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Covid-19: ES é o 7° em ranking com mais mortes por 100 mil habitantes

A informação foi publicada nas redes sociais do médico João Gabbardo, de acordo com o mapa da Taxa de Mortalidade

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 11/05/2021 às 21h46
Atualizado em 12/05/2021 às 08h09
Leitos do Hospital Materno-Infantil, na Serra, para pacientes com a Covid-19
Conass aponta ES como 7º em mortes pela Covid-19 por 100 mil habitantes. Crédito: Divulgação/Sesa

O Painel de Análise Geográfica do Conselho Nacional de Secretarias de Saúde (Conass) elencou o Espírito Santo como o sétimo Estado brasileiro em número de mortes por 100 mil habitantes pela Covid-19. A informação foi publicada nas redes sociais do  médico João Gabbardo, ex-Secretário Executivo do Ministério da Saúde e atual Coordenador Executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do Governo de São Paulo.

Em dados atualizados nesta terça-feira (11), de acordo com o mapa da Taxa de Mortalidade pela doença, ilustrado no portal do Conass, o índice no Espírito Santo é de 247,7 mortes por 100 mil habitantes — mantendo a sétima posição no ranking. Levando-se em consideração o total da população capixaba, de 4.018.650, o Estado contabiliza 10.013 óbitos, segundo o Painel Covid-19, atualizado diariamente pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

Para a enfermeira, pós-doutora em Epidemiologia, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e consultora da Organização Mundial de Saúde (OMS), Ethel Maciel, um primeiro ponto a ser analisado para justificar a posição do Estado no ranking é que boa parte dos recursos foram empregados em ampliação de leitos, o que pode ser bom por um lado, mas por outro demanda equipe muito qualificada.

Segundo a especialista, desde o início da pandemia o Espírito Santo está sempre entre os dez primeiros Estados com mais óbitos por 100 mil habitantes. 

Ethel Maciel

Pós-doutora em Epidemiologia

"Não temos como explicar uma só razão, mas nós tivemos um investimento em todo o Brasil, e aqui também, na ampliação de leitos de UTI e isso demanda uma qualificação de equipe muito grande. Não adianta abrir leitos e não ter uma equipe muito qualificada. Os indicadores não vão ser bons. São necessários tempo e treinamento de pessoas"

Ethel aponta ainda que é necessário ter investimento contínuo, em especial em testagem e isolamento, o que não aconteceu em muitos Estados. "Aqui nós até fizemos mais que em outros lugares. Precisamos estudar melhor o caso. Tivemos aqui uma regulação de vagas, transferências de hospitais, mas tudo isso precisa ser melhor analisado quando acabar a pandemia", disse.

Para o médico infectologista Lauro Ferreira Pinto, estar na sétima posição com relação à taxa de mortalidade é um índice alarmante. "Não é uma boa posição, claro. E algo a ser analisado é se tem relação com o percentual de população idosa do Espírito Santo, pois é um dos Estados com população mais idosa do país. Também é preciso estudo criterioso dos óbitos por serviço em hospitais públicos e privados e ver o perfil destes óbitos, analisando idade, comorbidades e outros fatores. Este dado deve refletir qualidade da assistência também. Se o governo federal fosse sério, já estaria estudando isso", pontuou.

No ranking, o Amazonas aparece no primeiro lugar, com 307,1 mortes por 100 mil habitantes (307,5 em índice atualizado). Na sequência vêm os Estados de Rondônia, Mato Grosso, Distrito Federal e Rio de Janeiro.

Segundo Lauro, uma das justificativas para o Estado do Amazonas estar em primeiro lugar na classificação de óbitos pode ser justificado ainda pelo colapso que houve. "Foram mortes evitáveis e lá a população é mais jovem do que a capixaba, por exemplo", disse.

Em termos de taxa de incidência no Espírito Santo, o Conass aponta 11.183,3 casos a cada 100 mil habitantes e uma taxa de letalidade de 2,2%, que representa a avaliação o número de mortes em relação às pessoas que apresentam a doença ativa, e não em relação à população toda, ou seja, mede a porcentagem de pessoas infectadas que evoluem para óbito.

Sobre o assunto, o Ministério da Saúde foi demandado. Esta publicação será atualizada quando a pasta se pronunciar.

"TIVEMOS UMA VELOCIDADE DE PROPAGAÇÃO MAIOR", DIZ NÉSIO

O Secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, pontuou que o ranking que classifica o Espírito Santo em sétimo em mortes por habitantes tem correspondência também com a posição de vanguarda que o território capixaba assumiu na pandemia.

"Nós já estivemos em quarto lugar, inclusive. O comportamento da pandemia no ES está adiantado em relação a outros estados. Estamos muito convencidos de que o Estado foi um dos primeiros a ter casos e transmissão comunitária do país. A dimensão territorial é pequena e temos grande integração, somos cruzados por rodovias que vão ao interior, além de portos, aeroportos e ferrovias. Isso nos colocou em uma posição que em dezembro de 2020 tivemos 100% dos municípios envolvidos por pelo menos uma onda da pandemia", explicou.

