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De pães a kits de festa junina: as oportunidades de negócios na crise

Setor de alimentação sempre foi uma saída para quem fica desempregado ou precisa complementar a renda. Agora na pandemia, quem oferece esses serviços tem inovado

Publicado em 05/07/2020 às 14h32
Atualizado em 05/07/2020 às 17h01
Bianca Dias Maciel de Azevedo, chefe de cozinha. Vende comida pela internet para driblar a crise
Bianca Dias Maciel de Azevedo se inspirou na culinária italiana e francesa para elaborar o cardápio. Crédito: Acervo pessoal/ Bianca

Bianca trabalhava em uma agência de viagem e foi demitida logo no início da pandemia do novo coronavírus. Já o fotógrafo Daniel e a personal chef Marília viram suas agendas serem esvaziadas porque muitos eventos foram cancelados. Renata era proprietária de uma doceria, mas desfez do negócio no início do ano, enquanto Gleide precisava de algo para complementar sua renda de diarista.

Apesar de não se conhecerem, esses cinco personagens têm em comum a superação. Todos eles souberam aproveitar suas habilidades culinárias para se reinventar diante da crise provocada pela Covid-19.

O setor de alimentação sempre foi uma saída para quem ficava sem renda ou desempregado. Agora na pandemia, quem oferece os serviços tem inovado. Os empreendedores estão oferecendo diversos produtos, além dos bolos e tradicionais pães, montam kits de festa junina e até jantares completos.

No início da pandemia, a advogada Bianca Dias Maciel de Azevedo, 24 anos, foi demitida da agência de viagens em que trabalhava. Depois de anos de trabalho com carteira assinada, ela decidiu partir para o empreendedorismo após ser desligada do emprego.

“Tem sido muito proveitoso esse momento. Como sou de família italiana e morei um ano na França, me inspirei nesses dois países para criar o Chez. Bianca para levar meus preparos até o cliente. O palava chez é de origem francesa e indica proximidade e lar. Foi quando morei no exterior que descobri o interesse pela gastronomia”, conta a jovem.

Bianca Dias Maciel de Azevedo, chefe de cozinha. Vende comida pela internet para driblar a crise
Bolinho de linguiça toscana com provolone feito pela chef Bianca Azevedo. Crédito: Acervo pessoal/ Bianca

O cardápio de Bianca conta com quiches, snacks, geleias, melbas e tábuas. Há ainda croquete de linguiça, dadinho de tapioca e bolinho de risoto com parmesão. Foi o marido da jovem que deu forças para que ela começasse a cozinhar profissionalmente. Familiares e amigos também deram uma forcinha para incentivar esse talento.

“O setor de turismo foi muito atingido pela crise. Desde março, comecei a vender meus produtos, o que se tornou um desafio diário. Isso porque em algumas semanas há muitos pedidos e em outras nem tanto. Há altos e baixos nesse negócio e o importante é conciliar muito bem isso. Estou muito realizada com este trabalho. É muito bom quando tenho o retorno das pessoas”, relata.

As vendas são feitas pelo Instagram (@chez.bianca), onde Bianca divulga todo o seu trabalho. O cliente pode fazer a retirada em local combinado ou pagar pela entrega.

Daniel Pereira Dias é fotógrafo e produz caldos para driblar a crise
Daniel Pereira Dias é fotógrafo e produz caldos para driblar a crise. Crédito: Acervo pessoal / Daniel Pereira Dias

As receitas da bisavó de Daniel Pereira Dias, 29 anos, foram a inspiração que ele precisava para driblar a crise. Fotógrafo de eventos, o jovem teve os contratos suspensos por causa da pandemia do novo coronavírus.

“O mercado de eventos estava indo bem e eu estava com a agenda cheia. Foi então que veio a crise e, sem muita alternativa, precisei passar para o ramo de alimentos. Cozinhava com minha mãe, que aprendeu a cozinhar com a avó dela. Unimos forças e estamos indo bem nesse negócio”, conta.

Daniel Pereira Dias, da Cozinha da Vovó Jojô, fotografo que vende comida pelas redes sociais
Daniel Pereira Dias, da Cozinha da Vovó Jojô, fotografo que vende escondidinho e caldos pelas redes sociais. Crédito: Divulgação/ Daniel Pereira Dias

Mãe e filho criaram a Cozinha da Vovó Jojô e se especializaram em escondidinho, caldos e kibes. Os produtos são congelados e em porções individuais de 400g. As encomendas são feitas pelo WhatsApp e Instagram (@cozinhadavovojojo).

