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Especialista alerta para sequelas cardíacas do Covid-19 em atletas

Em entrevista ao LANCE!, cardiologista Margarete Henriques falou sobre os sintomas aos quais esportistas de alto rendimento que contraíram coronavírus devem ficar atentos...

Publicado em 22/09/2020 às 13h02
Atualizado em 22/09/2020 às 16h30
 Crédito: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians
Crédito: Rodrigo Coca/Ag. Corinthians

Um histórico de atleta não é garantia de menos riscos à saúde e à ausência de sequelas em caso de contágio pelo Covid-19, em especial as cardíacas. Segundo a cardiologista Margarete Henriques, médica com 17 anos de experiência na área, contou ao LANCE!, estudos recentes indicam que o coronavírus pode afetar o sistema cardiovascular de indivíduos e trazer consequências graves, se não for feito um acompanhamento correto.

– O vírus pode afetar o sistema cardiovascular com manifestações diversas, como insuficiência cardíaca, arritmia, trombose e até morte súbita. Embora esses estudos sejam pequenos e suas conclusões ainda não totalmente compreendidas, está claro para os médicos que um jovem que aparentemente superou a Covid-19 pode apresentar algum problema cardíaco. Ainda não se sabe se é um dano causado diretamente pelo vírus, ou se decorre de uma resposta imunológica exacerbada do organismo causada pelo vírus – alertou Margarete, que tem especialização em Cardiologia pelo Hospital do Coração HCOR de São Paulo.

Os protocolos existentes para atletas, em geral, exigem apenas o isolamento de dez dias e permitem a volta das atividades após nova testagem. Não há ainda qualquer indicação de cuidados específicos ou acompanhamento cardiológico.

– O retorno ao desporto vai depender do grau de acometimento da doença, mas é interessante que, independentemente disso, tenha um retorno gradual às atividades físicas. Mesmo após o tempo médio de cura, o organismo ainda leva um tempo para se restabelecer totalmente. Então é importante fazer um acompanhamento médico – recomenda a cardiologista.Veja outras respostas da cardiologista Margarete Henriques ao LANCE!:

O que há de concreto em termos de estudos e pesquisas sobre sequelas cardíacas do Covid-19? Que associações já foram feitas entre o vírus e problemas cardíacos?

Pacientes que se recuperaram da Covid-19 podem ter sequelas de médio a longo prazo. Como se sabe, a doença é sistêmica, ou seja, agride outros órgãos. Há exemplos de sequelas no coração como a miocardite, que é uma inflamação do músculo cardíaco. O virus pode afetar o sistema cardiovascular com manifestações diversas, como insuficiência cardíaca, arritmia, trombose e até morte súbita. Um estudo alemão feito em julho e publicado na revista Jama Cardiology mostra como o coronavírus afeta o coração. Cientistas estudaram cem pessoas na faixa dos 49 anos que se recuperaram da Covid. A maioria apresentou sintomas leves, ou não apresentou sintomas. Seis meses depois, os cientistas submeteram os pacientes a exames de ressonância magnética e descobriram que 80% deles apresentaram anomalias cardíacas e 60% apresentaram miocardite.Outro estudo publicado também na Jama Cardiology apresentou outro número: autópsias feitas em 39 pacientes que morreram de Covid revelaram a presença do vírus no miocárdio em 60% dos casos. Ou seja, embora esses estudos sejam pequenos e suas conclusões ainda não totalmente compreendidas, está claro para os médicos que um jovem que aparentemente superou a Covid-19 pode apresentar algum problema cardíaco. Ainda não se sabe se é um dano causado diretamente pelo vírus, ou se decorre de uma resposta imunológica exacerbada do organismo causada pelo vírus.

O que essas sequelas podem representar para os atletas de alto rendimento? Por quanto tempo podem durar? São irreversíveis?

