Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 17:09
"Eles conseguem vasculhar uma área do tamanho de uma quadra de tênis em cerca de 20 minutos, enquanto humanos com detectores de metal levariam até quatro dias", diz a dra. Cynthia Fast, que treina esses animais extraordinários na ONG APOPO.>
A APOPO se dedica à detecção e remoção de minas terrestres e outros resquícios explosivos de guerra, utilizando métodos inovadores, como o treinamento de ratos-gigantes-africanos (Cricetomys gambianus).>
Todos os anos, minas terrestres matam ou mutilam milhares de pessoas no mundo todo.>
"Trabalhamos com o rato-gigante-africano (ou rato-gigante-da-Gâmbia), que tem aproximadamente o tamanho de um gato pequeno. Esses animais recebem esse nome por causa de suas grandes bolsas nas bochechas, semelhantes às de um esquilo ou hamster, onde gostam de armazenar comida.">
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Eles são chamados de "HeroRATs" (algo como "RatosHeróis" em tradução livre) e fazem um trabalho à altura do nome: desminam áreas de risco de minas terrestres em algumas das regiões mais problemáticas do mundo — em outras palavras, salvam vidas.>
"Atualmente, eles estão em Angola, Azerbaijão e Camboja, e anteriormente tínhamos ratos trabalhando em Moçambique. Até agora, eles limparam 120 milhões de metros quadrados de antigos campos minados.">
Essa é uma área maior que a cidade de Paris ou cerca de 17 mil campos de futebol.>
Essas criaturas são perfeitas para o trabalho: longevas, inteligentes e altamente treináveis, grandes o suficiente para cobrir vastas áreas, mas pequenas o suficiente para caminhar sobre uma mina sensível à pressão sem acioná-la.>
A APOPO nunca perdeu um rato em um campo minado.>
Além disso, eles são muito mais eficientes do que detectores de metal, porque se houver muita sucata metálica na área, eles a ignoram. >
Quando os ratos sentem o cheiro dos vapores de substâncias explosivas como TNT, eles arranham a superfície do solo. Esse é o sinal para os tratadores marcarem o local, e um humano com ferramentas e tecnologia poder retornar mais tarde e remover as minas com segurança.>
Fast afirma que seus ratos nunca deixaram de encontrar uma única mina em mais de 25 anos.>
Mas, apesar desse histórico impressionante, uma equipe de ratos não inspira imediatamente confiança nas comunidades com as quais trabalha, mesmo que usem coletes com identificação. >
"No início, havia muito mais ceticismo, e quando tentamos realizar essas cerimônias de devolução de terras às comunidades, elas se recusaram até mesmo a pisar nelas porque não confiavam nos ratos", diz Fast.>
"Uma das coisas que implementamos foi organizar uma partida de futebol no terreno que antes estava minado, e quando viram que confiávamos o suficiente em nossos ratos para jogar lá, as pessoas também começaram a jogar", continua ele. >
"Agora, em comunidades como o Camboja, as pessoas vêm até mim e dizem: 'Quando vocês vão trazer um rato aqui perto do meu arrozal? Porque tenho medo de que possa haver minas aqui'.">
Os HeroRATs não servem apenas para desarmar minas terrestres. A equipe também está experimentando seu uso em missões de busca e resgate, encontrando e ajudando pessoas soterradas sob escombros após desastres naturais.>
E, em uma era de automação e robótica, não apenas essas criaturas, mas também outras, como furões e cães, continuam indispensáveis para fazer o que nós não conseguimos.>
Em um campo no norte de Derbyshire, na Inglaterra, uma profissional altamente qualificada chamada Emily se prepara para o trabalho.>
"Se você a vir tremendo, não é porque ela está com frio ou com medo. É porque seu corpo está se preparando, aquecendo os músculos.">