“Trabalhar com alimentos foi uma surpresa muito agradável. Se tudo der certo, vou investir ainda mais nesse segmento. Sempre gostei de cozinhar, tive a ideia e criei a marca”, lembra.

Marília Borges, chef de cozinha que vende comida pelas redes sociais
Marília Borges refez o cardápio e se reiventou durante a crise. Crédito: Acervo pessoal/ Marília Borges

A personal chef Marília Borges, 46 anos, estava acostumada a preparar eventos gastronômicos para empresas e festas particulares. Além de preparar a comida, ela levava todos os itens de buffet e os garçons. Com o isolamento social e a agenda cancelada, a chef foi obrigada a se reinventar.

“Fiquei uns meses sem atividade até que tive a ideia de voltar a trabalhar com cardápios personalizados, de acordo com os eventos de cada mês. Comecei com a festa junina e deu muito certo. Na última semana, preparei o que seria servido em um casamento. Organizei tudo e deixei na casa da cliente”, comenta.

Sticks feitos pela chef Marília Borges. Crédito: Acervo pessoal/ Marília Borges
Sticks feitos pela chef Marília Borges. Crédito: Acervo pessoal/ Marília Borges

Marília conta que o mês de julho chega com várias surpresas, entre elas a conclusão do cardápio que inclui mesas de antepastos, pães artesanais e sticks.

“No início da pandemia, tínhamos a falsa percepção de que ia passar rápido, fiquei muito apreensiva, mas consegui dar um novo rumo para o meu trabalho. Consegui dar a volta por cima, com um planejamento detalhado do que eu poderia desenvolver profissionalmente. A partir daí, elaborei um novo cardápio, o que me deixou muito feliz. Está tudo dando certo e tenho a esperança de que tudo vai se normalizar”, afirma.

Marília Borges faz a divulgação de seu trabalho no Instagram (@mariliabgastronomia), no WhatsApp e entre amigos. Ela trabalhou por 16 anos como química industrial, antes de fazer o curso de gastronomia e trabalhar como personal chef.

“Precisamos sempre seguir em frente. Não podemos desistir. É preciso batalhar porque a pandemia vai passar e tudo vai voltar ao normal”, diz.

Pães feitos por Gleide Leão ramos da Provence Panetteria
Pães feitos por Gleide Leão ramos da Provence Panetteria. Crédito: Divulgação/ Lorena Alves

Os pães artesanais, sem aditivos químicos, são a especialidade de Gleide Leão Ramos, 45 anos. O cardápio vai desde pão integral até unidades que levam outros ingredientes como batata doce, maçã e banana. Ela ainda fabrica focaccia, pão de hambúrguer, empadão, kibe, entre outros. Tudo isso é feito com fermentação natural.

Gleide é diarista e para complementar a renda ela criou a Provence Panetteria, com entregas em Vitória e Vila Velha. Hoje, 80% de sua renda vem da fabricação dos pães. Ela ainda trabalha na casa de uma cliente, mas, por conta do isolamento social, não está desempenhando a função, por enquanto.

“Precisava de algo para ampliar minha renda, mas buscava algo que eu gostasse, que fosse saudável e diferenciado. Foi quando descobri a panificação. Passei a estudar sobre a alimentação natural e criei meu próprio fermento natural”, conta.

As vendas são feitas por uma lista de transmissão no WhatsApp e pelo Instagram (@provencepanetteria). Gleide ainda conta com a ajuda de blogueiros e antigos clientes que divulgam seu trabalho.

“Nas duas primeiras semana da pandemia, ninguém comprava nada. Entrei em desespero porque fiquei sem vender. Foi então que comecei a estudar estratégias de venda, inclusive com divulgação pelas redes sociais. Depois disso, percebi um crescimento e já tenho uma quantidade boa de encomendas. As vendas triplicaram em relação ao que comercializava antes da quarentena”, comenta.

Ela diz ainda que o pão leva, em média, 23 horas para fermentar. As unidades têm tamanhos variados.

“Sou carioca e vim para o Espírito Santo há mais de 20 anos para mudar de vida. Além de diarista, já fiz bombom e trabalhei como porteira. Amo o que faço e é gratificante saber que tem meus pães na casa das pessoas e que eles compartilham de bons momentos”, comemora.

