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Bactérias, fungos e até ervas daninhas encontrados em sementes misteriosas

Análises preliminares do Ministério da Agricultura apontaram que grãos enviados a consumidores do país, sem solicitação, estão contaminados e podem oferecer riscos

Publicado em 06/10/2020 às 11h03
Atualizado em 06/10/2020 às 14h05
Moradora de Vila Velha recebeu sementes junto com encomenda errada
Moradora de Vila Velha recebeu sementes junto com encomenda errada. Crédito: Reprodução

As primeiras análises oficiais nas sementes misteriosas que vêm sendo enviadas por correspondência a brasileiros com encomendas internacionais, sem serem solicitadas, comprovam que elas podem trazer problemas. De 39 amostras de sementes já analisadas pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de Goiânia, ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), 37 estão contaminadas com materiais com risco potencial.

Em 25 amostras, foram encontradas três tipos de fungos diferentes. Em duas amostras, bactérias ainda não identificadas. Em quatro amostras, há a possibilidade de pragas quarentenárias, como ervas daninhas que não existem no país, e, em uma foram identificados ácaros vivos, conforme informações divulgadas pelo Mapa em entrevista coletiva, na manhã desta terça-feira (6). A existência de fungas nas sementes já havia sido adiantada na segunda-feira, em reportagem de A Gazeta.

As análises envolvem desde microscopia, até sequenciamento genético das sementes. Em alguns casos, entretanto, o material genético localizado no grão foi considerado insuficiente, e as sementes chegaram inclusive a ser germinadas em laboratório, sob controle, para que pudesse ser feita a identificação das espécies e do tipo de risco que trazem.

O Ministério da Agricultura já confirmou 258 pacotes de sementes não identificadas no país, embora nem todas tenham chegado ao laboratório para análise. O material já foi identificado em 25 Estados. As exceções são Maranhão e Amazonas, que ainda não tiveram registros. No Espírito Santo, uma série de moradores têm relatado o recebimento do produto nos últimos dias, conforme já mostrado em A Gazeta.

Na última terça-feira (29), uma maquiadora de Vila Velha recebeu uma encomenda desse tipo após fazer compras em um site que vende produtos internacionais, principalmente de fornecedores asiáticos. Os pacotes que foi buscar no centro de distribuição dos Correios, além de não conterem os itens adquiridos, tinham alguns grãos embalados em plástico. Depois da publicação do relato, outras pessoas entraram em contato com A Gazeta relatando situações similares.

Após a embaixada do governo chinês afirmar que havia indício de fraudes na rotulagem dos pacotes, ganhou força a teoria de que os envios sejam parte de um esquema para que vendedores desses sites internacionais obtenham boas avaliações em remessas que nem sequer foram solicitadas. O golpe é chamado de "brushing" e consiste no envio de compras falsas (nesses casos as sementes) que geram, sem seguida, avaliações forjadas sobre os produtos que eles querem realmente vender, enganando os consumidores.

As sementes seriam utilizadas porque são pequenas e leves, o que torna o envio da remessa menos caro. Contudo, o risco para quem recebe é alto, já que mesmo o ato de descartar as sementes no lixo comum pode trazer consequências desastrosas.

Assim, apesar de haver a possibilidade de tratar-se de uma fraude, o Ministério da Agricultura manteve o alerta para que os consumidores tenham cuidado caso recebam as sementes não solicitadas. 

“Estamos falando de material não solicitado, que não tem controle e não sabemos a origem nem o que está carregando. Apesar da pequena quantidade, podem trazer pragas para a nossa agricultura, como plantas daninhas, fungos, outras doenças como bactérias, vírus”, disse o secretário de Defesa Agropecuária, José Guilherme Leal.

Além disso, as sementes podem ter sido tratadas com algum elemento químico ou ser um produto tóxico, por isso não devem ser manuseadas pelas pessoas, plantadas ou descartadas no lixo (para evitar uma possível germinação).

Conforme observou o diretor do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas, Carlos Goulart, as sementes são os insumos que mais têm carga regulatória no mundo, porque o risco iminente é o mais alto que existe. Segundo ele, o recebimento desse material não solicitado nessa quantidade é inédito no mundo.

“Essa importação de material, solicitado ou não sem a certificação, sempre foi proibida no Brasil e no mundo. O que chamou a atenção foram usuários terem recebido os pacotes sem terem sido solicitados”.

A orientação é para que as pessoas não descartem a embalagem original dos pacotes. As informações contidas na embalagem são importantes para rastrear a origem do material.

Caso recebam os pacotes, os consumidores devem entregá-los às autoridades de defesa agropecuária, como a Superintendência do Mapa ou o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal no Espírito Santo (Idaf). Se, por algum motivo, foi feito o plantio das sementes de forma inadvertida, as autoridades também devem ser comunicadas para que façam a remoção e destruição do produto.

"Ainda é preciso concluir todas as análises, e é um trabalho contínuo, porque as sementes continuam chegando. Mas, mesmo que se identifique que elas não trazem riscos, não significa que outras não possam trazer. Então, o alerta segue", reforçou Goulart.

SEMENTES PRECISAM DE CERTIFICAÇÃO PARA SEREM IMPORTADAS

O Ministério da Agricultura destacou que a entrada de sementes no Brasil só pode vir de fornecedores de países com os quais o Mapa já tenha estabelecido os requisitos fitossanitários. Esse material deve ser certificado pelas autoridades fitossanitárias do país exportador.

Antes de autorizar a importação da semente de determinado país, a pasta realiza análise de risco de pragas para identificar quais podem ser introduzidas por aquelas sementes. A partir disso, ficam estabelecidas medidas fitossanitárias a serem cumpridas no país de origem para minimizar o risco de introdução de novas pragas no Brasil por meio da importação desse material.

A importação de vegetais sem autorização pode facilitar a entrada de pragas ou doenças que não existem ou estão erradicadas no país, além de causar prejuízos econômicos. Para evitar o risco, o Mapa afirma que atua no controle do e-commerce internacional com equipe dedicada a fiscalizar e impedir a entrada de material sem importação autorizada no país.

CONSEQUÊNCIAS

A aquisição de sementes ou mudas que não atendem às regras estabelecidas pelo Mapa pode resultar na introdução de pragas que ainda não estejam presentes no país, podendo causar danos irreversíveis à agricultura nacional.

O órgão destacou que a introdução de uma praga e sua disseminação no país, além de ser tipificada como crime ambiental, pode trazer quedas na produção, comprometer a disponibilidade de alimentos, provocar o aumento dos preços dos alimentos à população e, inclusive, provocar a eliminação de postos de emprego em toda a cadeia produtiva.

Para exemplificar o impacto que a introdução de uma nova praga no país pode causar podemos citar a introdução da praga “vassoura de bruxa” nas lavouras de cacau do Sul da Bahia em 1989, que dizimou todo o setor produtivo e a economia da região. Por causa dessa praga, o Brasil passou de exportador para importador de cacau.

* Com informações de Natalia Bourguignon

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