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Entenda o que provocou a alta do dólar e a maior queda na bolsa desde abril

Bolsas do mundo inteiro derreteram nesta quarta-feira (28). No Ibovespa, nenhuma empresa conseguiu fechar o dia com ações em alta. Especialistas listam três motivos externos e internos que acenderam a luz de alerta

Publicado em 28/10/2020 às 21h33
Atualizado em 28/10/2020 às 21h41
Bolsa de Valores de São Paulo, a B3
Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, teve pior desempenho diário desde abril nesta quarta (28). Crédito: Marivaldo Olieira/Agência Estado

Um dia de caos no mercado financeiro global. Nesta quarta-feira (28), as bolsas de valores do mundo inteiro derreteram diante do temor de uma nova desaceleração da economia mundial. No Brasil, a Bolsa de São Paulo (B3) registrou sua quarta queda seguida e fechou o dia em 95.368 pontos, um tombo de 4,25%.

Foi a maior retração do Ibovespa em um dia desde abril, ainda no começo da pandemia do coronavírus do país. As maiores baixas foram em ações da Petrobras, Bradesco e Usiminas, mas o cenário de perdas diante da aversão ao risco foi geral. No final do pregão, nenhuma ação do Ibovespa conseguiu fechar o dia em alta.

Já o dólar, apesar da realização de um leilão de US$ 1 bilhão pelo Banco Central para conter os preços, fechou em forte alta de 1,39%, a R$ 5,7619. Foi a primeira vez em cinco meses que a moeda americana ultrapassou R$ 5,75. No ano, ela acumula valorização de mais de 40% frente ao real.

As bolsas no exterior também caíram. A Bolsa de Londres caiu 3,5% e a de Paris, 3,4%. Na Alemanha a queda da Bolsa de Frankfurt foi de 4,2% Nos Estados Unidos, o Dow Jones caiu 3,4%, o S&P 500 recuou 3,5% e a Nasdaq teve queda de 3,7%.

Para especialistas do mercado financeiro, há pelo menos três componentes que contribuíram para esse cenário de incertezas: a intensificação da pandemia de Covid-19 no mundo e as eleições nos Estados Unidos, no âmbito global, e, por aqui, e o agravamento dos problemas fiscais do Brasil.

SEGUNDA ONDA DA PANDEMIA

Esse pânico nos investidores tem como causa central o aumento de casos do novo coronavírus na Europa e nos Estados Unidos, segundo especialistas. O temor é que uma segunda onda global da Covid-19, que já tem se mostrado real, volte a restringir o funcionamento de atividades econômicas e faça a economia global, que começava a se recuperar, voltar a cair.

Renan Lima, planejador financeiro da Alphamar Investimentos, diz que os novos decretos de lockdown (fechamento total de cidades) por um mês na França e na Alemanha, e a pressão pela adoção da mesma medida na Inglaterra, acabaram mostrando ao mercado que uma segunda onda pode ser mais grave para a economia do que estava precificado.

Renan Lima

Planejador financeiro da Alphamar Investimentos

"O mercado já tinha, de certa maneira, a expectativa de que poderia vir uma segunda onda, mas agora ela vai se mostrando mais forte do que se pensou, voltando a provocar lockdown, que é algo que se avaliava como superado e que acaba impactando muito a economia"

Com a intensificação da aversão ao risco, esses investidores acabam optando por buscar ativos fortes e de segurança, como dólar e ouro. Isso porque as novas restrições devem ter um impacto na economia ainda pior do que na primeira onda, segundo o sócio da Valor Investimentos Marcus Araújo. "A economia ainda está muito fragilizada e não recuperou suas perdas", destaca.

Enquanto os casos aumentam pelo mundo, essa tensão é agravada pela falta de clareza quanto à aprovação e produção em massa de uma vacina que consiga imunizar a maioria da população global, o que é essencial para o controle efetivo da pandemia. 

ESTADOS UNIDOS: ELEIÇÃO E EXPECTATIVA DE SOCORRO

A proximidade com a eleição presidencial dos Estados Unidos, marcada para a próxima terça-feira (3). A acirrada disputa entre o atual presidente republicano, Donald Trump, e seu adversário democrata, Joe Biden, que aparece liderando as pesquisas, tem aumentando a volatilidade do mercado. "É a maior economia do mundo, o que for feito de política econômica lá vai se refletir no mundo inteiro", explica Marcus Araújo.

Há um certo temor do mercado quanto à eleição de Biden pela tradição dos governos democratas de adotar pautas populares e mais duras com as empresas. O plano de governo de Biden, por exemplo, detalha a expansão de programas sociais, como o "Obamacare", e o aumento de impostos, com taxação de lucros maior para empresas dos EUA no exterior.

Enquanto isso, a Casa Branca e o Congresso norte-americano continuam sem um acordo para mais medidas de auxílio fiscal. "O mercado estava aguardando ser anunciado um novo pacote de socorro emergencial e estímulo econômico nos Estados Unidos, mas hoje eles assinalaram que isso vai ficar apenas para depois das eleições", pontua o sócio da Valor.

COMPONENTE INTERNO E RISCO DE UMA RECUPERAÇÃO EM "W"

Como se não bastasse o estresse mundial, o Brasil também tem seus próprios problemas na economia – e não são poucos. Renan Lima, da Alphamar Investimentos, teme que o fim do auxílio emergencial no final do ano sem que as reformas tenham andado  acabe fazendo com que a economia fique estagnada e volte a retrair, com um risco real de recuperação em "W".

"O Brasil tende a ficar estacionado e a falada recuperação da economia em 'V' pode acabar virando um 'W', com uma primeira recuperação passageira por conta do auxílio emergencial, mas depois, com a falta de reformas e a piora do problema das contas públicas, podendo voltar a ter uma queda, e só aí tomar esse choque de realidade", diz Lima.

Marcus Araújo, da Valor, lembra que o governo brasileiro acabou "tomando gosto por medidas populistas e assistencialistas" - que de certa forma eram necessárias para fazer frente à queda na renda causada pela pandemia -, mas deixou de lado a agenda de reformas econômicas. "O mercado aguardava um comprometimento maior com a agenda de reformas, que diante da pandemia passaram a ser ainda mais urgentes".

O problema fiscal também pesa nessa conta. Os gastos com o auxílio emergencial e outras medidas de socorro na pandemia, apesar de essenciais, pioraram muito a já crítica situação da dívida pública, restando dúvidas se o governo conseguirá retomar o controle das contas ou se acabará furando o teto de gastos.

"O teto dos gastos públicos tem dois caminhos: manter e ter uma postura estável perante outros países ou romper e causar uma insegurança enorme, fazendo o dólar disparar ainda mais. O caminho para o ajuste fiscal ainda está ancorado nesse teto, e uma quebra dele pode gerar uma fuga mais forte de capital estrangeiro", comenta Araújo.

* Com informações das agências Estado e Folhapress

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