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Covid: demanda por especialistas para tratar sequelas da doença deve crescer

De acordo com os médicos, as principais sequelas têm surgido nos pacientes que ficaram internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI)

Publicado em 11/10/2020 às 07h18
Curado covid-19
A infecção de Covid-19 pode deixar sequelas em diversos órgãos do corpo humano. Crédito: Pixabay

Um quadro de infecção assintomático ou com sintomas gripais como tosse, coriza, febre e dor de cabeça que perduram, na maioria das vezes, por duas semanas. É assim que a Covid-19, doença provocada pelo coronavírus, se manifesta no organismo humano. O vírus já infectou mais de 35 milhões de pessoas no mundo.

Estudos realizados em diversos países apontam que mesmo os pacientes considerados curados da infecção podem ter sequelas como perda do olfato e paladar por mais de duas semanas, arritmia cardíaca, taquicardia, fibrose no pulmão, insuficiências respiratória e renal, além de doenças neurológicas e psiquiátricas.

No Espírito Santo, mais de 138 mil pessoas já tiveram diagnóstico de contaminação. De acordo com o Painel Covid-19, ferramenta do governo do Estado com atualização diária sobre a doença, mais de 3.600 pessoas morreram por causa das complicações provocadas pelo vírus. Outras 127 mil venceram o Sars-Cov-2.

De acordo com os médicos, as principais sequelas têm surgido nos pacientes que ficaram internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). A Gazeta ouviu diversos profissionais de saúde para entender qual estrutura será necessária e quais serviços serão demandados para que a população tenha acesso aos tratamentos.

Na avaliação da doutora em Saúde Coletiva e Epidemiologia, Ethel Maciel, do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a garantia de atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS), responsável pela prestação de serviços a 72% da população capixaba, é o grande desafio dos gestores da saúde pública.

Ela pontua que consultas especializadas com pneumologistas e fisioterapeutas serão necessárias para pessoas que apresentarem sequelas pulmonares, e  nefrologistas e serviços especializados com acesso a diálises serão demandados por pacientes com sequelas renais.

Ethel Maciel

Doutora em Epidemiologia

"Essas especialidades não são fáceis de acessar no SUS, como também os exames especializados. Assim, o SUS precisará de aporte financeiro para abertura de serviços que possam possibilitar a população acesso em curto prazo e com qualidade"

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), Celso Murad, disse que o atendimento desses pacientes será garantido quando houver manutenção do fluxo de recursos financeiros e humanos qualitativos e quantitativos exclusivos ao casos de Covid-19.

“Essas sequelas podem ser transitórias. Provavelmente vamos ter ainda algumas pessoas que durante muito tempo, senão a vida inteira, vão precisar de acompanhamento fisioterápico. Vamos saber o impacto das sequelas quando os infectados começarem a voltar ao sistema de saúde”, disse.

QUADRO INFLAMATÓRIO

O médico pneumologista Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho é diretor da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde chefia a UTI-Respiratória. 

Ele explicou que o vírus provoca um quadro inflamatório e, que em algum instante, circula no sangue do paciente passando por todo o organismo, podendo invadir alguns órgãos.

Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho

Médico pneumologista

"Nesses órgãos ele vai gerar inflamações e sintomas agudos que podem se prolongar por algum tempo. Alguns vão gerar cicatrização do quadro inflamatório que pode deixar lesões definitivas"

Carlos Roberto destaca que cerca de 25% dos pacientes atendidos no Incor apresentam acometimento cardíaco (arritmia e taquicardia, por exemplo) enquanto 35% são diagnosticados com insuficiência renal. 

Segundo ele, ainda não há dados suficientes para afirmar se esses sintomas poderão ser apontados como sequelas.

“Quanto aos problemas pulmonares, temos acompanhamento de três meses. Uma pequena proporção tem ainda sinais de inflamação pulmonar e alguns tem indícios indiretos de que podem ficar com uma cicatriz como a fibrose no pulmão e isso vai poder implicar o futuro do paciente”, disse.

DOENÇAS CARDIOVASCULARES

O médico cardiologista do Incor Cícero Piva observa que, no começo da pandemia, os pacientes com maior risco de ter doença cardiovascular e aqueles com doenças cardiovasculares já identificadas como os idosos, diabéticos, obesos e hipertensos tinham uma mortalidade por coronavírus maior do que a população em geral.

“Uma das coisas que se sabe é que o vírus entra na célula através de uma coisa que se chama receptor de angiotensina e isso está presente em várias células do sistema cardiovascular e células pulmonares e que poderia ser uma das causas porque o sistema cardiovascular é tão importante para o desfecho desses doentes.”

Segundo Cícero, o vírus desencadeia uma inflamação em todo o sistema cardiovascular. Com o revestimento das artérias e veias inflamado, o paciente pode ter trombose. Nesse caso, aumenta o risco de infarto do miocárdio. “Essa inflamação interfere o suprimento de sangue para o coração e o infarto é o resultado da própria doença viral”, exemplifica.

DOENÇAS MENTAIS

Para Valdir Ribeiro Campos, médico psiquiatra e presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (APES), outro reflexo da pandemia, tanto no Espírito Santo quanto em outros estados brasileiro, foi o aumento dos casos de pacientes com transtornos mentais, ansiedade generalizada, crises de pânico relacionadas à ansiedade.

“O que chama a atenção é que desde o início da pandemia os casos que estavam estabilizados, se desestabilizaram. Principalmente, no primeiro momento, daqueles pacientes que tiveram dificuldade de sair, não tinham como consultar ou se contaminaram. No segundo momento começaram os casos por causa do confinamento”, relata.

O QUE DIZ A SESA

A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou, por nota,  que "a reabilitação dos pacientes é de baixa complexidade e que os curados da Covid-19 serão acompanhados pela Atenção Primária. Caso necessitem de encaminhamento para o especialista, será feito dentro do fluxo já existente."

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