O fato de a doença ser nova mantém alguns aspectos desconhecidos. Uma delas é o impacto causado no organismo depois da recuperação. Muitos pacientes apresentam características persistentes ou sequelas em diferentes partes do corpo. E o tempo de recuperação é tema de estudos no mundo todo. Ainda é cedo para definir os impactos da Covid 19 a longo prazo na vida de alguns pacientes, mas alguns estudos preliminares estão sendo divulgados em relção à repercussões no corpo e no coração. No caso dos atletas, ao serem diagnosticados com coronavírus, é necessária muita atenção no retorno às atividades. O retorno ao desporto vai depender do grau de acometimento da doença, mas é interessante que, independentemente disso, tenha um retorno gradual às atividades físicas. Mesmo após o tempo médio de cura, o organismo ainda leva um tempo para se restabelecer totalmente. Então é importante fazer um acompanhamento médico.Quais os riscos para o atleta que contraiu coronavírus? Essas sequelas podem afetar o desempenho até que ponto? Há risco de ter que encerrar a carreira?

A rapidez da cura ajuda muito a diminuir o risco das complicações, mas o processo é muito individual. O esportista acometido pelo coronavírus deve tomar muito cuidado durante o tratamento da virose. O médico fará a solicitação de exames de sangue, tomografia computadorizada do tórax, teste de esforço, ecocardiograma, e aí sim, após a realização dos exames, o atleta volta a praticar a sua atividade física após a total liberação do médico. As sequelas podem afetar o desempenho do atleta dependendo da gravidade da doença. Pesquisadores de Hong Kong divulgaram recentemente que de 12 pacientes avaliados, que realizaram tratamento em hospitais de Covid-19, três deles apresentaram redução da capacidade pulmonar. As pessoas analisadas relataram dificuldade para respirar em atividades que exigiam maior esforço e tiveram uma queda de 30% na função pulmonar. Com relação ao risco do esportista ter de encerrar a carreira, vai depender da gravidade da doença instalada.

A que sintomas os atletas que contraíram coronavírus devem ficar atentos para saber se houve sequelas cardíacas?

Os atletas que contrariam a Covid-19 devem ficar alertas aos sinais e aos sintomas como cansaço excessivo, palpitações, faltas de ar, dores de cabeça, dores no peito e dores musculares. Geralmente os casos de dano pulmonar mais graves acontecem na faixa etária de risco, que são idosos e portadores de doenças crônicas. Se o atleta for acometido pelo coronavírus e tiver manifestações leves, não terá comprometimento pulmonar e poderá retomar as atividades normalmente após o tempo da doença. Porém, se tiver manifestações mais graves, dependendo do dano na estrutura dos pulmões, é possível que o esportista recupere sua capacidade pulmonar com auxílio de medicações e fisioterapia respiratória. Em relação ao sistema cardiovascular, as principais manifestações seriam arritmias, isquemias, miocardite. A miocardite, que é uma inflamação no músculo do coração, pode ter uma evolução de seis ou mais meses. Geralmente essa doença evolui para a cura sem nenhuma sequela, o que permite o retorno ao esporte, ou evolui para a cura com sequelas, onde o paciente pode apresentar arritmias malignas ou benignas. Nesse caso são necessários tratamentos variados com medicações, ou até mesmo intervenções. Pode evoluir também para uma dilatação no coração, o que pode causar insuficiência cardíaca. Há diferença entre essas sequelas entre atletas e não atletas? O fato de ser atleta pode amenizar de alguma forma esses efeitos?

Atletas que realizam exercícios de alta intensidade não têm maior imunidade que as pessoas que não praticam esportes de alto rendimento. Pesquisas indicam que excessos de treino em alta intensidade e longa duração diminuem a imunidade, ao passo que exercícios de leve à moderada intensidade diminuem risco de infecção, visto que os indivíduos que praticam alguma atividade física ficam menos resfriados que os sedentários. Vale dizer que atletas que praticam exercícios intensos são mais propícios a infecções do que os sedentários.

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