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Hilário não aceitava a morte de Milena Gottardi, diz amigo do réu

Testemunhas de defesa dos acusados pelo assassinato da médica Milena Gottardi começaram a ser ouvidos nesta quinta-feira (26), no Fórum Criminal de Vitória

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 27/08/2021 às 10h42
Hilário e Milena: casamento foi em comunhão universal de bens
Hilário e Milena: casamento foi em comunhão universal de bens. Crédito: Fernando Madeira e Reprodução/Facebook - Arte A Gazeta

Nesta quinta-feira (26), o julgamento das seis pessoas apontadas como as responsáveis pelo assassinato da médica Milena Gottardi entrou em uma nova fase: as testemunhas de defesa começam a ser ouvidas. O assessor do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, João Guilherme Souza Pelição, relatou em seu depoimento que acompanhou Hilário Frasson ao Departamento Médico Legal (DML), para fazer o reconhecimento do corpo da médica assassinada. “Ele aparentava não aceitar a morte dela”, contou.  Acompanhe tudo o que está acontecendo no julgamento tempo real.

No dia em que a médica foi baleada, no estacionamento do Hucam, João estava ao lado de Hilário. 

João Guilherme Souza Pelição

Assessor amigo de Hilário e testemunha de defesa

"Ele estava muito desesperado, tentou invadir o centro cirúrgico. Depois recebemos a notícia do falecimento. Ele aparentava não aceitar a morte dela"

Em seu depoimento João relatou que foi amigo íntimo de Hilário enquanto ele estava no TJES, mas que perdeu o contato com ele após a prisão. “Era um bom profissional, escrevia bem, mas não se destacava nem para cima e nem para baixo”, disse.

Explicou ainda que as informações divulgadas sobre Hilário eram diferentes da pessoa que ele conhecia. “Era uma pessoa calma, tranquila, até no trânsito, um bom amigo”, contou. Ele relatou até um episódio que ocorreu no trânsito, em que ele estava presente. “Um carro cortou o nosso com uma manobra arriscada, e comentei com Hilário, que disse que nada podia fazer porque ele estava em alta velocidade”, contou.

SEPARAÇÃO DO CASAL

Segundo João, Hilário não conversava muito sobre a separação. Mas o amigo o acompanhou ao escritório da advogada Rowena, onde participou com ele de uma reunião que considerou “difícil”. 

“Não foi uma reunião muito boa. Foi difícil porque ele tentava contratá-la e ela não mostrava interesse, e ela pode ter ficado com medo porque Hilário estava usando, naquele momento, a arma de serviço. Ele também usava a camisa da Polícia Civil”, contou. Rowena era sócia de Ana Paula Morbeck, que na ocasião foi contratada por Milena Gottardi.

João contou que não teve mais contato com Hilário. Relata que por atuar na área criminal, preferiu se afastar e evitar as visitas para manter a isenção. Na sequência informou que todas as pessoas merecem respeito, independente do que praticaram. “Espero a decisão deste processo para decidir se vou continuar com a amizade”, assinalou.

FAMÍLIA QUERIDA, DIZ AMIGO

A terceira testemunha convocada pela defesa de Hilário Frasson foi Rodrigo Alves Alver, que conheceu Hilário em 2008, quando ele trabalhava como assessor no Tribunal de Justiça do Estado (TJES) e frequentavam a casa um do outro. “Era uma família querida e a minha esposa ficou muito amiga da Milena”, contou.

A percepção dele era de que Hilário era um pai que gostava das filhas. “Mas não era muito afetuoso, era zeloso”. Explicou ainda que o convívio diminuiu quando Hilário saiu do TJES e que na ocasião o salário de Hilário, como assessor nível 2, oscilava entre R$ 10 a R$ 12 mil, além dos adicionais por tempo de serviço.

Também prestou depoimento pela defesa de Hilário o ortopedista Tarciso Fávaro, que informou que conhecia o casal há 20 anos e que foi apresentado a Hilário Por Milena. Foi no apartamento do médico que Hilário se hospedou após a separação de Milena.

“Hilário relatou que, com o incentivo da Milena, ele saiu da condição de um funcionário instável para estável, mas que perdeu rendimentos, e pediu para ocasionalmente pernoitar em meu apartamento. Faria o mesmo pela Milena”, disse.

Após o crime, o médico contou que pediu a chave do apartamento de volta, mas não a recebeu. 

Tarciso Fávaro

Médico amigo de Hilário e testemunha de defesa

"Encontrei com Hilário e tive uma conversa muito dura com ele. Disse que ele tinha me pedido para ficar em meu apartamento, mas que gostaria que ele deixasse o local, que entregasse a chave na portaria, que não me foi entregue. Troquei a fechadura. Dei toda a liberdade para ele, que me foi apresentado por Milena, e fiquei muito abalado com a morte dela. Senti que aquilo era o fechamento da amizade"

Outra testemunha da defesa de Hilário foi o porteiro de prédio onde o casal morava, Moisés da Silva Soares. Relatou que há 13 anos trabalha na função e que nunca viu ou ouviu falar de brigas do casal. Na fase em que Hilário deixou de morar no apartamento, contou que ele passava no prédio, às vezes, para deixar “uma feira” — disse ao se referir a frutas e verduras, que eram deixadas na portaria ou recolhidas pela empregada do apartamento.

Rodrigo Bandeira, advogado de Hilário Frasson
Rodrigo Bandeira, advogado de Hilário Frasson. Crédito: Ricardo Medeiros

Um dos advogados que faz a defesa de Hilário, Rodrigo Bandeira de Melo, informou que as testemunhas desta quinta-feira (26) confirmaram que Hilário queria, a todo momento, reatar o casamento. 

