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Problemas escancarados pela pandemia exigirão nova postura de gestores públicos

Assistência social e saúde pública se mostram frágeis nos municípios. Enfrentar a nova realidade vai exigir liderança e capacidade para estabelecer parcerias

Publicado em 24/05/2020 às 08h13
Atualizado em 24/05/2020 às 08h37
Como será a eleição no meio de uma pandemia?
Com contas apertas e problemas em serviços básicos, gestores vão ter que estabelecer parcerias. Crédito: Amarildo

O surgimento do novo coronavírus pegou o mundo de surpresa e expôs fragilidades da sociedade atual. A incapacidade de conter o avanço rápido da Covid-19 e evitar mortes deixou clara a deficiência dos sistemas de saúde e a inabilidade de algumas lideranças.

Com o futuro incerto e a necessidade de se ter um ambiente preparado para novas situações semelhantes, os gestores públicos precisarão mudar a forma de atuação, com visão técnica para agir em áreas vulneráveis, capacidade de interlocução com chefes de outros entes federados e comportamento de líder diante de desafios.

No âmbito municipal, a precariedade do saneamento básico tornou-se evidente. Sem a mínima estrutura de higiene, a população nas periferias ficou mais vulnerável ao vírus, concentrando casos de contaminação da doença.

"Como falar em medidas de prevenção, em isolamento social e em higiene, se as pessoas vivem em casas sem acesso a água e tratamento de esgoto?", questiona o cientista político Humberto Dantas.

A vulnerabilidade das famílias diante da pandemia exigiu que os municípios colocassem em prática programas de assistência social. Em muitos lugares, porém, as ações não foram muito além do fornecimento de cestas básicas.

Humberto Dantas

Cientista Político

"Os municípios mostraram que não têm condições de lidar com assistência social sozinhos, que eles precisam do Estado, do governo federal. Mas essa rede também se mostra frágil. É preciso chamar essa responsabilidade para outros organismos da sociedade civil, estabelecer parcerias intersetoriais, com empresas privadas. É preciso ampliar as estruturas de proteção social"

O acesso a serviços essenciais de saúde e educação básica, que são de competência municipal, também ficaram comprometidos. Muitos municípios, por exemplo, não conseguiram traçar estratégias para adequar o ensino nas escolas à nova realidade. Já nos postos de saúde, campanhas de prevenção e orientação se mostraram falhas.

Rodrigo Prando

Cientista Político

"A educação infantil se mostrou desafiadora. As cidades fracassaram ao propor aulas a distância sem fornecer o mínimo de suporte aos professores e alunos. Nas unidades de saúde, observou-se mais uma delegação de responsabilidade ao Estado e à União do que uma tentativa de dialogar com eles e estabelecer planos de prevenção"

Na opinião dos especialistas, a má gestão nos municípios contribuiu para que a crise se agravasse em alguns locais. Sem um planejamento a longo prazo, dirigentes ficaram reféns da ajuda dos Estados e do governo federal. Isso revelou a necessidade de lideranças à frente das situações.

"No momento de crise e emergência social, um prefeito tem que ser mais do que administrador, tem que ser um líder, assumir a linha de frente e mostrar que ele tem planos. Os municípios, muitas vezes, não têm sequer um leito de UTI, mas isso não impede que os dirigentes municipais estejam atentos a questões de higiene, saneamento básico, cuidados primários de atendimento nos postos de saúde, e até mesmo de questões mais psicossociais", diz Prando.

Os efeitos provocados pela Covid-19 nos municípios são incalculáveis. Além das fragilidades dos sistemas públicos, a queda na arrecadação e as contas apertadas colocam uma nova realidade diante daqueles que pretendem ocupar um cargo eletivo, seja de prefeito ou vereadores neste ano. Para o cientista político Rogério Bapstini, enfrentar esse desafio exigirá liderança e um trabalho conjunto.

Rogério Bapstini

Cientista Político

"Só conseguirá administrar essa crise quem se apoiar em uma equipe técnica, inserir os vereadores no processo decisório, trabalhar em conjunto. É preciso superar qualquer divergência política. A situação vai exigir preparo e visão do cenário, parcerias com setores privados, mais interação com a ciência e com entes federados. Tem que ter inteligência, habilidade. Os políticos que apresentarem isso poderão fazer um bom trabalho"

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