Repórter de Cotidiano / [email protected]
Publicado em 7 de junho de 2021 às 02:00
Pelo menos duas prefeituras, das seis que podem ser excluídas da duplicação da BR 101, na Região Norte do Espírito Santo, pretendem recorrer ao apoio dos parlamentares estaduais e federais, além do governo estadual, para reverter a situação. Eles destacam que os trechos da rodovia que cortam suas cidades são perigosos, com grande número de acidentes, e por isso precisam da obra de ampliação. >
A proposta de suspender a ampliação da rodovia a partir da Reserva Biológica (Rebio) de Sooretama até a Bahia foi apresentada, em um documento, que a reportagem de A Gazeta teve acesso, pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), para apresentada para a Eco101, concessionária que administra a rodovia.>
O objetivo da ANTT é solucionar o impasse do licenciamento ambiental da obra no Trecho Norte, que já foi negado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio). A informação está em um ofício encaminhado pela Agência para a Eco101 no último dia 6 de abril.>
Por esta alternativa, ficariam excluídos da duplicação seis municípios dos 25 que são percorridos pela rodovia no Espírito Santo: Sooretama (a reserva, sua área de amortecimento e outros trechos que cortam a cidade), além de Jaguaré, São Mateus, Conceição da Barra, Pinheiros e Pedro Canário. Também seria afetado o município de Mucuri, na Bahia, incluído na reta final do trecho a ser duplicado. O trecho não ampliado, segundo a proposta, seria substituído por terceira faixa em pontos críticos.>
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O prefeito de Conceição da Barra, Walyson Vasconcelos, o Mateusinho, destaca que foi surpreendido com a alternativa levantada pela Agência. “Já não basta o atraso significativo na realização da obra, com prazos que não foram cumpridos, agora querem tirar cidades do Norte do Espírito Santo da duplicação? É inadmissível”, assinala.>
Ele informou que já buscou o apoio de parlamentares federais para reverter a situação. “Conversei com o deputado Da Vitória e ele nos prometeu uma vista para acompanhar e discutir esta situação de perto”, relatou. >
Mateusinho destaca que é vice-presidente do Prodnorte, consórcio público que reúne 12 municípios do Norte e Noroeste do Estado, e que pretende marcar uma reunião para discutir o assunto. “Quero marcar uma reunião para juntos reforçarmos o pedido junto à bancada federal de sermos assistidos com mais respeito em relação à duplicação da BR 101”, explicou.>
Ele destaca que no trecho da rodovia que corta a sua cidade ocorrem muitos acidentes, inclusive com mortes. “Necessitamos da duplicação, até para preservar a vida de quem por aqui passa. E sem contar ainda os trevos que não foram feitos de acesso a várias localidades de um município onde o turismo é muito importante. Ficamos neste impasse diante dos nossos munícipes, que cobram a obra que é de obrigação da concessionária”, conta.>
Marcos Guerra, prefeito de Jaguaré, também considera a proposta da ANTT de não duplicar a rodovia em parte do Trecho Norte “inaceitável”. Lembra que a substituição da obra por terceira faixa em pontos críticos não atende a demanda dos municípios.>
Marcos Guerra
Prefeito de JaguaréAdiantou que pretende “brigar” para evitar que esta alternativa seja posta em prática. “Nós vamos brigar para que isso não aconteça. Vamos envolver a Câmara Municipal de Jaguaré, vamos até os deputados estaduais, deputados federais e, se for preciso, vamos até o governador para impedir que isso aconteça”, disse.>
Informa ainda que o trecho da BR 101 que atravessa Jaguaré é perigoso e é marcado por acidentes graves e frequentes, tendo como característica as diversas ondulações presentes no local.>
O deputado estadual Fabrício Gandini, que preside a Comissão Especial da Assembleia Legislativa que fiscaliza a concessão da BR 101, considera que a proposta apresentada pela ANTT modifica uma parte importante do contrato de concessão da rodovia.>
“Esta alternativa modifica muito o objeto da concessão da BR 101, em vigor. Uma modificação que precisa ser dialogada com a sociedade para chegar a um meio-termo. Sou contra esta exclusão de municípios da duplicação”, destaca o parlamentar.>
Ele lembra que, desde 2014, todos os usuários da rodovia pagam pedágio ao passar pelas sete praças, recursos destinados a uma duplicação cujas obras estão em atraso. “São sete anos pagando pela duplicação, cuja obra já tinha que estar com 90% encaminhada. E não é o que temos”, observou.>
A comissão pretende reunir, em data ainda não agendada, ambientalistas para debater sobre as alternativas que podem viabilizar a duplicação do trecho norte da BR 101, uma delas o contorno à Rebio de Sooretama.>