Emily é uma furão dourada clara, de aparência alongada, ágil e flexível. O homem que a segura é seu chefe, ou talvez mais precisamente, seu colega James McKay. >
James tem mais do que apenas Emily na equipe. Ele dirige a Escola Nacional de Treinamento de Furões e gerencia uma equipe de elite com mais de 40 Mustela putorius furo.>
"As pessoas falam sobre treinar furões. Eu acredito que suas habilidades são inatas e tudo o que fazemos é canalizá-las.">
Que os furões realizem trabalhos não é exatamente uma novidade. Eles foram domesticados pela primeira vez há cerca de 2.500 anos para caçar animais que os humanos não conseguiam alcançar facilmente.>
"A Legião Romana os levava consigo porque, onde quer que fossem, precisavam de uma maneira de expulsar os coelhos de suas tocas, e a única forma de fazê-los correr era enviar algo que os forçasse a sair", explica James.>
Nos séculos seguintes, além da caça, eles também foram usados historicamente para proteger celeiros e plantações de roedores.>
Mas Emily e seus colegas não se limitam à caça; eles fazem todo tipo de coisa.>
Na década de 1980, James percebeu que seus furões tinham diversas habilidades que eram úteis.>
"Uma fazenda onde eu costumava ir para coletar coelhos para controlar a população estava com um problema nos drenos do campo, e o dono reclamava que teria que contratar equipes para cavar todo o campo e encontrar onde estavam os bloqueios", lembra James.>
"Tive um lampejo de inspiração e disse a ele que poderíamos colocar um furão em uma das extremidades do ralo, ver até onde ele ia, marcar aquele ponto e depois fazer a mesma coisa na outra extremidade. Fizemos isso e descobrimos onde estava o bloqueio", acrescenta. "Essa foi a pequena semente da qual tudo brotou.">
Hoje, James é requisitado para todos os tipos de trabalhos, não apenas para encontrar bloqueios, canos e ralos, mas também para instalar cabos de fibra óptica de alta velocidade.>
Eles fazem isso prendendo um fio fino à coleira do furão, que então se move como uma agulha peluda por recantos e frestas que nós, humanos, simplesmente não conseguimos alcançar.>
Eles podem ir muito fundo no subsolo, ou através de cavidades ou atrás de paredes falsas.>
Uma boa comunicação é vital para o trabalho em equipe, e James nunca perde contato com seus "engenheiros", que carregam um transmissor.>
Ele diz que às vezes as pessoas se preocupam com o bem-estar animal, mas tem certeza de que suas criaturas estão felizes com seu trabalho.>
"Eu não faria isso se achasse que havia qualquer crueldade ou risco real envolvido. Quando coloco meu furão na frente de um buraco, tudo o que ele quer fazer é entrar e ver o que há do outro lado", diz ele.>
James, é claro, não é o único que reconheceu o potencial de engenharia dos furões. Uma das doninhas mais famosas de todos os tempos se chamava Felicia.>
Em 1971, durante a construção do Laboratório Nacional de Aceleradores (posteriormente renomeado Fermilab em homenagem a Enrico Fermi), surgiu um problema: os longos e estreitos tubos de vácuo que fariam parte do acelerador de partículas precisavam estar perfeitamente limpos de poeira e detritos metálicos.>
Para resolver isso, um engenheiro britânico lembrou que as doninhas exploram naturalmente túneis e frestas, então sugeriu usar uma para percorrer os tubos e arrastar um fio que permitiria a passagem de um cotonete com solução de limpeza ao longo do tubo.>
Isso foi feito, e Felicia assumiu a tarefa de resolver o problema para os cientistas que pesquisavam física de partículas.>
Você já deve ter ouvido falar de "cães farejadores de câncer", aqueles que conseguem detectar a doença.>
Mas o alcance deles vai muito além disso: epilepsia, malária, Parkinson e até mesmo covid-19.>
