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Leitos de UTI do ES vão lotar no próximo dia 16, prevê especialista da USP

Erros nas estratégias iniciais e ausência de testagem dos assintomáticos no Espírito Santo podem provocar cenário catastrófico de mortes e comprometimento da capacidade de atendimento às pessoas com Covid-19, aponta o professor Domingos Alves

Publicado em 04/06/2020 às 12h32
Atualizado em 04/06/2020 às 12h45
Domingos Alves é físico e professor da USP e faz uma previsão catastrófica de mortes para o ES nos próximos 10 dias
Domingos Alves é físico e professor da USP e faz uma previsão catastrófica de mortes para o ES nos próximos 10 dias. Crédito: Reprodução

Espírito Santo não terá mais leitos de UTI disponíveis no dia 16 deste mês. Esta é a previsão alarmante dada pelo físico e pós-doutor em Ciências da Saúde, Domingos Alves, em entrevista à jornalista Fernanda Queiroz, da CBN Vitória, na manhã desta quinta-feira (4).

“No Estado, com uma taxa de adesão ao isolamento em 38% (no dia 3/06) segundo o Mapa Brasileiro da Covid-19 In Loco, a previsão para os próximos dez dias é ter 265 mortes e os leitos de UTI vão lotar no dia 16 de junho. Isso no cenário atual do Espírito Santo”, salientou o especialista, que também é professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS).

As previsões alarmantes são impulsionadas por erros de estratégia dos Estados e municípios no combate inicial à doença, na ausência de testagem volumosa dos assintomáticos e no afrouxamento precipitado do isolamento social, aponta Domingos.

“Os assintomáticos nunca descobrirão, sem serem testados, que tiveram a doença, mas estão transmitindo. O isolamento foi feito de maneira equivocada. Passamos dois meses olhando para pessoas sofrendo em internação, mas estas não geravam novos casos. Houve falha sistemática em não fazer testes em massa na população, procurando pessoas com sintomas leves ou assintomáticos. Estas deveriam ser isoladas e as próximas delas também. Não houve busca ativa dos contactantes das pessoas que estão internadas, e elas estavam sujeitas a serem infectadas”, descreveu o físico, apontando que a flexibilização e reabertura de comércios e shoppings podem gerar números catastróficos brevemente.

“O aumento de casos e óbitos nos próximos dez dias será exacerbado. Os municípios que relaxarem o isolamento nesse sentido vão ver crescer o número de casos em 150% e sobrecarregar a capacidade de atendimento", complementou.

FORA DA CURVA

O erro na estratégia inicial no enfrentamento ao novo coronavírus aparece na curva de casos da doença no país, aponta Domingos.

“O Brasil é o único país do mundo que passa pela pandemia a partir do 50º dia e está acelerando a curva de mortes e casos. Está acelerando e não achatando a curva. Isso está ocorrendo porque flexibilizou cedo demais e sem nenhuma evidência científica para flexibilizar. Esse discurso está por trás da ideia de desafogar a economia local, mas em detrimento do sacrifício da população.”, diz o pós-doutor em Ciências da Saúde.

Domingos Alves afirmou ainda que os gestores faltam com a verdade à população sobre a real situação dos respectivos Estados e cidades e não admitem o erro.

“Quando ouço um gestor falando que toma as decisões baseado em ciências, isso não é verdade. É o contrário, as evidências comprovam que qualquer relaxamento vai ser prejudicial às pessoas. Esse discurso é um plano de sacrifício da população. Os gestores precisam vir a público e dizer que não conseguiram conter o avanço da doença. O alerta que dou de forma geral é que os gestores devem dar assistência efetiva à população, pautados pelos dados da OMS dos países que conseguiram controlar a doença. Agora há um discurso generalizado no Brasil, muito semelhante ao do Presidente (Jair Bolsonaro), de que é preciso salvar a economia, porém isso é em detrimento às vidas”, detalha.

MAU EXEMPLO EUROPEU

Outro país que também errou no combate inicial à doença foi a Suécia, que não implementou o isolamento social e agora enfrenta um elevado número de casos e mortes.

“Comparemos a Suécia, que não fez isolamento, e a vizinha Dinamarca, que fez. A diferença que houve de perdas econômicas entre os dois países é insuficiente para justificar o que a Suécia fez. Tanto é que o governo sueco está abrindo uma CPI para investigar os motivos dessa estratégia equivocada”, concluiu Domingos Alves.

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