Segundo Nésio, alguns estados brasileiros ainda vivem o drama da interiorização da doença, fenômeno que aqui foi vivido em 2020. "Se observarmos a curva de Cachoeiro, por exemplo, tivemos três grandes ondas reais, com correspondência de casos, óbitos e internações. Não dá para comparar a mortalidade total de eventos por população no ES, que teve uma posição dianteira, com outros estados. Em estados com dimensões muito grandes, como Pará e Maranhão, a doença não se interiorizou com a velocidade que tivemos. A gente se prepara para uma quarta onda enquanto o resto se prepara para a terceira", ressaltou.

Além da maior velocidade de transmissão, o secretário também falou em quantidade de idosos no Estado. "Isso também tem relação com o resultado do ranking. A longevidade da população capixaba, junto com Santa Catarina, corresponde a maior expectativa de vida no país. De fato, com a população mais longeva e com um vírus que teve predileção por pessoas nessa condição, esse fator tem impacto", acrescentou.

FALTA DE COORDENAÇÃO NACIONAL

Para a pós-doutora em Epidemiologia, um fator que tem contribuído significativamente para agravar a situação no país é a falta de coordenação nacional de protocolos. "Não ter protocolos sobre como internar, quais são os parâmetros, como agir nos casos mais graves, em que momento precisamos entrar com medicamentos, tudo isso contribui para mais mortes. Não tivemos essa coordenação principalmente de protocolos clínicos, para manejo dos casos. No Brasil, cada estado foi fazendo de um jeito, cada hospital foi fazendo de uma forma e nós temos hoje hospitais com indicadores melhores que outros", comentou.

No mesmo sentido, Ferreira Pinto afirma que a falta de coordenação unificada, com diretrizes nacionais, contribui imensamente para a situação atual. "Não há protocolos unificados, mesmo depois de um ano de pandemia. O Conselho Federal de Medicina e os CRMs estão defendendo autonomia médica, o que dá aval a qualquer maluquice. Os Conselhos de Medicina se perderam na pandemia. Deixaram se politizar da pior forma possível, fechando os olhos para a ciência."

TRANSPARÊNCIA

Outro fator de importância na análise do taxa de mortalidade é, segundo Nésio Fernandes, a transparência dos dados apresentados pelo Estado, ainda que isso signifique colocar o Espírito Santo no topo do ranking.

"Esse detalhe é importante também. Temos um sistema de investigação de óbitos que nunca nos deixou abaixo de 100 ou 200 óbitos registrados em cartório. Outros estados chegam a uma maior diferença. É possível afirmar que existe subnotificação em alguns outros estados, não temos dúvidas. A estrutura que montamos para investigar diariamente é impressionante, temos um dossiê para cada óbito, um amplo acervo para revisitar no futuro. A forma do encerramento do óbito tem uma dinâmica diferente", pontuou Nésio.

Nésio Fernandes

Secretário da Saúde

"A transparência é uma característica que nos dá desvantagem quando passamos a ser avaliados no indicador de quem não tem a mesma transparência. Mas temos orgulho disso. Nos parece adequado para ter capacidade de mobilizar a sociedade e para termos credibilidade, não escondemos os nossos mortos e a gravidade da crise. Em nenhum momento o ES fará opção pela omissão para enganar a população. Hoje se um município encerrar um óbito às 15h, está encerrado no painel também, 1h30 depois"

CENÁRIOS PARA OS PRÓXIMOS MESES

Diante do panorama atual, Nésio elencou três possíveis cenários para os próximos meses:

  1. 01

    Nova onda de casos com baixa mortalidade

    Nesta seriam predominantes as cepas já conhecidas e a onda viria com baixa mortalidade, por conta de alta cobertura vacinal da população idosa e com comorbidades.

  2. 02

    Nova onda com alta internação e mortalidade

    Nesta hipótese haveria circulação de cepas entre pessoas de 30 a 50 anos que não estão cobertas pela vacina, como ocorreu em outros estados em que houve grande circulação da P1, que mata mais adultos e o adultos jovens. "Nela existe uma frequência entre pessoas entre 30 e 50 maior do que nas cepas originárias, mas não levam, geralmente, para a UTI pessoas com 18 a 30 anos. Nessa segunda opção, que é o pior cenário, as novas cepas assumiriam predominância na transmissão comunitária.

  3. 03

    Cenário de controle da pandemia

    No melhor cenário, há testagem em massa, com efeito do isolamento dos casos ativos, uso de máscara reduzindo a transmissão e aplicação das vacinas com um efeito protetor, tudo isso fazendo com que não haja uma 4a onda tão significativa.