Como os cães conseguem farejar doenças em humanos ainda é uma ciência em desenvolvimento, mas a dra. Claire Guest, cofundadora e diretora científica da Medical Detection Dogs (um centro de treinamento em Milton Keynes, na Inglaterra), está envolvida desde o início.>
"Os cães nos ensinaram coisas que não imaginávamos antes: foi completamente revolucionário pensar que o câncer tinha cheiro. Agora, sabemos que as doenças têm, sim, um cheiro", diz Guest.>
O que os torna realmente excelentes no que fazem?>
"Bem, em primeiro lugar, é o incrível olfato deles. Estamos falando de 300 milhões de receptores sensoriais. Os humanos têm 5 milhões. Se um humano consegue detectar uma colher de chá de açúcar em uma xícara de chá, um cão consegue detectá-la em duas piscinas olímpicas cheias de água", explica ela.>
Claire acrescenta que o tipo de nariz que esses animais possuem é incrivelmente bem projetado.>
Os cães conseguem inspirar o ar em um fluxo contínuo enquanto o expiram por outras partes do nariz.>
Isso permite que o cheiro alcance os receptores olfativos com mais eficácia, sem que o ar antigo se misture com o novo.>
Em outras palavras, eles conseguem inspirar e expirar simultaneamente pelo nariz, maximizando a detecção de moléculas de odor. É por isso que eles conseguem detectar cheiros muito sutis e seguir rastros por horas.>
"É um sistema muito sofisticado", conclui Guest.>
Mas há outra qualidade importante que torna esses cães fantásticos em seu trabalho. Tudo se resume à motivação.>
"Os cães não fazem isso apenas pelas recompensas que recebem. Eles querem que seus donos sejam felizes", afirma ela.>
"Um estudo recente mostrou que, quando estamos com nosso cachorro e o acariciamos, liberamos ocitocina, o hormônio do amor que antes se acreditava ser produzido apenas entre mães e filhos ou casais muito próximos." >
"Mas o que é ainda mais incrível, eu acho, é que o cachorro nos reflete e também libera ocitocina, completando assim um vínculo total e recíproco. O cachorro é tão apegado a nós quanto nós a ele", diz ela.>
Além de treinar cães biodetectores que trabalham na identificação de amostras, o centro também treina cães de assistência médica, que vivem e trabalham com um único humano.>
Eles são treinados para soar o alarme quando uma emergência médica pode ocorrer. >
Lauren sofre de síndrome da taquicardia ortostática postural e um distúrbio neurológico funcional, que causa convulsões não epilépticas, e Mabel é sua cadela de assistência, o que significa que ela a alerta quando está prestes a passar mal e ter uma crise.>
"Por exemplo, ela coloca a cabeça no meu colo e, se eu tento me levantar, ela não se mexe, indicando que eu preciso ficar sentada porque vou desmaiar.">
Isso mudou a vida dela.>
"Eu tinha uns 16 anos quando fui diagnosticada. Eu estava estudando e indo bem academicamente. Eu era dançarina e, de repente, passei de não conseguir me sentar na cama sem que alguém estivesse lá para garantir que eu não caísse e me machucasse. Sem conseguir me vestir, me lavar ou me alimentar sozinha, senti como se meu mundo tivesse realmente encolhido", lembra Lauren. "Ter a Mabel mudou tudo: posso sair e me locomover sozinha… é absolutamente incrível.">
Se existisse uma máquina que pudesse fazer tudo o que a Mabel faz, qual ela escolheria?>
"Eu sempre escolheria a Mabel em vez de um robô, porque ela faz muito mais do que apenas alertar sobre algo. Existe também essa conexão emocional", diz.>
"Imagine o pior dia da sua vida, mas ter alguém sentado ao seu lado, fazendo você se sentir melhor. E não há nada tão especial quanto acordar de manhã e ver alguém tão feliz em te ver. Eu jamais a trocaria por um robô!">
*Para mais detalhes sobre o assunto, ouça o podcast The Animal Employment Agency da série Discovery da BBC>
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