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O que os moradores da Grande Vitória esperam dos novos prefeitos

A Gazeta foi até bairros com diferentes perfis para saber quais problemas mais incomodam os moradores de Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica e o que eles esperam dos prefeitos eleitos em 2020

Vitória
Publicado em 31/12/2020 às 20h02
Entrevistado sobre a expectativa para Vitória em 2021
Moradores da Grande Vitória falam sobre o que esperam dos futuros prefeitos. Crédito: Fernando Madeira e Vitor Jubini/Arte A Gazeta

No dia 1º de janeiro de 2021, os prefeitos eleitos no pleito deste ano tomam posse no novo cargo. Na Grande Vitória, com exceção da Serra, onde Sergio Vidigal (PDT) vai estar à frente da cidade pela quarta vez, as prefeituras vão ser comandadas por novatos no Executivo: Lorenzo Pazolini (Republicanos), em VitóriaEuclério Sampaio (DEM), em Cariacica, e Arnaldinho Borgo (Podemos), em Vila Velha.

Mas até para quem é mais experiente, como é o caso de Vidigal, o desafio é novo. Todos eles vão ter a missão de conduzir as atividades nos municípios em meio à pandemia de Covid-19, que deixou ainda mais evidentes alguns problemas, como a desigualdade social.

O grande número de pessoas em situação de rua, por exemplo, é preocupação comum entre moradores de bairros mais nobres da Grande Vitória. Nas quatro cidades, eles apontaram a elaboração de políticas para essa população como algo que esperam dos prefeitos eleitos.

Problemas mais antigos, que mandato após mandato são motivo de reivindicação dos moradores, também batem à porta dos futuros gestores. Nas áreas mais periféricas, as questões relacionadas à infraestrutura são mais demandadas pela população. São ruas sem calçamento, falta de saneamento básico, lixões a céu aberto.

A Gazeta foi a bairros de diferentes perfis na Grande Vitória e conversou com moradores para saber as demandas de cada local e como eles esperam que os novos gestores encarem esses desafios. 

VITÓRIA 

Sob os efeitos da pandemia de Covid-19, a Capital vê crescer os grupos em vulnerabilidade social. Na Praia do Canto, bairro de classe média/alta de Vitória, a presença da população em situação de rua contrasta com fachadas de lojas de luxo.

Sem abrigo, eles ocupam as calçadas. Alguns pedem comida; outros, dinheiro. "É um problema principalmente pela dignidade dessas pessoas que estão dormindo na rua", destaca a médica Karine Kimura, 46 anos, moradora do bairro. 

Para Karine, essa população tem aumentado, e as medidas adotadas pelo poder público não têm sido satisfatórias, até o momento, para resolver o problema. "São pessoas que precisam de ajuda, de oportunidades, algumas não têm capacidade de discernir o que é bom ou não para elas mesmas. Se for esperar algo consensual, não acho que vai resolver", afirma. 

Karine Kimura e Tânia Moreira- moradoras da Praia do Canto, em Vitória
Tânia Moreira e Karine Kimura estão preocupadas com o número de pessoas em situação de rua na Praia do Canto . Crédito: Vitor Jubini

De acordo com ela, a situação acaba gerando outros problemas, como a insegurança. "Algumas dessas pessoas são dependentes químicos e, sob efeito de drogas, podem vir a ter atitudes violentas. É uma situação que não pode ser ignorada." 

Não muito longe dali, em Maria Ortiz, é a falta de limpeza que incomoda o jovem Marlon Lima, 23 anos. Próximo à casa dele há um lixão a céu aberto, que se tornou um ponto viciado. No local, são depositados entulhos, sacos de lixo, restos de comidas.˙

Marlon reclama do mau cheiro e da própria paisagem do bairro, que fica poluída à beira do mangue. "A pessoa que chega aqui dá de cara com o lixo, incomoda bastante a gente. E ainda tem os insetos", reclama.

Marlon Lima- morador de Maria Ortiz, em Vitória
Resolver o problema do lixão a céu aberto em Maria Ortiz é algo que o morador Marlon Lima espera do futuro prefeito. Crédito: Vitor Jubini

De acordo com ele, o terreno já foi limpo pela prefeitura, mas, sem um local apropriado para depositar o lixo, os moradores continuam usando o espaço. "Eles vêm, limpam. Aí passa uns dias e está tudo sujo de novo. Então não resolve. Acho que seria o caso de fechar o terreno, cercar e criar um local específico para jogar o lixo", sugere.