Renata Ramos, chef de cozinha que trabalha vendendo cestas pela internet
Renata Ramos, chef de cozinha que trabalha vendendo cestas pela internet. Crédito: Divulgação/ Renata Ramos

Cestas personalizadas foram a aposta da chef Renata Ramos, de 47 anos. Ela era proprietária de uma doceria em Jardim Camburi, mas já tinha desfeito o negócio antes da pandemia começar.

“Em março, comecei a pensar no que iria fazer para ganhar dinheiro e foi bem na época que começou a quarentena. Foi nessa época que criei uma conta no Instagram (@chefrenataramos) para divulgar meu trabalho. Postei uma foto de uma cesta de café da manhã que minha sobrinha pediu para fazer para a mãe dela e foi assim que começou. Três dias antes do Dia das Mães já tinha produzido 30 cestas”, conta.

Renata Ramos, chef de cozinha que trabalha vendendo cestas pela internet
Cesta de Festa Junina produzida pela chef Renata Ramos. Crédito: Divulgação/ Renata Ramos

Renata é nutricionista e, em maio, começou a produzir cestas personalizadas para datas especiais como Dia dos Namorados e festa junina.

“Na cesta, coloco coisas que eu mesma faço: bolo, geleia, brownie e chocolate. Amo fazer coisas diferentes. Pela qualidade e apresentação do meu trabalho, as vendas estão fluindo bem. A ideia é que cada mês seja adequado a cada comemoração. Já recebi encomendas de pessoas que moravam fora de Vitória. No Dia dos Namorados, um rapaz que estava em Nova Iorque encomendou uma cesta para a namorada que estava na Capital. Estou há dois meses fazendo cestas e estou amando esse trabalho”, afirma.

As cestas são personalizadas de acordo com o pedido do cliente. As vendas são feitas pelo Instagram e por grupo de WhatsApp de amigos. As entregas são feitas por ela e pelo marido.

“Cada cesta tem uma história, por isso me dedico integralmente a cada uma delas. Dá muita satisfação ao ver alegria do cliente’, complementa.

DICAS PARA EMPREENDER

O ramo da gastronomia está em alta nesse momento. Sem poder sair, as pessoas passaram a consumir mais em casa, fortalecendo ainda mais esse segmento.

O economista Sebastião Demoner ressalta que o profissional que quer investir no ramo deve observar o que faz de melhor e o primeiro passo pode ser apostar no que os familiares e amigos sempre elogiaram.

“Se a pessoa nunca cozinhou, não adianta ir se aventurar na cozinha. Quem sempre cozinhou com amor e carinho pode investir no setor de alimentação que vai se dar bem”, destaca.

Ele ainda orienta que o empreendedor deve investir massivamente nas redes sociais, pois é lá que os consumidores estão. Saber calcular os custos da produção também é uma etapa importante para quem quer ter sucesso na gastronomia.

“O profissional vai precisar calcular todos os gastos para saber o quanto pode cobrar pelo produto e isso começa com os itens da receita. As coisas precisam ser feitas com rigor e disciplina e é preciso que isto esteja na cabeça do empreendedor”, salienta.

A apresentação dos produtos é a alma do negócio, segundo Demoner. De acordo com o economista, isso inclui qualidade, higiene, identificação da marca, entre outros pontos.

“É necessário estar predisposto a atender pessoas detalhistas. No ramo de alimentação, é preciso fazer uma comida da melhor qualidade para que o cliente compre, goste e volte a comprar e ainda faça a propaganda para amigos dele”, afirma.

Para a especialista em carreiras Daniela Morais, a pessoa também precisa estar alerta sobre as entregas. “Não adianta o produto ser ótimo, se chega na casa do cliente com atraso ou todo revirado. A logística também é bem importante nesse processo”, alerta.

A facilidade de se aprender receitas e a boa aceitação do consumidor são uma boa alternativa para quem quer completar a renda ou investir no próprio negócio. No entanto, o analista do Sebrae-ES Carlos Perrim avalia que muitos profissionais acabam fracassando porque não sabem fazer os cálculos dos gastos.

“É preciso entender a receita e a ficha técnica, fazer o produto e apresentá-lo. Entretanto, é necessário ter um equilíbrio de preços, ou seja, saber o quanto poderá ser cobrado. Fazer um cálculo errado pode colocar tudo a perder. Além dos ingredientes, nesse custo deve estar incluído outros gastos como aluguel, condomínio, gás, entre outros”, diz Perrim.

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