feito por meio de parcerias da Cristália com alguns hospitais do interior de São Paulo, onde gestantes são convidadas a doar a placenta, material que geralmente é descartado após o parto.>
"Durante o pré-natal, a gente apresenta um projeto para essas parturientes, e elas se dispõem a doar a placenta. A gente acompanha a saúde dessas mulheres para entender que a placenta que elas vão doar é saudável, para garantir que não vou trazer nenhum vírus dessas doadoras para o produto final.">
A partir daí, inicia-se o processo de extração e purificação da laminina, separando-a de outras proteínas presentes na placenta. >
Esse produto final purificado vai ser usado para produzir a polilaminina, um processo que, segundo Almeida, só acontece no centro cirúrgico, no momento da aplicação na medula do paciente. >
"São enviados dois frascos para o centro cirúrgico. Daí o médico mistura o diluente com a laminina.">
Segundo o especialista, isso permite que as lamininas se organizem e formem uma espécie de "rede" no local onde elas serão aplicadas — geralmente no trecho acima e abaixo de onde ocorreu a lesão na medula.>
O estudo da polaliminina começou meio por acaso. >
Anos atrás, um pesquisador da UFRJ comprou a laminina para um experimento, mas acabou não usando a proteína. >
Sampaio se interessou pelo material e começou a fazer testes, sem imaginar, naquele momento, o potencial da substância que ela iria encontrar para tratamento de lesões medulares.>
"A princípio, eu não sabia nem para que servia aquilo. Eu não estava procurando um medicamento para lesão medular e aí encontrei a polilaminina. Foi o contrário: eu tinha uma coisa chamada polilaminina, que nós que demos o nome, que era um complexo de moléculas da laminina", explica. >
À época, já se sabia que a laminina desempenha um papel fundamental no crescimento dos axônios — estruturas que são rompidas em uma lesão medular.>
A conexão parecia clara. "Nós pensamos que [esse composto] poderia ser usado como medicamento, assumindo que ele seria mais potente, mais estável", conta Sampaio.>
A partir dessa hipótese, a equipe passou a testar a polilaminina primeiro em células isoladas e, depois, em diferentes modelos de trauma medular em ratos. >
Segundo a bióloga, os resultados se repetiam de forma consistente. >
"Sempre funcionava. Independentemente do tipo de lesão, os axônios voltavam a crescer. Foi isso que nos deu confiança para seguir adiante", afirma ela.>
Questionada pela BBC News Brasil se esses resultados preliminares causaram surpresa, a pesquisadora disse que não.>
"O esperado é que a polilaminina funcione. Na verdade, nossa surpresa é que sempre imaginamos que algo vai dar errado, que é tudo muito bom para ser verdade", confessa ela.>
Uma das pesquisas conduzidas pela UFRJ envolveu um grupo de oito pacientes com lesões medulares completas, classificadas como tipo A — casos em que a recuperação espontânea dos movimentos é rara. >
As lesões medulares são classificadas segundo o local, ou a altura, que elas aconteceram, e também de acordo com a gravidade, numa escala que vai de A (a mais grave e com maior número de complicações) até E (seriedade menor e maiores perspectivas de recuperação plena).>
Segundo médicos consultados pela BBC News Brasil, é normal que um paciente receba uma classificação logo após a lesão — quando o trauma, o edema e o inchaço ainda são volumosos — e isso se modifique para melhor com o passar do tempo.>
Ou seja: um paciente pode ser classificado com uma lesão B no início, mas, com os cuidados hospitalares, isso evolua positivamente para um C, por exemplo.>
No estudo experimental com a polilaminina, metade dos voluntários tinha lesões na região cervical (mais perto do pescoço) e a outra metade na região torácica (na região do tórax), grupo que, segundo Sampaio, apresenta perspectivas ainda mais limitadas de evolução segundo as evidências e o histórico de casos.>
Eles receberam a aplicação da polilaminina em caráter experimental, em uma espécie de teste-piloto.>
O estudo foi realizado em ambiente universitário, em parceria com a Cristália, e utilizou dados históricos amplamente documentados na literatura como referência, para comparar a evolução esperada entre esses pacientes.>
"A gente não precisou ter dois grupos, um de pacientes tratados e um de controle, que não faria o tratamento, para comparar os resultados. Pudemos aproveitar que existe um 'grupo de controle universal' e fazer um estudo clínico com um grupo único", explica a pesquisadora Tatiana Sampaio.>
Durante o estudo, dois pacientes morreram em decorrência da lesão, mas os outros seis recuperaram o controle dos movimentos. >
O resultado indicou uma taxa de 75% de recuperação de movimentos — um percentual muito superior aos 15% observados em dados históricos da literatura científica que acompanharam pacientes com lesões semelhantes, que fizeram intervenções como cirurgias para descomprimir a coluna, sessões de fisioterapia e medicações para lidar com a dor e a inflamação.>
Vale lembrar que essa pesquisa foi divulgada como um pré-print — tipo de artigo que não recebeu uma avaliação de especialistas independentes, que não estavam envolvidos com a pesquisa.>
Sampaio ainda pondera que o estudo ainda não reúne todas as características necessárias para afirmar a eficácia da polilaminina, mas a diferença observada sugere a existência de um resultado promissor.>
