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Como a cadeira de trabalho afeta a vida de quem está em home office

Como a cadeira de trabalho afeta a vida de quem está em home office

Especialistas dizem que o item ideal é aquele com apoio para os braços e com opções de regulagem de altura para evitar problemas de dor crônica e lesões

Publicado em 26 de junho de 2020 às 12:18

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Cadeira para trabalhar em home office pode causar dores na coluna
Cadeira errada usada para trabalhar em home office pode causar dores na coluna e outras doenças. (Pixabay)

No ambiente de trabalho, a cadeira sempre foi um instrumento para revelar o status profissional. Nos anos de 1990, por exemplo, quanto melhor, maior e mais caro era o objeto, maior era a importância desse profissional dentro da empresa. Nessa época, havia um conceito de divisão hierárquica e as cadeiras do diretor e do gerente eram melhores, enquanto as dos outros funcionários eram inferiores.

Com o passar do anos, a situação começou a mudar com a importância da ergonomia e muitas companhias passaram a adotar cadeiras iguais para todos com a intenção de reduzir os prejuízos à saúde e evitar demandas judiciais.

Com  o home office, a cadeira de trabalho se tornou um problema. Isso porque a pandemia levou várias pessoas a migrarem para o trabalho remoto e a cadeira da sala de jantar virou um instrumento de trabalho. Por estar longe de ser ideal, profissionais passaram a reclamar de dores da coluna e Lesão por Esforço Repetitivo (LER) por conta do desconforto.

Alguns trabalhadores até compraram uma cadeira melhor, mas encontrar uma boa e com preço adequado tem sido complicado. Há modelos que custam em torno de R$ 125, podendo chegar a passar de R$ 2.000. Especialistas chegam a dizer que o melhor instrumento de trabalho está na faixa de R$ 10 mil.

Os desafios de trabalhar em home office são inúmeros, pois é necessário saber diferenciar as tarefas de casa com as do trabalho, manter a saúde em dia e ainda evitar eventuais dores de coluna ou outro tipo de lesão.

O ortopedista e professor da UVV, Gabriel Moura, avalia que o modelo ideal de cadeira é aquele com apoio para os braços e com opções de regulagem de altura, para que os braços fiquem alinhados com a mesa de trabalho e também para que os pés não fiquem sem apoio.

“É importante também ter um apoio para os pés, principalmente para o caso de pessoas que sejam mais baixas. É importante lembrar que não adianta ter uma cadeira super moderna, se o paciente não senta adequadamente. É preciso sentar-se com as costas toda apoiada no encosto. Com certeza sai mais barato comprar uma cadeira boa e confortável do que bancar um tratamento para dor ou ficar indo ao médico”, comenta do ortopedista.

Outro alerta do médico é sobre a altura da tela do computador, que também é um problema muito frequente. Ele lembra que às vezes a cadeira e a mesa estão corretas, mas o posicionamento do equipamento não.

“O ideal é que o meio da tela fique na linha dos olhos do profissional. A pessoa não pode ficar olhando para baixo nem muito para cima para conseguir ver a tela”, comenta.

Moura também alerta sobre a importância de se fazer intervalos de alguns minutos a cada hora para evitar dores. “Levantar para buscar água na geladeira, por exemplo, ajuda a dar uma movimentada nos músculos. Nosso corpo não está preparado para ficar muitas horas sentado. Estudos mostram que a posição sentada, com o tronco pra frente, é a posição que mais você força a coluna, gera muita pressão em cima do do disco intervertebral”, destaca.

O advogado Vinicius Bourguignon sabe bem o que é sentir dores nas costas por ficar um longo período sentado. Em tempo de pandemia, ele transferiu o escritório para casa, mas acaba usando a mesa da sala para trabalhar.

“Para evitar sentir dor, faço alguns alongamentos pela manhã e ao longo do dia, e até troco de cadeira. Ficar muito tempo sentado gera alguns incômodos, mas prefiro fazer pequenas pausas para evitar entrar em crise e precisar tomar remédios”, comenta.

O QUE DIZ A LEI

A contadora especialista em gestão orçamentária e controladoria, Emanueli Cristini, sócia da Ebitdah, lembra que a Medida Provisória 936 abriu a possibilidade de se realizar a mudança do regime presencial para teletrabalho.

Ela lembra que a lei diz que o empregador tem que dar as condições mínimas de trabalho como estrutura e equipamentos necessários para que o funcionário possa exercer sua função em home office.

Emanueli explica que a Norma Regulamentadora 17 esclareceu algumas dessas condições mínimas e estabeleceu parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente.

“Sobre a questão da ergonomia, ou seja, conforto dos assentos dos trabalhadores, a NR diz que a altura do assento deve ser ajustável à estatura do trabalhador e à natureza da função exercida; ter características de pouca ou nenhuma conformação na base do assento, borda frontal arredondada e encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região lombar”, explica.

