Há um ano, quatro jovens foram mortos e outros dois ficaram feridos na Região de Santo Antônio, Vitória, no crime que ficou conhecido como a Chacina na Ilha. Das seis pessoas apontadas como as responsáveis pelos assassinatos e tentativas de homicídio, uma ainda é foragida e está sendo procurada pela polícia.
As vítimas aproveitavam o dia de praia na Ilha Doutor Américo Oliveira, localizada na Baia de Vitória, próximo ao bairro Santo Antônio. Na outra margem, fica o bairro Porto de Santana, já em Cariacica. O local é um ponto usado por moradores das duas localidades para diversão e passatempo.
O grupo foi surpreendido por cinco homens que fizeram uma emboscada contra os jovens. Uma sexta pessoa, que passou a informação, não retornou ao local. Na ilha, foram mortos os amigos Wesley Rodrigues de Souza, 29 anos, Yuri Carlos de Souza, 23 anos e Victor da Silva Alves, 19 anos. Pablo Ricardo Lima, 21 anos, chegou a ser socorrido, mas morreu no Pronto Atendimento de São Pedro. Outros dois jovens, mesmo feridos, conseguiram escapar após os tiros e fuga dos assassinos.
Chacina na ilha - polícia ainda caça último suspeito de participar do crime
“Três dias após o crime conseguimos prender duas pessoas. Logo depois, a mãe de outro acusado entregou o filho. Em seguida, com perícia na ilha e várias diligências, conseguimos identificar todos os autores, em uma das melhores investigações que já realizamos, com muitos detalhes”, relata Marcelo Cavalcanti, delegado titular da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Vitória, que coordenou a apuração do crime.
JOVENS CONFUNDIDOS COMO MEMBROS DE FACÇÃO CRIMINOSA
As mortes foram consequência das constantes disputas do tráfico de drogas. Os jovens foram confundidos com integrantes da facção Primeiro Comando de Vitória (PCV), com sede no Bairro da Penha, na Capital. O grupo criminoso conta com ramificações em outros bairros e cidades do Espírito Santo. As vítimas foram assassinadas pelos rivais do PCV, que atuavam no Morro do Quiabo, em Cariacica, facção conhecida como Associação Família Capixaba (AFC).
As investigações da Polícia Civil apontaram que o crime foi cometido de forma cruel, com as vítimas tendo permanecidas subjugadas por mais de meia hora, sob a mira de armas de fogo, com ameaças de morte. Os jovens foram interrogados, filmados, e fotografados. Seus celulares foram roubados e vasculhados, antes de eles serem alvejados. O crime foi divulgado pelas redes sociais:
“Como aquela guerra estava aflorada entre eles, entenderam que os jovens seriam ligados ao PCV, juntaram uma bateria com cinco indivíduos - uma sexta pessoa, que passou as informações, não voltou ao local -, e praticaram o crime contra as vítimas, que estavam no local se divertindo”, explicou Marcelo Cavalcanti.
Ele destaca que os executores praticaram o crime de forma cruel e por motivo torpe: “Aproximaram-se de forma sorrateira, estavam fortemente armados e em número elevado, surpreendendo os jovens e deles tirando qualquer possibilidade de reação ou defesa”, explica.
AUTORES DO CRIME
Após a conclusão das investigações policiais, seis homens foram indiciados pelo crime, sendo dois menores de idade. Já estão presos:
1 - Felipe Domingos Lopes, vulgo “Cara de Boi” ou “Boizão”, de 22 anos, apontado como o responsável pela ordem do crime, além de ser o primeiro a atirar contra as vítimas. Foi preso em 26 de outubro.
2 - Adriano Emanoel de Oliveira Tavares, vulgo “Balinha” ou “Da bala”, de 22 anos. Apontado como coautor do crime. Foi preso no dia 2 de outubro.
3 - Werick Sant’Anna dos Santos da Silva, vulgo Mamão, de 18 anos, foi o responsável por pilotar o barco, além de ser um dos executores, segundo a polícia. Foi preso no dia 3 de outubro.