"Acho que o valor dessa diferença [de 15% para 75%] que nós conseguimos encontrar foi grande o suficiente para convencer pelo senso comum", afirmou.>
Além disso, um dos seis pacientes recuperou os movimentos, apresentando uma melhora considerada "extraordinária" pelos pesquisadores.>
Segundo Sampaio, esse paciente ficou em um hospital de excelência e recebeu mais estímulos durante o tratamento, o que pode ajudar a explicar a diferença no resultado.>
"A regeneração que esperamos com o tratamento significa que um axônio, que é a parte do neurônio que foi rompida, vai crescer em um ambiente inóspito. Não basta que ele readquira o potencial de crescimento, é importante essa estrutura 'saiba' para onde ir e seja estimulado para isso", diz a pesquisadora.>
"Em outras palavras, quero dizer que a fisioterapia é absolutamente essencial, porque esses axônios têm que ser instruídos. Eles têm que saber o que eles vão fazer e para onde eles vão. Então você precisa de estimulação pelo próprio exercício.">
A partir dessas evidências, a Anvisa e o Ministério da Saúde aprovaram o início de estudos clínicos de fase 1 com a polilaminina.>
Essa fase vai avaliar a segurança da substância em cinco pacientes, para conferir se a aplicação é bem tolerada e não provoca efeitos colaterais graves. >
Sampaio explica que todos os cinco pacientes terão o tipo mais severo de lesão medular, a lesão modular completa, e na região torácica. A injeção da substância deverá ocorrer em até 72 horas após o acidente. >
"A maioria dos pacientes que sofrem uma lesão medular tem necessidade de uma abordagem cirúrgica de emergência, então, a aplicação é feita nesse momento", destacou.>
O estudo será conduzido em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, instituições que contam com cirurgiões treinados para a aplicação da substância. >
Já a etapa de reabilitação contará com o apoio da AACD, organização sem fins lucrativos dedicada ao tratamento de pessoas com mobilidade reduzida permanente ou temporária. >
A previsão é que essa etapa seja concluída em cerca de um ano. Se os resultados forem considerados positivos, o estudo avança para a fase 2, cujo objetivo é determinar a eficácia do tratamento. >
Em seguida, uma eventual fase 3 combina análises de segurança e eficácia, com ainda mais rigor.>
Somente após concluir esse processo, a Anvisa poderá avaliar a aprovação da polilaminina como tratamento para todos os pacientes que se encaixarem no perfil avaliado.>
Segundo Rogério Almeida, da Cristália, a ideia é concluir a fase 1 até o fim deste ano e evitar que cada etapa ultrapasse um ano de duração. >
"Agora, precisamos gerar os dados clínicos, em seres humanos, dentro de todo o rigor regulatório que um estudo para registro de produto pede", diz Almeida.>
"Se tudo correr bem, em 2028, a gente conseguiria submeter o pedido de registro definitivo.">
Mesmo sem autorização para comercialização, e ainda em uma fase inicial de pesquisas, a polilaminina tem levado pessoas, com diferentes tipos de lesão medular, a entrar na Justiça para obter acesso ao tratamento por meio de liminares.>
Para Sampaio, do ponto de vista científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é "errado, inadequado e impróprio">
"É errado do ponto de vista ético, porque a pessoa está fazendo uso de um tratamento experimental sem os resultados, sem que haja garantia de coleta de dados a partir desse uso", avalia ela.>
"Imagina se tiver um efeito adverso que acontece uma em cada cem pessoas. Ele ainda pode aparecer e a gente talvez não fique sabendo", complementa a cientista. >
Ao mesmo tempo, Sampaio destaca que é preciso também considerar o aspecto humano de uma situação dessas.>
"Eu sou uma pessoa. Então, quando estou diante de um indivíduo que diz para mim: 'Meu parente não tem nenhuma perspectiva de melhora. Tem uma lesão muito alta, vai ter uma qualidade de vida péssima. Me ajuda, por favor.'">
"E ela me pergunta: 'Você acha que pode funcionar?' Eu respondo: 'Sim, acho.' E aí eu ajudo", declarou ela.>
"Felizmente, eu não posso tomar essa decisão, mas um juiz pode.">
Para a médica fisiatra Ana Rita Donati, que não esteve envolvida diretamente nas pesquisas com a polilaminina, ainda é cedo para qualquer uso amplo ou fora de protocolos de pesquisa. >
Ela pondera que é fundamental ter cautela, especialmente porque há casos de lesão medular em que o paciente pode apresentar melhora, mesmo sem o uso de novos remédios.>
"A gente sempre tem que ter muita atenção quando fala em recuperação neurológica, porque já se espera algum grau de melhora mesmo sem a introdução de um medicamento novo", explica a médica, que trabalha na AACD.>
A médica reconhece a urgência sentida por quem está diante de uma lesão medular, mas lembra que avanços terapêuticos em outras áreas seguiram caminhos longos até chegar ao uso na prática clínica. >
"A gente fica com expectativa, né? A gente quer dar a melhor condição para o paciente", admite a especialista.>
"Mas, nessas horas, a gente que tem o conhecimento, tem que ter mais tranquilidade para falar: 'Calma, vamos respirar. Vamos ver como vai o desenrolar disso'", prossegue. >
"Vamos ainda precisar de um bom tempo para tentar entender. E um bom número de pacientes também, para a gente conseguir chegar a algumas conclusões [sobre a polilaminina].">
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