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Cientistas citados em plano de vacinação dizem que não deram aval a documento

Nomes de pesquisadores que auxiliam o Ministério da Saúde na elaboração do plano de imunização contra a Covid-19 constam na lista de colaboradores do documento. Eles afirmam não ter conhecimento da versão final do texto, divulgada neste sábado

Vitória
Publicado em 12/12/2020 às 22h40
Atualizado em 13/12/2020 às 10h47
Ethel Maciel, enfermeira epidemiologista e colunista de A Gazeta
Ethel Maciel, professora da Ufes e pós-doutora em Epidemiologia, integra grupo que assessora o ministério. Crédito: Fernando Madeira

Pesquisadores e cientistas do grupo técnico encarregado de auxiliar o Ministério da Saúde na elaboração do plano nacional de vacinação contra a Covid-19, cujos nomes constam na lista de elaboradores do documento publicado neste sábado (12), divulgaram uma nota afirmando não ter sido consultado sobre a versão final do texto. O plano foi tornado público neste sábado após o governo federal enviar o plano ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Na nota, assinada por 36 especialistas, o grupo afirmou ter sido pego de surpresa e que a versão publicada não foi passada por eles.    Os pesquisadores destacaram que nunca tinham visto o documento e que tomaram conhecimento da versão final do plano, com seus nomes, pela imprensa. Eles destacam, inclusive, que alguns pontos do planejamento para a imunização contra o coronavírus não refletem o posicionamento do grupo.

"Nos causou surpresa e estranheza que o documento no qual constam os nomes dos pesquisadores deste grupo técnico não nos foi apresentado anteriormente e não obteve nossa anuência. Importante destacar que o grupo técnico havia solicitado reunião e manifestado preocupação pela retirada de grupos prioritários e pela não inclusão de todas as vacinas disponíveis que se mostrarem seguras e eficazes", diz o texto.

Os pesquisadores afirmam ainda que todas as populações vulneráveis devem ser incluídas na prioridade de vacinação, como quilombolas, populações ribeirinhas, privados de liberdade e pessoas com deficiência.

"Outro ponto importante a ser considerado é a ampliação do escopo para todos os trabalhadores da educação e também a inclusão, nos grupos de vacinação, para os trabalhadores essenciais. Novamente, vimos solicitar do governo brasileiro esforços do Ministério da Saúde para que sejam imediatamente abertas negociações para aquisição de outras vacinas que atendam aos requisitos de eficácia, segurança e qualidade."

A nota encerra dizendo que "um atraso na campanha de vacinação significa vidas perdidas" e que é preciso nesse momento "utilizar a ciência para a tomada de decisão que norteará o que mais importa, a preservação de vidas de milhares de brasileiros e brasileiras".

"NÃO SABIA DA EXISTÊNCIA DESSE DOCUMENTO"

Integrante do grupo que assessora o ministério, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pós-doutora em Epidemiologia Ethel Maciel disse, para a reportagem de A Gazeta, que eles não foram comunicados pelo governo sobre o documento e que há vários pontos no plano apresentado que os cientistas discordam.

"Não sabíamos nem que existia esse documento. Não falaram com a gente. Ficamos sabendo pela imprensa e fomos surpreendidos por ter nosso nome colocado como elaboradores. Até porque tem algumas coisas que não refletem o posicionamento do grupo quanto a priorizações."

Ethel lembrou que, nesta semana, o grupo publicou uma carta pública e enviou outra mais técnica para o ministério defendendo pontos que não estão no planejamento. "A gente quer vacinar 70% da população, então o plano precisa ser amplo, para poder vacinar todo mundo. Ele não pode trabalhar com um mínimo de doses".

Outro ponto que ela questiona é a falta de prazos para início da vacinação e da duração de cada uma das quatro fases iniciais. "Falta explicar quando vai começar e o tempo dessas fases. Os professores, por exemplo, estão na quarta fase. Se ela for só no final do ano, já foi o ano letivo inteiro. É preciso que haja mais doses para que as fases sejam curtas, mas isso não está plano".

A pesquisadora ainda destaca que o governo continua sem dizer claramente se vai fazer acordo para comprar a Coronavac, produzida pelo Instituto Butantan no Brasil, em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

"Não faz sentido não trabalhar com as doses da Coronavac. O plano só traz as da AstraZeneca, e da Covax Facility (consórcio da OMS), e a da Pfizer, ainda em negociação, e sem dizer para quando essas doses".

Plano nacional de operacionalização contra a Covid-19

Veja a íntegra do documento disponibilizado pelo Supremo Tribunal Federal

O grupo solicitou uma reunião com o Ministério da Saúde, que deve ocorrer na segunda-feira (14). "Decidimos publicar essa nota para esclarecimento, mas ainda não pensamos em ação judicial", diz a nota.

A assessoria de imprensa do ministério alegou que todos os envolvidos estavam cientes de que existia um prazo de entrega para o STF. "Porém, na quarta-feira o ministro irá agradecer o empenho, conhecimento, dedicação a cada um dos pesquisadores, cientistas, médicos e demais servidores no evento", diz.

O PLANO DO GOVERNO

O plano do governo, que foi enviado ao STF na sexta (11) e divulgado pelo gabinete do ministro Ricardo Lewandowski neste sábado, traz alguns detalhes sobre o programa de imunização, mas não diz, por exemplo, quando a vacinação vai começar. O ministério estima que serão necessárias 108,3 milhões de doses para imunizar todos os grupos prioritários em quatro fases, considerando a aplicação de duas doses.

O documento também só trata da vacinação dos grupos prioritários, estimados em 51 milhões de brasileiros (um quarto da população), embora reconheça a necessidade de que ao menos 70% da população se imunize para barrar o vírus, ou seja, mais de 148 milhões de pessoas.

O Ministério da Saúde considerou como grupos prioritários na primeira fase da vacinação trabalhadores dos serviços de saúde, pessoas a partir de 80 anos, depois de 75 a 79 anos, e indígenas.

Na segunda fase, estão pessoas de 70 a 74 anos, de 65 a 69 anos e de 60 a 64 anos.

Na terceira fase, estão pessoas com comorbidades (diabetes mellitus; hipertensão; doença pulmonar obstrutiva crônica; doença renal; doenças cardiovasculares e cerebrovasculares; indivíduos transplantados de órgão sólido; anemia falciforme; câncer; obesidade grave).

Na quarta e última estão professores, nível básico ao superior, forças de segurança e salvamento e funcionários do sistema prisional.

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