VILA VELHA

Cruzando a Terceira Ponte, em Vila Velha, as queixas são parecidas. Na Praia da Costa, área nobre da cidade, o número de pessoas em situação de rua também é motivo de indignação dos moradores canela-verde. "São pessoas que ficam abandonadas, deitadas nas calçadas, largadas na rua. Incomoda muito ver isso aqui", afirma a aposentada Maria Helena da Rocha, 73 anos, apontando para um grupo de moradores que estava sentado próximo a um supermercado onde ela fazia compras. 

A Gazeta entrevista moradores de Cariacica e Vila Velha para saber quais os principais problemas dos seus bairros
A aposentada Maria Helena Rocha espera medidas mais eficazes no enfrentamento da situação da população de rua na Praia da Costa. Crédito: Fernando Madeira

Nas ruas, essa população também está exposta ao novo coronavírus. Até o dia 29 de novembro, segundo a Defensoria Pública do Estado do Espírito Santo, Vila Velha havia registrado 208 casos de contaminação entre pessoas em situação de rua e oito mortes. É o município com maior número de casos da doença. A instituição encaminhou um ofício ao governo do Estado e à prefeitura solicitando informações sobre as medidas que estão sendo tomadas para enfrentar os casos dentro desse grupo. 

"É um problema que precisa ser resolvido por quem está à frente da cidade, pensando a curto e a longo prazo. Até agora, nada do que foi feito resolveu. Fica o desafio para o futuro prefeito", diz Maria Helena.

Bem longe dali, quase no limite com Cariacica, os problemas que afligem os moradores de Cobi de Cima são bem diferentes. O calçamento nas ruas e a falta de infraestrutura para as crianças do bairro são algumas das principais demandas da população. 

Para a costureira Gesilane Lancaster, 47 anos, a pavimentação deixa a desejar. "É muito buraco, rua que não tem calçamento, dificulta bastante para a gente andar. Sem falar do mato, fica dias sem alguém da prefeitura vir cortar", reclama. 

A Gazeta entrevista moradores de Cariacica e Vila Velha para saber quais os principais problemas dos seus bairros
Para Gesilane, moradora de Cobi de Cima, é preciso atenção do futuro prefeito para a infraestrutura do bairro, especialmente para ruas que ainda não são calçadas . Crédito: Fernando Madeira

Morador do bairro há 46 anos, o comerciante Antônio Jorge Pereira faz a mesma reclamação. "Entra e sai prefeito e as ruas aqui continuam sem calçar." E acrescenta: "A infraestrutura também não é boa, não tem uma área de lazer para as crianças e os jovens. A gente precisa de mais atenção nisso aqui".

SERRA

Na Serra, algumas demandas não são novas para o ex e futuro prefeito Sergio Vidigal. No bairro Boa Vista II, os moradores esperam que a pavimentação de todas as ruas seja finalmente concluída.

"Tem mais de dez anos que a gente briga para calçar a rua, vai na prefeitura, reclama, pede. Eles sempre prometem, mas até hoje não fizeram nada", afirma a operadora de caixa Edilaine da Silva, 27 anos. 

Edilaine da Silva- moradora de Boa Vista II, na Serra
Edilaine da Silva espera que as ruas no bairro Boa Vista II, na Serra, sejam calçadas pelo próximo prefeito. Crédito: Vitor Jubini

Edilaine mora na Rua Jonatas Nunes Loureiro. Na época de chuvas, o chão, que ainda é de terra, vira lama. No verão, a casa fica coberta da poeira.

"Eu não posso nem deixar minha filha sair para andar de bicicleta, porque não tem condições. Fora a falta de iluminação. A gente vive no escuro."

Em outra parte da cidade, em Jardim Limoeiro, a pavimentação de ruas passa longe de ser uma queixa dos moradores. Lá, o incômodo com a falta de cuidado com a população em situação de rua, apontado em Vitória e Vila Velha, se repete.

"Tem muito morador de rua, usuário de droga. Parece que aumenta cada vez mais. Muita gente fica pedindo dinheiro, se a gente não dá, eles ameaçam. Isso assusta a gente", afirma a dona de casa Jussara Damaceno, 33 anos. "São seres humanos, né? Eles precisam de assistência."