Além deles, dois adolescentes que na época tinham 17 anos foram indiciados. Um deles foi um dos executores do crime. O outro foi o responsável por informar a Felipe Domingos Lopes, o Boizão, a localização das vítimas e que elas teriam ligação com uma facção criminosa rival.
Os adultos foram indiciados pelos crimes de homicídios consumados e tentados triplamente qualificados, por motivo torpe, cruel e meio que dificultou ou impossibilitou a defesa das vítimas; associação para o tráfico - e atos infracionais análogos - e, para os maiores, ainda foi incluído o crime de corrupção de menores.
Eles também foram denunciados pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) e, em novembro do ano passado, a denúncia foi aceita pelo Juizado da Primeira Vara Criminal de Vitória, tornando os autores do crime réus em processo penal. A prisão preventiva deles foi mantida. O processo relativo aos menores de idade corre em segredo de Justiça.
SEXTO INTEGRANTE DO GRUPO DE ASSASSINOS CONTINUA FORAGIDO
O sexto integrante do grupo que assassinou os jovens na ilha é Victor Bertholini Fernandes, de 19 anos. Ele foi apontado nas investigações da polícia como sendo um dos executores do crime e está foragido.
“Há mandado de prisão contra ele, que já teve a sua prisão preventiva decretada pela Justiça estadual”, informou o delegado Marcelo Cavalcanti, acrescentando que a população pode auxiliar na investigação por meio do Disque-Denúncia 181, sem necessidade de se identificar.
O CRIME: EMBOSCADA, AMEAÇAS E MORTE
De acordo com o delegado, os seis jovens de Santo Antônio se encontraram com outros três de Cariacica na ilha. Todos buscando lazer com consumo de cerveja e maconha. Em um determinado momento, as vítimas até conversaram com os três jovens, pedindo seda para uso de maconha, material que foi compartilhado por eles. Depois disso, os grupos se separaram no local.
Foi quando começaram as desconfianças que deram início os fatos que causaram a chacina. Os jovens de Santo Antônio começaram a conversar, e um dos jovens de Cariacica, ouvindo o assunto, deduziu que eles seriam de uma facção criminosa de Vitória (PCV), rival do grupo de traficantes de Cariacica (Família Capixaba). Os três de Cariacica decidiram deixar a ilha.
“Neste momento, um dos jovens de Cariacica ligou para Felipe Domingos Lopes, o Boizão, liderança do tráfico em Porto de Santana, que se juntou com mais quatro indivíduos que pegaram um barco e saíram em direção à ilha. Quando chegaram lá, desembarcaram e já tinham a informação de que as vítimas estavam desarmadas, o local onde estavam e que poderiam pertencer a essa facção de Vitória”, disse o delegado Marcelo Cavalcanti.
O menor que passou a informação não retornou para a ilha. No local, apenas três das seis vítimas foram rendidas. Isso porque os outros três tinham ido a Santo Antônio buscar mais cerveja e drogas para consumo. No entanto, ao voltarem, eles também foram rendidos. Segundo o delegado, o grupo foi ameaçado e subjugado por pelo menos 30 minutos. Durante a ação, um dos autores ligou para uma pessoa do celular de uma das vítimas, para perguntar quem seriam e se teriam envolvimento com a facção criminosa.
De acordo com as investigações, a pessoa que atendeu o telefone negou que os jovens tivessem ligação com alguma organização. E mesmo de posse dessa informação, as vítimas foram executadas. “Mesmo com a informação, foram feitos os vídeos que foram divulgados, e o Felipe Boizão resolveu executar as vítimas”, explicou o delegado.
Dos seis jovens, três foram mortos na ilha. Um chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos. Outros dois foram baleados e um deles chegou a se fingir de morto. Logo depois conseguiram fugir, após os executores deixarem a ilha de barco. A fuga acabou sendo gravada.
A DEFESA DOS ACUSADOS
Os advogados de defesa dos quatro acusados pelo crime, citados nesta matéria, não foram localizados, nem mesmo a do suspeito que ainda está foragido.