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Pais do ES se mobilizam e rejeitam volta às aulas antes de 2021

Pais e professores mostram-se inseguros com a perspectiva do retorno presencial e temem perigo de contágio do coronavírus

Publicado em 13/07/2020 às 06h00
Atualizado em 13/07/2020 às 10h08
A dona de casa Cláudia de Almeida acompanha os filhos, Luísa e Lucas, nas atividades remotas
A dona de casa Cláudia de Almeida acompanha os filhos, Luísa e Lucas, nas atividades remotas. Crédito: Acervo pessoal

Ainda que a volta às aulas nas escolas do Espírito Santo esteja condicionada à redução da taxa de transmissão do coronavírus, pais e professores mostram-se inseguros com a perspectiva do retorno presencial.

Diretor da Associação de Pais de Alunos do Estado do Espírito Santo (Assopaes), Silvio Nascimento Ferreira conta que já existe um movimento, com hashtag #meufilhonãovaivoltar, de famílias preocupadas com a obrigatoriedade de frequência às salas de aula.

“Não podemos acreditar que apenas os protocolos que a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) está colocando para a educação serão suficientes para realmente dar segurança aos nossos filhos”, sustenta.

Silvio afirma que a mobilização envolve não apenas famílias de estudantes da rede pública, mas também de escolas privadas. “Que segurança nós, pais, temos de que uma criança vai sair de casa boa e não será infectada? Que não vai voltar para casa e infectar um parente com imunidade baixa, passar para outras pessoas da família? Que segurança o Estado vai nos dar?”, questiona Silvio.

A dona de casa Cláudia Cristina Francisco de Almeida, 41 anos, tem um casal de filhos: Luísa, de 12 anos, e Lucas, de 9. Para ela, o ideal seria que o retorno às atividades presenciais acontecesse apenas em 2021.

“O governo critica as pessoas que estão saindo e não cumprem o isolamento, mas o retorno às aulas, se não for aglomeração, não sei o que é. Envolve não só os alunos, mas os profissionais, as famílias. A quantidade de ônibus que vai voltar a circular. Sem contar a higiene na escola; acho que vai ser difícil o controle, principalmente com crianças”, opina Cláudia, que é presidente da Comissão de Pais da Escola Municipal São Vicente de Paulo, em Vitória.

Para ela, mesmo não sendo uma  tarefa simples acompanhar dois filhos em atividades remotas, é temerário discutir retorno quando o número de casos e mortes por Covid-19 ainda é alto no Estado.

Cláudia Cristina Francisco de Almeida

Pesidente da Comissão de Pais da Escola Municipal São Vicente de Paulo, em Vitória.

"Hoje, se dissessem que vão voltar às aulas, eu responderia: ‘muito bem, os meus não vão voltar, não tenho coragem’. Eu não ia dar conta de mandar meus filhos e correr o risco de eles adoecerem"

Coordenadora do Laboratório de Gestão da Educação Básica (Lagebes) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a professora Gilda Cardoso também considera que, por toda a complexidade que envolve o retorno das atividades presenciais, o mais prudente seria que a liberação ocorresse apenas em 2021.

“Vamos supor que a taxa de transmissão tenha uma redução e voltem as aulas. A probabilidade de termos que recuar na medida, como aconteceu em muitos países, é grande e, pior, com mais vítimas. Desta vez, do chão da escola. A faixa etária dos professores da educação básica predominante é de 40/50 anos, pessoas mais vulneráveis. A maioria é mulher que, em geral, cuida de criança, de idoso, que tem filho”, pondera.

Ainda que o ensino remoto seja insuficiente, Gilda Cardoso defende que o momento atual é de investir prioritariamente na assistência social daquelas famílias mais vulneráveis, e manter as atividades não presenciais em 2020.

FRAGILIDADE EMOCIONAL

Entre os professores, a preocupação também existe e se soma a novas exigências que o trabalho remoto impôs, fragilizando muitos profissionais. “Estamos trabalhando essa questão do emocional. Está tudo muito complicado. A primeira preocupação é o retorno: ano letivo se recupera, vidas não”, comenta Noêmia Simonassi, diretora do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Espírito Santo (Sindiupes).

A escola, ressalta Noêmia, é um lugar de interação, de socialização e há uma apreensão entre profissionais sobre como vão poder receber seus alunos.

“Quantos alunos vou ter, será que aprenderam o que ensinei até aqui, como vão chegar, será que perderam alguém? Essas são algumas questões que afligem os professores, mas também o fato de que, durante a suspensão das aulas presenciais, alguns profissionais faleceram e não vão estar mais ali na escola. Por isso, o trabalhador da educação vai precisar de apoio psicológico para esse retorno”, avalia.

No planejamento da Secretaria de Estado da Educação (Sedu), estão programadas ações para acolhimento dos profissionais e dos alunos, no âmbito socioemocional, quando as aulas presenciais retornarem.

“Não vamos deixar de lado os aspectos psicossociais. Vamos abrir a escola com os protocolos de segurança, mas muitos vão estar com medo. Vamos trabalhar essas questões, não vamos chegar tendo aula, mas sim ouvindo os alunos, os professores. Criando um ambiente saudável para todos”, aponta o secretário Vitor de Ângelo.

SEM REPROVAÇÃO

O abandono, assim como aumento nos indicadores de reprovação, é um ponto de atenção do Conselho Nacional de Educação (CNE) que, no último dia 7, aprovou um parecer com orientações para a retomada gradual das atividades presenciais.

Em um deles, o órgão orienta a revisão de critérios de avaliação para conter o crescimento dos casos de reprovação e abandono escolar. O documento, que será homologado pelo Ministério da Educação (MEC), também prevê a flexibilização da frequência presencial.

Outros aspectos abordados pelo CNE são a necessidade de um planejamento de atividades de recuperação dos estudantes, e também a possibilidade de um currículo contínuo dos anos de 2020 e 2021. O órgão ainda ressaltou que as atividades remotas deverão ser mantidas até o próximo ano.

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