Rodrigo Bandeira de Melo

Um dos advogados que faz a defesa de Hilário

"O Hilário queria reatar com a Milena. Isso foi corroborado pelos depoimentos das testemunhas no dia de hoje, as quais conviviam com Hilário"

DESEMBARGADOR PRESTOU DEPOIMENTO POR VIDEOCONFERÊNCIA

O desembargador aposentado Arnaldo Santos Souza, quinta e última testemunha de defesa de Hilário, depôs na manhã desta sexta-feira (27), por videoconferência. Foi a primeira vez que uma testemunha foi ouvida de forma remota no tribunal de júri do Fórum Criminal de Vitória. Ele contratou Hilário para atuar em seu gabinete, quando atuou no Tribunal de Justiça do Espírito Santo.

Arnaldo Santos Souza

Desembargador aposentado e testemunha de defesa de Hilário

"Ele me foi indicado por sua competência e prestou um bom serviço"

Questionado pelos advogados da defesa de Hilário, o desembargador aposentado afirmou não ter conhecimento de que Hilário Frasson tinha porte de arma de fogo desde 2002. A informação de que Hilário gostava de ostentar armas foi apresentado pelas testemunhas de acusação. "Até onde eu tinha conhecimento, nunca vi ele com arma. Também não sabia que ele tinha porte de arma. Na contratação dele, no Tribunal, inclusive, nós fizemos uma investigação social e não notamos nada que comprometesse", contou.

O advogado Rodrigo Bandeira de Melo avaliou como bom o depoimento do desembargador. “O depoimento de um desembargador reconhecido por sua conceituada trajetória, como foi o do senhor Arnaldo, inspira verdade e credibilidade. O depoimento dele foi fundamentado em anos de convivência. Durante todo esse tempo, o desembargador pode observar o comportamento profissional de Hilário e também atitudes íntegras dele para com a sua família”, disse.

JULGAMENTO

Nos quatro primeiros dias do julgamento, 10 testemunhas da acusação foram ouvidas, sendo uma chamada pelo assistente de acusação e 9 pelo Ministério Público do ES.

Na quinta-feira (26), as testemunhas de defesa começaram a ser ouvidas. Inicialmente, estavam previstos os depoimentos de 19 testemunhas de defesa dos acusados, mas muitas foram dispensadas e esse total será alterado.

A previsão inicial do Tribunal de Justiça era de que o julgamento fosse concluído até sexta-feira (27), mas por conta dos atrasos no início do júri, da complexidade do caso e dos longos depoimentos das testemunhas de acusação nos primeiros dias, a análise do caso pode ser concluída somente no domingo (29) ou na segunda-feira (30).

O destino dos réus será decidido por sete jurados, sendo quatro mulheres e três homens. Quem conduz o julgamento é o juiz Marcos Pereira Sanches.

O crime aconteceu em 14 de setembro de 2017, quando a médica encerrava um plantão. Confira abaixo como seria a participação de cada um dos acusados:

DIA A DIA DO JULGAMENTO

O primeiro dia de julgamento durou quase 12 horas e quatro testemunhas de acusação foram ouvidas. 

No segundo dia, mais quatro pessoas prestaram depoimento, entre elas a amiga de Milena que presenciou o crime. O quarto depoimento foi de Shintia Gottardi, prima de Milena, testemunha solicitada pelo assistente de acusação. 

O terceiro dia do julgamento foi dominado pelo depoimento do delegado Janderson Lube, que presidiu o inquérito que apurou a morte da médica. Ele foi a única testemunha a depor na quinta-feira (25) e detalhou as investigações que levaram aos nomes dos seis réus. Foram 10h40 de depoimento do delegado, o mais longo do julgamento até então.

No quarto dia, o depoimento de Douglas Gottardi — um dos mais esperados — se prolongou até o início da tarde de quinta-feira (26). Ele foi a última testemunha de acusação a depor. 

RELEMBRE O CRIME

A médica oncologista pediátrica Milena Gottardi foi baleada no estacionamento do Hospital das Clínicas (Hucam), em Vitória, na noite de 14 de setembro de 2017, em uma suposta tentativa de assalto. Milena foi socorrida em estado gravíssimo e, após passar quase um dia internada, teve a morte cerebral confirmada às 16h50 de 15 de setembro.

Milena Gottardi: do crime ao julgamento dos réus

As investigações da Polícia Civil descartaram, já nos primeiros dias, o que aparentava ser um assalto seguido de morte da médica (latrocínio). Naquele momento as suspeitas já eram de um homicídio, com participação de familiares.

Ao liberar o corpo de Milena no Departamento Médico Legal (DML) de Vitória, Hilário teve a arma e o celular apreendidos pela polícia. Ele não foi ao velório e enterro, que aconteceram em Fundão, onde Milena nasceu.

Os dois primeiros suspeitos foram presos, no dia 16 de setembro de 2017: Dionathas Alves Vieira, que confessou ter atirado contra a médica para receber R$ 2 mil; e Bruno Rodrigues Broeto, acusado de roubar a moto usada no crime. O veículo foi apreendido em um sítio, onde foram queimadas as roupas do executor.

Em 21 de setembro de 2017, o sogro de Milena, Esperidião Carlos Frasson, foi preso, suspeito de ser o mandante do crime. Também foi detido o lavrador Valcir da Silva Dias, suspeito de ser o intermediário. Na mesma data, o ex-marido Hilário Frasson foi preso.

O último a ser detido foi Hermenegildo Palauro Filho, o Judinho, em 25 de setembro de 2017, apontado como intermediário. Ele tinha fugido para o interior de Aimorés, em Minas Gerais.

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