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Interferência de Bolsonaro na Petrobras dá mau sinal aos investidores

Analistas do mercado veem com temor a mudança na presidência da estatal e alertam para o risco de uma onda de intervencionismo no governo. Avaliação é que a imagem da Petrobras fica prejudicada

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 19/02/2021 às 22h46
Atualizado em 19/02/2021 às 22h46
 Joaquim Silva e Luna é ex-ministro da Defesa
Joaquim Silva e Luna, indicado por Bolsonaro para a Petrobras, é ex-ministro da Defesa. Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Na tentativa de interferir na Petrobras, o presidente Jair Bolsonaro indicou na noite desta sexta-feira (19) o general Joaquim Silva e Luna como novo presidente da estatal. Se confirmado pelo conselho de administração da companhia, ele substituirá Roberto Castello Branco.

Na quinta-feira (18), Bolsonaro já havia dito que promoveria mudanças na Petrobras quando anunciou isenção de impostos federais sobre o diesel e o gás de cozinha. O presidente disse que "não tem quem não ficou chateado com o reajuste" de preços de combustíveis anunciado pela estatal e fez críticas a Castello Branco.

Para analistas, no entanto, a decisão de Bolsonaro dá um mau sinal aos investidores e prejudica a imagem da companhia. O temor é que a onda de intervencionismo cresça no governo.

Segundo a consultora econômica Zeina Latif, a gestão do atual presidente da estatal vinha agradando o mercado e contribuindo para a valorização da Petrobras no mercado. Ele criticou o anúncio de Bolsonaro justamente por não se basear na performance do gestor ou da empresa, e sim, em uma agenda de controle sobre a política de preços.

Zeina Latif

Consultora econômica

"É um retrocesso. O Brasil já tem uma insegurança jurídica tão grande e tem mais esse fato para prejudicar a capacidade de atrair investimento. Quem vai entrar em um setor que depende da mão do presidente? Quem vai investir onde o preço é regulado?"

O especialista em governança corporativa Adriano Salvi concordou e apontou que a Petrobras, como uma sociedade de economia mista, antes de ser controlada pelo governo, é uma empresa de capital aberto, ou seja, tem acionistas. Isso significa que a empresa não pode se sujeitar a vontade de um acionista controlador, no caso, o governo federal, que tem a maioria das cadeiras no conselho de administração.

"Fica a questão agora se ela  (Petrobras) está ali para atender ao objetivo social dela ou se vai cumprir o interesse da política econômica do governo. Vivemos isso no governo Dilma quando, por interferência, a Petrobras segurava o aumento de preços de combustíveis", disse.

Salvi complementou: "Daqui pra frente a companhia pode ser vista com desconfiança. Se o novo presidente vai cumprir sua função de administrador ou estará ali pra fazer a vontade do governo, que é o acionista controlador".

O economista-chefe da Apex, Arilton Teixeira, também demonstrou preocupação com uma onda de interferências, não só na petroleira, mas em outras estatais.

Segundo ele, há muitas evidências de gestões anteriores que comprovam que a interferência nos preços praticados pela Petrobras são danosas para a empresa e para a economia brasileira.

"A manipulação de preços nunca foi o caminho. Infelizmente o ocorrido de hoje mostra que o governo não aprendeu. Continua querendo manipular a Petrobras. Não está preocupado com o povo de forma nenhuma. A consequência dessa manipulação, o rombo, todo mundo vai pagar, inclusive quem tem baixa renda".

Ele explica ainda que a alta do preço dos combustíveis pouco em a ver com a atuação da estatal ou de Castello Branco e é uma consequência do reaquecimento do mercado internacional, que fez o preço do barril de petróleo subir bastante nos últimos meses, e da política fiscal brasileira.

"Os brasileiros adoraram a política de juros baixos, mas ela tem a consequência que é o dólar alto e volátil. Com esses dois componentes, ou o preço do petróleo sobe ou o dólar sobe. No fim das contas, a gasolina e demais derivados de petróleo aumentam de preço", esclareceu.

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