> >
Café, frutas e indústria: como acordo do Mercosul e União Europeia vai beneficiar o ES

Café, frutas e indústria: como acordo do Mercosul e União Europeia vai beneficiar o ES

Após mais de duas décadas, os dois blocos econômicos chegaram a um entendimento para ampliar a negociação de produtos; veja impactos do tratado no Espírito Santo

Publicado em 9 de janeiro de 2026 às 15:17

 - Atualizado há um dia

Após mais de duas décadas de negociações, a União Europeia aprovou, nesta sexta-feira (9), o acordo de livre comércio com o Mercosul, bloco econômico do qual o Brasil é integrante e um dos principais articuladores na busca pela formalização do tratado. Mas o que esse pacto representa para a economia do Espírito Santo

Para Sidemar Acosta, presidente do Sindicato do Comércio de Importação e Exportação do Espírito Santo (Sindiex), o acordo é visto como uma oportunidade histórica, tanto para o país quanto para o Estado, ao abrir acesso preferencial ao mercado europeu e eliminar tarifas sobre diversos bens comercializados entre os blocos. Segundo ele, isso aumenta a competitividade de produtos brasileiros que já possuem demanda na Europa, como café, frutas e açúcar, além de criar espaço para novos nichos e atrair investimentos estrangeiros.

Café é um dos principais produtos da pauta exportadora capixaba
O café é um dos principais produtos da pauta exportadora capixaba e que pode ter mais competitividade na Europa Crédito: Freepik

"Para o Espírito Santo, exportador tradicional de produtos como café, minerais e bens agrícolas, o acordo pode impulsionar as vendas externas, diversificar destinos e tornar mais competitiva a importação de insumos industriais, máquinas e tecnologias europeias, com redução de custos", ressalta. 

Sidemar também pontua que a maior previsibilidade nas regras comerciais também facilita o planejamento das empresas associadas ao Sindiex e fortalece cadeias produtivas locais, especialmente em um Estado com forte vocação logística e portuária.

Economista-chefe da Apex Partners, Arilton Teixeira avalia que, a despeito de algumas reações negativas, particularmente na França, todos os países que integram os dois blocos econômicos devem ter ganhos com o acordo.

Entre os franceses, a resistência tem sido feita por produtores rurais que, conforme estima, representam cerca de 7% da população. "Mas os outros 93% se beneficiariam com alimentos mais baratos", exemplifica, acrescentando que a produção brasileira é maior e, com a redução das tarifas, pode chegar à Europa muito mais competitiva. 

Mas, se para o setor agrícola o acordo se apresenta como oportunidade, para outras áreas os desafios podem ser maiores. A concorrência com produtos europeus em setores industriais e de maior valor agregado tende a se intensificar, exigindo investimentos em modernização tecnológica, eficiência produtiva e inovação, conforme observa Sidemar Acosta.

"Além disso, normas ambientais e sanitárias rigorosas da União Europeia, muitas vezes associadas ao chamado protecionismo verde, podem se tornar barreiras não tarifárias caso os produtos capixabas não atendam plenamente a esses padrões", alerta o presidente do Sindiex. 

Como o acordo ainda precisa ser formalizado e, até lá, pode sofrer ajustes, Arilton Teixeira também demonstra preocupação com as proteções que serão estabelecidas pela União Europeia. "Sempre fui muito pessimista em relação à possibilidade de se chegar a um acordo por conta das questões da agricultura e, a depender das salvaguardas, quer dizer, se houver muitas barreiras quantitativas, os benefícios vão caindo."

Agora, porém, Arilton considera mais difícil um recuo dos europeus e vê o indicativo do acordo como uma sinalização favorável para o Brasil e o Espírito Santo. "Do lado positivo, abre-se um mercado muito bom para a gente."

Os reflexos na economia capixaba, contudo, não são imediatos. Sidemar Acosta esclarece que, além de o acordo ainda depender de ratificação dos países europeus para entrar em vigor, mesmo após a formalização a eliminação tarifária ocorrerá de forma gradual ao longo de vários anos. "Isso indica que os impactos serão progressivos e exigirão preparação estratégica das empresas para aproveitar plenamente as oportunidades", conclui.

Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) também foi procurada para comentar o assunto e informou que acompanha posicionamento da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), que considera o acordo um passo significativo para avançar na inserção internacional do Brasil e fortalecer o setor industrial do país.

Para as entidades, o tratado é o mais moderno e abrangente já negociado pelo Mercosul e prevê impactos econômicos e sociais expressivos. A CNI pontua que o acordo deve refletir mais significativamente sobre os investimentos bilaterais, ao ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e fortalecer disciplinas relacionadas à facilitação de comércio e investimentos.

"Esse ambiente mais estável favorece a competitividade das empresas, estimula o comércio intrafirma, reduz custos operacionais nas cadeias globais de valor e cria condições mais favoráveis para a internacionalização de empresas brasileiras e a atração de investimentos estrangeiros diretos", analisa a CNI, em nota divulgada nesta sexta. 

Atualização
09/01/2026 - 15:30hrs
A Findes se manifestou após a publicação da reportagem. O texto foi atualizado. 

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais