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Mulheres da periferia derrubam barreiras e abrem o próprio negócio

Trabalhar por conta própria e virar microempreendedora é uma oportunidade para driblar o desemprego e ganhar independência financeira

Publicado em 24/11/2019 às 07h09
Úrsula Massuchetto criou uma linha de aromatizantes, a Kizzala . Crédito: Fernando Madeira
Úrsula Massuchetto criou uma linha de aromatizantes, a Kizzala . Crédito: Fernando Madeira

As mulheres da periferia estão cada vez mais dando protagonismo às suas vidas. Algumas delas são chefes de família, sustentam suas casas e agora passaram a enxergar no empreendedorismo uma forma de driblar o desemprego ou alcançar a independência financeira.

Para as moradoras desses bairros, trabalhar por conta própria passa a ser uma questão de sobrevivência, principalmente porque enfrentam diversas barreiras, como a baixa escolaridade e poucas oportunidades que o mercado de trabalho oferece, sem falar nos baixos salários pagos a mulheres de uma forma geral.

Ao longo dos anos, elas passaram a contar com iniciativas que ajudam a potencializar os talentos de cada uma. O Dia do Empreendedorismo Feminino, comemorado na última terça-feira, dia 19, ressalta a importância dessas empresárias para a região em que moram.

Um bom exemplo é Úrsula Massuchetto, de 33 anos, moradora de Santo Antônio, em Vitória. Ela decidiu sair do emprego com carteira assinada para investir no sonho de comandar uma empresa. Criou a marca Kizzala, que significa vaidade em africano.

A comercialização é feita pelas redes sociais. A empresária faz questão de produzir, vender e entregar tudo que produz. “Sou uma mulher negra, periférica e que não tem problema nenhum com isso. Meus clientes estão em todo o lugar, inclusive na área nobre. Empreender é um desafio diário. Quero trabalhar com a minha marca e que ela seja a melhor. Trabalho sozinha, o que me dá uma grande satisfação”, conta.

A presidente do Instituto das Pretas, Priscila Gama, destaca que empreender potencializa todos os caminhos, como o combate à violência, a realização de sonhos, a necessidade de pagar as contas, entre outros.

“Se fizer um recorte estrutural, o mercado de trabalho nega espaço para mulheres negras, que ainda enfrentam o racismo e o machismo. E é aí que entra o empreendedorismo como uma forma de combater a violência, seja doméstica ou social, e viabilizar suas vontades e realizações pessoais”, avalia Priscila.

O protagonismo feminino pode ser refletido em números. De acordo com o Sebrae, mais de 197 mil mulheres são donas do próprio negócio no Espírito Santo. A maioria tem idade entre 35 e 45 anos, trabalha sem um sócio e exerce a atividade fora de casa.

O analista de atendimento do Sebrae, Carlos Perrin, ressalta que as mulheres costumam empreender utilizando suas aptidões. “Para elas, ter o próprio negócio está relacionado à realização de sonho, ao contrário dos homens, que pensam no retorno financeiro. Elas querem qualidade de vida”, afirma.

A qualificação também ajuda quem quer ter sucesso profissional. Desde o primeiro semestre deste ano, o governo estadual passou a oferecer oportunidades quem vive em bairros de vulnerabilidade social atendidos pelo Estado Presente. Ao todo, foram qualificadas 1.320 mulheres pelo Qualificar ES Mulher.

Leandra Del Esposti, Jaqueline de Jesus Silva dos Santos, Tatiana Maria Ferreira Brasil e Maira Persi, empreendedoras da Serra. Crédito: Fernando Madeira
Leandra Del Esposti, Jaqueline de Jesus Silva dos Santos, Tatiana Maria Ferreira Brasil e Maira Persi, empreendedoras da Serra. Crédito: Fernando Madeira

EMPREENDEDORAS SUPERAM DESAFIOS E REALIZAM SONHOSEmpreendedoras superam desafios e realizam sonhos

Trabalhar por conta própria pode ajudar a ficar mais perto dos filhos, a driblar o desemprego, a realizar sonhos e até a sair de uma depressão. Foi o que aconteceu com a pedagoga Jaqueline de Jesus Silva dos Santos, 35 anos, que abriu a sua tão sonhada loja de roupas em Feu Rosa, na Serra, após trabalhar como sacoleira.

“Empreender me ajudou a superar transtornos bipolar e do pânico e a depressão. Já atuei em padaria, loja de sapatos, entre outros. Ter a carteira assinada é bom pelo lado da segurança, mas nada supera a satisfação de trabalhar no que me dá prazer e liberdade.”

Foi por acaso que Tatiana Maria Ferreira Brasil, 33 anos, acostumada a trabalhar desde os 16, começou a empreender. Depois de preparar os doces do aniversário do filho, ela percebeu que poderia ganhar dinheiro com este talento.