Jussara Damasceno e Jeremias Mayer- moradores de Jardim Limoeiro, na Serra
Jeremias e Jussara esperam que o poder público aponte soluções para resolver o problema do grande número de pessoas em situação de rua em Jardim Limoeiro, na Serra. Crédito: Vitor Jubini

Nascido e criado no bairro, o mecânico Jeremias Mayer, 35 anos, aponta que as medidas adotadas até hoje pela prefeitura não resolveram o problema. Para ele, apenas criar abrigo não é uma solução. Ele espera que, diante dos problemas trazidos pela pandemia, políticas mais eficientes sejam aplicadas.

"Isso tinha que ser prioridade. Tem que elaborar um plano para enfrentar essa situação. Não pode achar que tudo se resolve colocando abrigo, até porque o número de pessoas nas ruas têm crescido. Não é um problema fácil de resolver, mas precisa de atenção", opina. 

CARIACICA

Em Cariacica, cidade que, desde 2019, registra o maior número de homicídios entre os municípios do Espírito Santo e onde a Força Nacional atua há quase um ano para tentar reduzir a criminalidade, a segurança é um problema nos bairros mais nobres. 

"Aqui não falta água, não falta luz, tem escola, rua calçada, tem de tudo", afirma Carlos Emiliano, 55 anos, que tem um comércio no Parque Infantil, na parte alta do bairro Campo Grande. "O que precisa resolver é a questão da segurança. Anoitece e começam os roubos de celular."

A Gazeta entrevista moradores de Cariacica e Vila Velha para saber quais os principais problemas dos seus bairros
O comerciante Carlos Emiliano quer mais segurança na região de Campo Grande, Cariacica. Crédito: Fernando Madeira

Pai de uma adolescente, ele conta que não costuma deixar a filha andar sozinha à noite pelo bairro, com medo de assaltos. As viaturas, segundo ele, passam em alguns momentos do dia, mas isso é insuficiente para fazer com que os moradores se sintam seguros. "O que a gente tem não está servindo para resolver o problema", diz, avaliando que o apoio da Guarda Municipal, para reforçar o policiamento na cidade, melhoraria a situação. 

Na área mais periférica da cidade, a situação é oposta quando o assunto é infraestrutura. O crescimento desordenado do bairro Oriente levou a um problema no sistema de esgoto, que, sobrecarregado com o número de casas, transborda para a rua. 

"Quando eu cheguei aqui, só tinha cinco casas. As pessoas foram construindo uma em cima da outra, em cima de galerias. As manilhas são pequenas e não dão conta", destaca a aposentada Terezinha de Jesus, 67 anos. 

A Gazeta entrevista moradores de Cariacica e Vila Velha para saber quais os principais problemas dos seus bairros
Na rua Alfredo Couto Teixeira, no bairro Oriente, onde Terezinha mora, o esgoto transborda e se acumula em frente às casas . Crédito: Fernando Madeira

A aposentada conta que medidas paliativas vêm sendo tomada pela prefeitura, ao longo dos últimos anos, mas que não trazem uma solução definitiva para o problema. "Eles trazem a máquina e sugam a água do esgoto. Melhora por uns dias e, depois, entope tudo de novo. Para resolver isso aqui, tem que quebrar a rua inteira, trocar essas manilhas", sugere.

De acordo com o representante comercial Oséas Nascimento, 35 anos, que cresceu no bairro, a cobrança para que o problema seja resolvido vai continuar. "Não se pode achar normal as pessoas terem esgoto na porta de casa, a gente pede para que o prefeito olhe para essa situação. É algo que você não vê em um bairro de classe alta", observa.

"O prefeito foi eleito por moradores de todos os bairros, e a gente espera que ele faça algo pelo nosso bairro. Essa é a função do poder público", finaliza. 

Nem todos os problemas são de responsabilidade exclusiva das prefeituras, em muitos casos é preciso contar com parcerias com o governo estadual ou o federal. Parcerias com o setor privado também podem ser uma saída. Essa articulação, no entanto, também cabe aos prefeitos. Os mandatos começam em janeiro de 2021 e terminam em dezembro de 2024.

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