Em paralelo aguarda uma resposta do Ibama sobre o licenciamento do trecho. “A informação de que até o final de julho eles apresentem uma resposta, se vão ou não autorizar a obra”, destacou.>
O deputado federal Ted Conti, presidente da Comissão de Fiscalização da BR 101/ES da Câmara dos Deputados, informou que pretende antecipar uma reunião com o ministro de Infraestrutura, Tarcisio Freitas, para discutir a liberação do licenciamento para a duplicação. “Queremos a participação da Findes, do governo estadual, da ANTT, da nossa bancada, para tentarmos uma ação mais firme para conseguir esta liberação junto ao Ibama”, explicou.>
Uma das soluções, na avaliação do parlamentar, seria a não duplicação de 25 km do trecho que envolve a área de preservação ambiental em Sooretama, com a redução de velocidade no local. A outra solução seria a construção de um contorno, que ampliaria em 40 km extensão da rodovia.>
A Comissão que ele preside também vê como prioridade a execução de obras que atendam a demanda das comunidades ao longo da rodovia, que necessitam de mais segurança e infraestrutura, como a construção de pontos de ônibus, passarelas, sinalização, entre outras questões.>
O superintendente da Federação das Empresas de Transportes do Espírito, Edinaldo Ferraz, destaca que o transporte de cargas no Estado vem sendo muito afetado pelo atraso na duplicação da BR 101. “Para o transporte, de um modo em geral, não só de cargas, mas também os coletivos e para os carros de passeio, é muito ruim. A duplicação é fundamental”, assinala. >
Destaca ainda que muitas vidas tem sido perdidas na rodovia. “E de quem é a responsabilidade criminal por estas mortes ocorridas em uma rodovia que já deveria estar duplicada?”, questiona.>
A outra proposta da ANTT, presente no documento, é para que seja eliminado da duplicação apenas o trecho da Rebio de Sooretama e sua zona de amortecimento, cerca de 25 quilômetros. A obra poderia assim ser realizada no restante da rodovia - antes e após a reserva.>
Segundo o documento, esta deverá ser a primeira alternativa a ser considerada pela concessionária. “Do que se tem apresentado em reuniões e troca de documentos, a solução mais indicada, na visão desta Superintendência, é a propositura de exclusão da duplicação no trecho que compreende a Rebio e sua zona de amortecimento, mantendo-se a duplicação nos demais segmentos do Trecho Norte”, diz o texto.>
Esta alternativa não será adotada, segundo destacado ainda no documento, se não for aceita pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Neste caso, é sugerido que a proposta a ser avaliada pela Eco101 seria a exclusão da duplicação a partir da reserva.>
Por nota, a Eco101 informa que no em setembro de 2020 o Ibama solicitou da concessionária complementação dos estudos ambientais referente aos contornos de Ibiraçu, Fundão e Linhares, além de novas alternativas para a Rebio Sooretama e sua zona de amortecimento. Obras, segundo a empresa, não previstas no contrato original.>
“A empresa desenvolveu este trabalho atendendo o indicado pela ANTT quanto à variante da Rebio (não duplicar no trecho da Reserva de Sooretama e da Zona de Amortecimento, retomando-a logo após) e em conformidade aos prazos junto ao órgão ambiental, tendo protocolado as complementações por ele solicitadas”, informa.>
Destaca ainda que a evolução do processo e a realização dos estudos foram acompanhados por meio de reuniões recorrentes com a participação da ANTT e o Ibama. “No momento a Concessionária aguarda manifestação conclusiva por parte do órgão ambiental, determinando ou não a viabilidade ambiental de todo o empreendimento”, informa nota da Eco101.>
Procurada pela reportagem, a ANTT afirmou, por nota, que foi realizado estudo de tráfego pela concessionária e o mesmo indicou a possibilidade de implantação de 3ª faixa em trechos críticos do segmento norte da rodovia.>
"Todavia, essa proposta não foi apresentada ao Ibama, uma vez que encontra-se em avaliação junto ao Ibama as alternativas locacionais de contornos à Rebio e a alternativa de não duplicação do trecho da Rebio e sua ZA, mantendo-se os demais trechos duplicados", diz a nota, reforçando que, no momento, a ANTT aguarda a manifestação do Ibama.>
Por nota, o Ibama informou que a concessionária apresentou, no dia 30 de abril, as complementações e esclarecimentos que haviam sido solicitados após análise técnica do Estudo de Impacto Ambiental (EIA-RIMA) do empreendimento.>
“Agora o Ibama procederá à análise dessas complementações e esclarecimentos para avaliar a viabilidade do empreendimento. A conclusão da análise está prevista para meados de julho de 2021”, informa o órgão.>
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