TAXA DE MORTALIDADE X LETALIDADE

De acordo com a médica infectologista Rúbia Miossi, observar, por si só, o ranking divulgado pelo Conass, pode ser mais assustador do que a situação de fato é. A especialista explica que observar a taxa de mortalidade, para o caso de uma doença como a Covid-19, pode não ser a melhor métrica, já que o indicador leva em consideração o número de óbitos dividido pela população.

"O ranking fala em taxa de mortalidade. Já a taxa de letalidade representa mais quanto que a Covid mata em cada local, ou seja, é melhor para falar de doença aguda. A taxa de letalidade nossa é muito menor do que a de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo. Número de óbitos por habitante não é a melhor forma de mensurar. A taxa de letalidade é a porcentagem de casos que vão a óbito dentro do número total de casos confirmados", iniciou a médica.

Rúbia Miossi

Médica infectologista

"O que pode explicar este ranking é que o ES é um dos estados que mais fizeram testes. Com isso, boa parte dos óbitos são confirmados. Lugares com menos testes não conseguem confirmar que o óbito foi por Covid. Essa é uma possibilidade a ser considerada. Outra questão é a qualidade do atendimento. Apesar de termos muitos óbitos por número de habitantes, a gente tem uma taxa de óbitos relativamente normal. A cada mil pacientes, morrem 22 aqui"

Em resumo, Miossi afirma que a taxa de mortalidade reflete quantas pessoas estão morrendo em determinada população pela doença. Mas a taxa de letalidade é a que dá o real impacto da doença, pois mostra a chance de uma pessoa morrer por aquela doença se estiver infectada. Logo, a taxa de mortalidade sofre interferência da capacidade de testagem da população. Quem testa mais, mais casos encontra. "Assim, tem mais mortes em contrapartida também, porque investiga melhor as mortes. Quem não testa, artificialmente tem uma mortalidade menor, justamente porque não investiga. Calcular a letalidade elimina esse viés de testagem, porque só quem é positivo para a doença entra na conta", finalizou.

ATUALIZAÇÕES

Nesta segunda-feira (10), o secretário da Saúde, Nésio Fernandes, atualizou, em coletiva de imprensa, a situação da pandemia no Estado. Para a autoridade em Saúde, o crescimento dos óbitos nos próximos meses depende do comportamento da população.

"Nós queremos apostar que o pacto pela vida adotado no nosso Estado permita que, ao longo das próximas semanas, consigamos preservar a queda de internações e óbitos. Não viver uma nova expansão até junho dependerá da população e da atenção primária em saúde", afirmou Nésio.

Com 50 novas mortes contabilizadas nesta terça (11), o Governador do Estado, Renato Casagrande, se pronunciou por meio do Twitter, lamentando os óbitos e propondo reflexão sobre a gravidade da pandemia.

Em termos de casos do coronavírus, nas últimas 24 horas, foram identificados 1.783 novos contaminados, chegando a 451.485 pessoas infectadas desde o início da pandemia.

Na lista dos municípios mais afetados, a Serra é a cidade com mais pessoas infectadas: 57.526. Vila Velha aparece em segundo, com 55.667 confirmações da doença, seguido por Vitória (48.592) e Cariacica (35.351).

No recorte por bairros, Jardim Camburi, na Capital, segue no topo do ranking, com um total de 7.326 casos confirmados. Em segundo lugar está o bairro Praia da Costa (5.782), em Vila Velha.

Até esta terça-feira (11), mais de 1,3 milhão de testes já foram realizados para identificar a Covid-19 em território capixaba. O número de curados chegou a 425.875, sendo 1.576 nas últimas 24 horas. A taxa de letalidade da doença está em 2,2% no Estado.

A vacinação contra a Covid-19 continua no Espírito Santo. Até o momento, 744.904 pessoas já haviam recebido a primeira dose da vacina no Estado.

CHEGADA DE NOVO LOTE DAS VACINAS

O Espírito Santo recebeu, na noite desta segunda-feira (10), um novo lote de vacinas da farmacêutica Pfizer. As 24,3 mil doses chegaram de aeronave às 19h30, em Vitória. Esta é a segunda remessa de imunizantes da Pfizer que chega ao Estado. O lote anterior continha pouco mais de 10 mil doses.

A remessa desta segunda-feira foi levada para a Rede Estadual de Frios, em Vitória, pois este imunizante precisa permanecer em refrigeração de -25º.

Um estudo conduzido em Israel junto a profissionais da área de saúde e publicado no Journal of the American Medical Association (Jama) mostrou que a vacina contra a Covid-19 produzida pela Pfizer reduziu as infecções sintomáticas pela doença em 97%, ao passo em que diminuiu as assintomáticas em 86%.

Correção

12 de Maio de 2021 às 08:08

A primeira versão desta matéria trazia, erroneamente, que o médico João Gabbardo seria presidente do Conass. A informação foi corrigida e o texto foi atualizado.

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