“Quando meus filhos eram pequenos, precisei deixar o emprego para cuidar deles. De 2017 para cá, venho produzindo meus doces. Comecei atendendo encomendas de familiares, de amigos e hoje comercializo também nas redes sociais. Empreender me torna muito realizada. Quero sempre dar o meu melhor. Os elogios dos clientes me impulsionam”, relata.

Já para a artesã Maíra Persi, 29, empreender é ter liberdade financeira, fazer o que se acredita e sonha e ter qualidade de vida. Depois de passar por diversos problemas, entre eles o divórcio e a demissão, ela, que é formada em Administração, fez um curso de corte e costura.

“Costurei uma almofada e compartilhei em um grupo do condomínio. Foi assim que tudo começou. Vendia meus produtos também em feiras e em conjunto com parcerias. Há alguns meses fui amadurecendo a ideia de ter um ponto fixo. Há um mês realizei este sonho”, conta.

Mãe de trigêmeos, Leandra Del Esposti, 44, sonhou junto com Maíra e as duas abriram uma loja em Laranjeiras, na Serra. O artesanato faz parte da vida da empresária desde os 12 anos. Hoje, sua especialidade são laços e tiaras infantis.

As quatro microempreendedoras se conheceram na feira Erga-se, que reúne mulheres que querem divulgar produtos e impulsionar suas vendas. A ideia surgiu da conversa entre duas amigas, Káritas Devillart e Brenda Spairani, que decidiram ajudar empreendedoras a prosperarem em seus negócios. A próxima edição está marcada para 7 de dezembro, em Laranjeiras.

EMPREENDEDORISMO TEM PODE TRANSFORMADOR

A superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú, Luciana Nicola, acredita no poder transformador do empreendedorismo. O foco da instituição também é chegar na periferia. Confira a entrevista:

Por que focar na mulher empreendedora da periferia?

As mulheres desse grupo social não se veem como empreendedoras, pois acreditam que trabalhar por conta própria é apenas uma questão de sobrevivência. Quando elas percebem que podem ganhar dinheiro com seus negócios, passam a ter uma sensação de liberdade. Algumas delas enfrentam violência doméstica, por exemplo, ou passam por muitos preconceitos ao saírem do sistema prisional, por isso que investir em algo para elas mesmas empodera e melhora a autoestima. 

Quais os resultados do empreendedorismo feminino nas comunidades onde elas moram?

O fomento gerado por esses negócios é muito importante. Essas mulheres investem no bairro onde moram, contratam serviços e geram empregos na região, entre outros pontos. O empreendedorismo é uma porta de transformação social e pode mudar a realidade de nosso país. Isso sem contar com o impacto financeiro que elas provocam dentro de suas famílias. 

Qual o trabalho do banco para essas mulheres?

Percebemos que elas são mais cautelosas com o dinheiro e pegam menos empréstimos. Pensando nisso, oferecemos uma linha de crédito específica para essa microempreendedora individual. Nosso trabalho também é oferecer vídeos, artigos e ferramentas dedicados a diversos assuntos como gestão, finanças, marketing, inovação, entre outras. Recentemente realizamos minicursos em grupos de whatsapp, com vídeos que funcionaram como pílulas de conhecimento. Essa foi apenas uma das ideias que tivemos para chegar até esse público. Somos focados em inspirar, capacitar e conectar essas mulheres para que elas se vejam como empreendedoras e possam ser motivadas a se desenvolverem. Também incentivamos a formalização de seus negócios, via Microempreendedor Individual (MEI).

REALIZADAS. ELAS AMAM O QUE FAZEM

Andrea Santos Moura transformou a garagem em lanchonete . Crédito: Vitor Jubini
Andrea Santos Moura transformou a garagem em lanchonete . Crédito: Vitor Jubini

Andrea Santos Moura, 47 anos, tem uma loja na garagem de casa onde vende empadão, feijão tropeiro, bolos e doces. Ela mora em Eldorado, na Serra, e começou o negócio em uma barraquinha montada perto de sua residência. “Consegui realizar meu sonho me inspirando em outras pessoas. Amo o que faço e minha maior satisfação é ter o reconhecimento dos clientes.”

Francimar da Silva Veiga confecciona tapetes com técnicas que aprendeu com a mãe. Crédito: Fernando Madeira
Francimar da Silva Veiga confecciona tapetes com técnicas que aprendeu com a mãe. Crédito: Fernando Madeira

A artesã Francimar da Silva Veiga, 52, aprendeu a fazer tapetes ainda criança. Para incrementar suas atividades, ela fez o curso de costura pelo Qualificar ES Mulher, em Jesus de Nazareth, Vitória. Com as aulas, ela aprendeu novas técnicas e melhorou seu desempenho no artesanato, que ajudou a ampliar suas vendas. “Trabalhar ocupa a mente e ajuda a esquecer os problemas do dia a dia”, conta.

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