O advogado trabalhista e previdenciário, Lino Peterlinkar, ressalta que o trabalho em domicílio está previsto na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) há muitos anos e que algumas empresas e o setor público já utilizavam a ferramenta. Ele conta o caso de uma empresa de Cachoeiro de Itapemirim que em 1943 adotou a prática colocando todas as costureiras trabalhando em casa.

“Na época, a companhia colocava a disposição dessas funcionárias as máquinas de costura e todo o material necessário para desempenho das atividades”, recorda.

Peterlinkar destaca que, assim como nos anos 1940,  a empresa precisa dar condições para o funcionário desempenhar suas tarefas em casa. A regra atual está prevista no artigo 4º da Medida Provisória 927.

“Cabe ao empregado dizer o que precisa para trabalhar e o que não está adequado para ele, se é um computador melhor ou de uma cadeira, por exemplo. A medida que as condições de trabalho mudam, como indica a história, novos paradigmas vão surgindo. O trabalho em casa acaba proporcionando uma melhor qualidade de vida para as pessoas, as mas precisamos nos adaptar à nova realidade”, comenta..

A empresa precisa fornecer as condições necessárias para desempenho das funções do funcionário em casa, e isso inclui equipamentos. O assunto foi reforçado pela MP 927, que, no artigo 4º, dita: se houver despesas a serem pagas ou ressarcidas pela empresa, as condições deverão ser estabelecidas por escrito, e a empresa poderá fornecer os equipamentos em regime de comodato e pagar por serviços de infraestrutura, que não caracterizam verba de natureza salarial.

Cadeira Escritório Day Comprealegre com relaxamento. É vendida pelo preço médio de R$ 579 (Reprodução/internet)

O QUE UMA CADEIRA IDEAL PRECISA TER

O professor de fisioterapia da Estácio Osni Stein Junior dá dicas sobre como escolher a cadeira ideal.

Trabalho em home office
Trabalho em home office. (Pixabay)

ALTURA DO ASSENTO

  • O básico que uma cadeira de escritório precisa ter é o ajuste de altura de assento, todas praticamente têm isso. A regulagem precisa ser feita para que se consiga ficar com os dois pés apoiados no chão.

  • A perna não pode ficar pendurada porque pode tracionar o quadril e botar uma desmasiada pressão na tuberosidade isquiática, ali na região do bumbum. Se o assento ficar regulado também muito baixo, acontece o mesmo problema porque a coxa não vai ser distribuída no assento como um todo.

  • O profissional tem que ficar mais ou menos com 90 graus de flexão de joelho e com o pé todo apoiado no chão. O quadril também gira em torno de 100 graus de flexão de quadril em relação à coluna lombar.

PROFUNDIDADE

  • Sobre a profundidade do assento, a borda tem que quase encostar na região posterior da perna e não pode empurrar a panturrilha para frente nem ficar muito afastado. A borda do assento tem que ser arredondada para ser mais confortável.

APOIO PARA BRAÇO

  • A cadeira de escritório tem que ter o apoio de braço. Sem esse apoio, a pessoa fica o tempo inteiro com a musculatura do trapézio e do ombro ativada. Se não tiver um apoio para essa musculatura, ela fica o tempo inteiro no linear de ativação muito alto e com passar do tempo pode dar dor nos ombros, dor na cervical por exemplo.

  • Não adianta só ter o apoio, é preciso que ele também seja ajustado, ficando um pouco abaixo da altura do cotovelo com o braço esticado. Se o apoio ficar muito baixo tende a ficar com o corpo inclinado para as laterais e se ficar alto, a pessoa fica com o ombro elevado, o que pode resultar em problemas futuros por ficar muito tempo nesta posição.

ENCOSTO

  • O encosto é o que deixa a cadeira mais cara. São raros os escritórios que oferecem a opção de cadeira com opção de regular a inclinação do encosto. A cadeira não deve ficar 90 graus entre o encosto e assento. É desconfortável.

  • A inclinação tem que ser mais ou menos em torno de 100 graus. Ninguém fica sentado bem reto o tempo inteiro, é preciso relaxar a postura espinhal. E a altura do encosto tem que ficar abaixo das escápulas.

CADEIRA X MESA

  • A cadeira interage com outras coisas, como a mesa de trabalho. O braço da cadeira precisa estar alinhado ao tampo da mesa, como se fosse tudo um plano só, para também estar alinhado ao teclado do computador.

PAUSAS

  • O ideal é fazer pausas de 10/15 minutos de hora em hora. As dores que estamos sentindo agora na quarentena não são só derivadas de uma cadeira. A dor é multifatorial, é uma interpretação do cérebro, tanto é que cada pessoa reage de formas diferentes ao mesmo estímulo doloroso.

  • O senso comum acredita que a dor é só um processo físico, mas não é. É psicológico, cognitivo, a dor é interpretada no cérebro, e existem mecanismos que podemos usar como meditação, psicoterapia, em relação a parte cognitiva psicológica. Não adianta só adquirir uma cadeira boa, é preciso trabalhar todos esses outros mecanismos.

Fonte: Osni Stein Junior, professor de fisioterapia da Estácio

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