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A publicitária Paola Lobato, 25 anos, nunca teve Covid-19 apesar de vários contatos com infectados. Ela quer participar de estudo sobre super-resistentes
A publicitária Paola Lobato, 25 anos, nunca teve Covid-19 apesar de vários contatos com infectados. Ela quer participar de estudo sobre super-resistentes. Crédito: Carlos Alberto Silva/Montagem

Quem são os super-resistentes à Covid? A ciência tenta revelar esse mistério

Moradora de Vitória está em seleção para ser voluntária em estudo para descobrir se tem 'poder especial' contra o coronavírus. A causa dessa condição ainda não foi descoberta, mas as principais suspeitas são a pré-disposição genética e a imunidade cruzada

Tempo de leitura: 4min
Publicado em 26/06/2022 às 08h21

Após mais de dois anos de pandemia, é difícil encontrar alguém que ainda não tenha sido contaminado pela Covid-19, especialmente quando em contato com outros infectados. No entanto, essas pessoas existem e já são chamadas de "super-resistentes" pelos pesquisadores, que estudam como elas podem contribuir para o fim da doença.

Os casos que mais instigam a comunidade científica são dos profissionais da saúde que lidam com pacientes infectados, quase todos os dias e de forma direta, além dos casais em que somente um dos parceiros adoece. Apesar de ser observada com certa frequência, ainda não se sabe qual a causa dessa condição.

Uma das pessoas que acredita ser "super-resistente" é a publicitária Paola Lobato, de 25 anos. Moradora de Vitória, ela estava na Itália quando o surto da pandemia começou na Europa, em março de 2020. Durante os últimos anos, foram mais de 15 testes para saber se tinha a doença, além do contato direto com pelo menos 7 pessoas infectadas. Nenhum teste positivado.

"Fiquei quatro horas dentro de um carro, fechado, com vários dos meus parentes doentes. Todo mundo pegou, menos eu. No ano passado, minha mãe e minha avó também pegaram e ficaram circulando dentro de casa sem saber que estavam com a Covid. Mais uma vez, não tive nada", relembra.

No início deste ano, Paola se candidatou para participar de um estudo sobre pessoas super-resistentes na The Rockefeller University, nos EUA. Chegou a responder alguns formulários e ser considerada apta, mas ainda aguarda ser chamada para as próximas fases.

"Li uma matéria sobre o recrutamento de pessoas que não tinham pegado a doença e resolvi me voluntariar. Como vi que me encaixei nos pré-requisitos, eu me inscrevi para ajudar a ciência. Acredito que eu tenho resistência, sim", afirma.

POSSÍVEIS EXPLICAÇÕES

Até o momento, existem pelo menos quatro hipóteses que justificam a existência desse grupo. A primeira seria uma imunidade cruzada, ou seja, pessoas que já tiveram contato com algum tipo de coronavírus antes e adquiriram uma maior resistência diante do Sars-CoV-2.

"Vale frisar ainda que, em qualquer doença, uma parcela das pessoas acaba não sendo infectada. Um exemplo bem marcante disso é o HIV (causador da Aids), que também é viral. Na época do surto, várias não pegaram", explica o infectologista Daniel Junger.

Outra possibilidade seria a predisposição genética, que bloquearia a entrada do vírus no corpo do indivíduo. Um grupo também estudado é o de pessoas que já tinham células T protetoras, mesmo sem ter contato com o vírus. Essas células ajudam a organizar a resposta do organismo, reconhecendo e matando as células infectadas pelo Sars-CoV-2.

Também pode existir uma correlação com o tipo sanguíneo dos pacientes, só que ainda não é possível confirmar essa ligação, segundo pontua Junger (saiba mais detalhes no infográfico abaixo).

Daniel Junger

Infectologista

"Muitas vezes, eles acham que não pegaram, mas apenas ficaram assintomáticos. No futuro, dependendo da variante, podem apresentar um quadro mais grave. Devemos nos considerar suscetíveis e tomar as medidas de prevenção"

"Não tem como a gente dizer que determinado tipo sanguíneo é mais resistente do que o outro. Vimos, indistintamente, todos os tipos sanguíneos serem internados nos períodos de pico da doença. Já no caso da mutação genética, para o vírus entrar na célula, ele tem que se encaixar no receptor. Aquela coisa de chave-fechadura. Esse receptor é uma proteína. Se eu tenho uma mutação no gene que produz essa proteína, vai ser uma fechadura com formação diferente. A chave não entra e a pessoa não adoece", explica.

Junger aponta que há casos em que um casal vacinado passou pela variante delta – uma das mais agressivas –, mas só um pegou o vírus. "Logo depois, aquele que não pegou a delta contraiu a ômicron. São coisas ainda sem explicação. Ainda temos muita coisa a descobrir", acrescenta o infectologista.

Ele alerta ainda que não é possível afirmar que essas pessoas são totalmente imunes à Covid e não correm mais o risco de serem infectadas. Destacou também que, mesmo com a aparente proteção, deve se atentar sempre aos protocolos de segurança contra a doença.

"Muitas vezes, eles acham que não pegaram, mas apenas ficaram assintomáticos. No futuro, dependendo da variante, podem apresentar um quadro mais grave. Devemos nos considerar suscetíveis e tomar as medidas de prevenção", adverte. 

CONTRIBUIÇÕES PARA A CIÊNCIA

Um dos principais desdobramentos da "super resistência" são as contribuições que podem surgir na luta contra a doença. Novos medicamentos e imunizantes devem ser disponibilizados utilizando os próprios elementos que geram essa imunidade, além de impedir o desenvolvimento da Covid-19.

De acordo com o jornal O Globo, uma equipe internacional de pesquisadores, incluindo uma brasileira, está conduzindo um estudo para identificar os genes que protegem esses indivíduos resistentes. Atualmente, já são cerca de 700 voluntários inscritos e mais de 5 mil em análise.

Assim que identificados os possíveis candidatos, os pesquisadores vão comparar os genomas desses indivíduos com os de pessoas que foram infectadas, em busca de genes associados à resistência. As descobertas podem levar a melhores medicamentos e conselhos de saúde pública mais direcionados.

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