Sete prefeitos reeleitos no ES partem para o terceiro, quarto ou até quinto mandato

Por lei, desde 1997, prefeitos podem se reeleger para até dois mandatos consecutivos. Políticos ficam fora por quatro anos e depois voltam a concorrer

Vitória
Publicado em 03/12/2020 às 05h30
Atualizado em 03/12/2020 às 14h01
Guerino Zanon (MDB) e Hilário Gatinha (PSB) vão para o quinto mandato
Guerino Zanon (MDB) e Hilário Gatinha (PSB) vão para o quinto mandato a partir de 2021. Crédito: Montagem/ Facebook Guerino Zanon e Divulgacand

Correção

3 de Dezembro de 2020 às 14:01

Na primeira versão deste texto, não constava o nome de Cacau Lorenzoni (PSB), prefeito reeleito em Marechal Floriano. Considerando-o no levantamento, o número de prefeitos reeleitos com mais mandatos passa para sete. O texto ainda citava que o prefeito reeleito de Guarapari, Edson Magalhães (PSDB), está indo para o terceiro mandato. Na verdade, em janeiro, ele comandará a cidade pela quarta vez, porque assumiu a prefeitura em um mandato-tampão a partir de 2006. O prefeito reeleito de Santa Maria de Jetibá, Hilário Hoepke Gatinha (PSB), começará o quinto mandato, e não o quarto, como descrito anteriormente. Por isso, título e texto foram alterados. 

Dos 29 prefeitos que foram reeleitos nas eleições de 2020, sete já são "figurinhas repetidas" para a população: vão assumir as cidades pela terceira, quarta e até quinta vez. Por lei, os chefes de Executivos municipais só são autorizados a se reeleger uma vez de forma consecutiva, ou seja, a ficar até oito anos ininterruptos no poder. Eles podem, no entanto, voltar a concorrer após um intervalo de quatro anos. Na prática, o que ocorre é que esses prefeitos saem de cena, geralmente apoiam um candidato como sucessor e, depois, voltam a ocupar as cadeiras nas administrações das cidades. 

O capital político de quem já esteve à frente do município pesa na disputa. Especialistas apontam fatores como o carisma e o fato de que os gestores têm a máquina pública nas mãos para justificar tantas reeleições. Os dois com o maior número de mandatos são Guerino Zanon (MDB), em Linhares, e Hilário Hoepke Gatinha (PSB), em Santa Maria de Jetibá. Ambos vão assumir o quinto mandato a partir de 2021. Guerino foi reeleito, no último dia 15, com 54,44% dos votos válidos, e Gatinha, com 54,07%.

Outros quatro prefeitos vão para o quarto mandato: Dr. Fernando Lafayette (PSB), em Alfredo Chaves; Wanzete Kruger (PP), em Domingos Martins; Cacau Lorenzoni (PSB), em Marechal Floriano; e Edson Magalhães (PSDB), em Guarapari. 

Dr. Fernando foi eleito com 56,40% dos votos válidos; Wanzete Kruger, com 46,80%; Cacau Lorenzoni, com 48,48%; e Edson Magalhães, com 36,76%.

Edson Magalhães comandou a cidade de Guarapari por um ano e oito meses, de 2006 a 2008. Na época, ele era vice-prefeito e assumiu a cadeira após o prefeito eleito Antônio Gottardo (então PHS) ser cassado. Eleito em 2008, tentou disputar a reeleição em 2012, mas foi barrado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-ES) devido ao entendimento de que estaria tentando um terceiro mandato.

Para "completar o álbum", Elias Dal Col (PSD) caminha para o terceiro mandato à frente de Ecoporanga. O prefeito foi reeleito com 54,74% dos votos válidos.

Em Santa Maria de Jetibá, Gatinha acredita que suas reeleições são fruto, principalmente, do fato de que a população o conhece. "No interior temos essa proximidade com as pessoas, de fato. Assim, muitos disseram que o trabalho desta gestão deveria continuar", afirma. Ele foi eleito, pela primeira vez, em 1996. Depois, voltou a ocupar a cadeira em 2004, se reelegeu em 2008 e, após quatro anos fora da administração, saiu vitorioso no pleito de 2016. Desta vez, somou 11.968 votos.

Para o prefeito, a proximidade entre as pessoas no interior faz com que os eleitores cobrem mais de seus candidatos, por ser possível "ver de perto o trabalho." Nesse sentido, acredita que reeleger o mesmo prefeito é algo benéfico para o município, porque isso indica, segundo ele, que "o trabalho e os serviços públicos estão acontecendo realmente e a população consegue perceber, sentir as melhorias".

A reportagem procurou os demais prefeitos reeleitos, para questionar sobre as motivações para continuar concorrendo e o que pretendem fazer de diferente na próxima gestão, mas até a publicação deste texto não houve respostas.

TENDÊNCIA HISTÓRICA

Existe, historicamente, uma tendência à reeleição em pleitos municipais, como explica o cientista político e coordenador do Centro de Políticas Comparadas da Ufes, Marcelo Vieira. "É comum que isso aconteça, a questão é o por quê", pontua. O professor explica que os eleitores tendem a pesar, ao votar, o quanto ganharam com o mandato em andamento e o quanto ganhariam caso elegessem a oposição. É o que ele chama de "eleitor racional". 

"Nas eleições municipais, isso pesa ainda mais porque o eleitor tem uma proximidade maior com as políticas públicas. Ele vivencia de forma muito mais presente os atos do mandato, o que faz com que o 'quanto ele ganha' com a gestão pese mais  do que em eleições nacionais, por exemplo. Não precisa nem ser um ótimo prefeito. Basta que, na comparação que o eleitor faz entre o que aquela gestão ofereceu e as candidaturas de oposição, o balanço seja positivo", assinala.

Também pesam, lembra o cientista político João Gualberto Vasconcellos, o carisma e personalidade dos prefeitos. "O Brasil é uma sociedade muito voltada para personagens e essas são pessoas que impõem a personalidade. Muito pelo poder e carisma pessoal de cada candidato. Acho que eles têm uma capacidade de entender como o povo pensa, de encarnar a alma da cidade. Eles expressam a cidade. Na minha análise, é muito mais sobre uma capacidade de representar a cidade", pontua.

Além disso, quem tem a chance de administrar o município por quatro anos tem vantagens ao disputar. "Tem a ver com como os candidatos conseguem transmitir seu discurso, e quem já é governo tem a máquina ao seu favor, ou seja, pode contar com a memória recente, o fato de ser visível antes mesmo da campanha eleitoral", aponta Vieira.

MAIS COMUM EM LOCAIS COM POUCAS FORÇAS POLÍTICAS

Os especialistas não consideram que as reeleições são boas ou ruins em si. Preocupa o professor Vieira, no entanto, quando não há uma expectativa de alternância de poder por parte dos próprios partidos políticos. Isso pode acontecer, uma vez que essas reeleições seguidas são mais comuns em locais em que dois ou três grupos políticos se revezam no poder. 

"Eu não vejo como um problema alguns prefeitos estarem sempre em cena, mas vejo com uma certa preocupação se há uma expectativa baixa de alternância por outros partidos. Ou seja, que, ao chegar a eleição, já exista uma expectativa de que um partido vai ganhar.  Isso reduz a saúde da democracia local", pondera. 

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